Os deuses e os joões

Quero presenteá-los com um vídeo incrível e dar um pequeno pitaco sociológico.

Eu sei que é uma mulher, você também. Eu sei que ela vai pra aula, que veste jeans, que come e vai ao banheiro. Sei que escolheu esta música por um motivo bem banal, porque gostou e porque estava acessível, e que cada pedaço da coreografia foi construído aos poucos. Escolhas foram feitas durante o processo; movimentos que poderiam ficar ainda melhores não foram colocados porque ela não conseguia fazer, porque não encaixavam na música, ou apenas nem pensou neles. Apesar dela ser uma pessoa com história, nome, maquiagem, roupa encomendada, no momento que vemos o vídeo é como se ela encarnasse uma deusa. Vi inúmeras vezes e em todas eu me arrepio.

O pitaco: ganharemos mais quando as análises deixarem de se focar apenas no João da Silva. Seja o João da Silva um juiz poderoso que cometeu atos ilícitos, seja o João da Silva um segurança que cometeu um ato violento. O João da Silva é ele mesmo mas é também um grupo, uma forma de encarar, uma causa e uma consequência. O João da Silva reflete a forma que outros João da Silva agiria no mesmo lugar. Eliminar um João da Silva sem levar em conta o contexto significa apenas trocar um João da Silva por outro.

Uma amizade com Marte

mars

Tudo começou quando Marte entrou em movimento retrógrado, no início do ano. Os astrólogos falando nisso, os grupos de whats falando nisso, explicações físicas e metafísicas. Fiquei sabendo que o planeta no movimento retrógrado – que é uma ilusão dada pelo ponto de vista da terra, porque nenhum planeta anda para trás – fica mais próximo da Terra, então seria mais fácil localizar Marte no céu. Eu o achei bem em cima da minha casa, olhando para cima quando estou na parte dos fundos, uma luz vermelha e imóvel no céu. Nos astrólogos: “Sabe porque está tão seco, sabe porque a agressividade no mundo? Marte”. Eu olhava para o céu todas as noites e pensava: você, hein. Depois me senti mal, ficar acusando uma luz bonita no céu. Conversamos. “E quando você se sentia só e deprimida, quando nada lhe dava prazer e mesmo assim você se levantava da cama e fazia tudo o que precisava ser feito, de onde vinha aquela força?” Aí eu entendi. o poder que a Astrologia descreve quando usa Marte no seu simbolismo.

Oh, rei! Marte excede na crueldade, é cortante como uma lâmina de cimitarra e vem tão furioso com qualquer que venha até ele com arrogância, que ele totalmente destrói a família desta pessoa e a prosperidade. Aqueles que vão até ele regularmente, com humildade, seguindo o ritual apropriado, ele abençoa com ganho de saúde e perda de doenças. O juramento de Marte alivia todas as dificuldades, especialmente essas de doenças, débitos e inimigos.

The Greatness of Saturn, cap.4: Mars

Na mesma época, eu soube que a noção de que a energia de Marte é o sujeito que vai no bar e bate em todo mundo é errada. Esta é uma forma de agressividade insegura, defensiva, como a do cachorro covarde que ataca. Um bom Marte é como pensar num samurai, alguém que tem um grande poder de destruição, tão certeiro que só é usado nos momentos precisos. Marte é força, se a humanidade se perde e não sabe o que fazer com ela, aí já é outra história.

Eu fiz, então, as pazes com Marte. Toda noite o cumprimentava nos fundos de casa. Às vezes lembrava de algumas coisas e concluía: vivi muito tempo contando apenas e tão somente com ele. Sedução de Vênus, confiança do Sol, sentimentalismo da Lua, prosperidade e sorte de Júpiter? Não, Marte. Quando soube que ele havia saído do seu movimento retrógrado e não seria mais tão visível, fui lá fora lamentar. Eu disse a ele: sentirei saudades.

Marte não está mais tão visível no céu, mas isso é pra vocês. Pra mim ele está sempre lá. Às vezes volto à noite e – como quem está distraído e olha na direção de quem o olha – eu olho pra cima e o vejo, Marte. Há noites em que apenas Marte está visível no céu, só ele na escuridão azul, e horas depois a noite fica inteira encoberta. Foi apenas para Marte demonstrar que me cuida.

A oitava superior

teclado

Lembro que achava a expressão muito chique antes de saber o que era e, quando descobri, fiquei temporariamente decepcionada por sua simplicidade. É assim: as notas musicais são sete, né? A oitava superior é a nota na outra escala, igual a anterior só que pra cima, mais aguda. (Se for oitava inferior, é mais grave) Só que com essa expressão dá pra pirar em coisas muito além da música. Como pensar em espirais, os espirais dos fatos, da história, da evolução. Quem sabe a cobra não morda realmente o rabo, que a gente tenha essa sensação ao olhar a espiral de cima e só ver o círculo. Com oitavas superiores, círculos e espirais quero falar que a gente percebe que a vida segue padrões, que dá a impressão de que as coisas acontecem de novo e de novo, mas como aconteceu depois e em outra época, é de novo mas também é diferente. É uma oitava superior. Pra falar a verdade, estou viajando aqui para não falar de algo concreto mas que só diz respeito a mim. Hoje, numa conversa, citei um exemplo banal e quando me dei conta estava chateada. Sem as pessoas saberem eu contei uma insegurança muito íntima e no âmago dela estava uma queixa repetitiva minha, algo que permeia o meu trabalho, a forma como me vejo, os meus relacionamentos, tudo. Aí lembrei que li um texto sobre a mesma questão há poucos dias e tinha ficado pensativa, e há semanas tive isso esfregado na cara e fiquei arrasada, enfim, sempre a mesma história. Ter trocentos insights me deixa aflita em perceber o quão grande é o problema e me pergunto quanto mais eu ainda preciso ter pra esgotar essa energia. Eu me sinto de volta sempre ao mesmo ponto, mas espero, quero muito acreditar, rezo, estou me empenhando para que seja uma oitava superior.

Subconsciente, esse deus

 

Eu estava conversando com a Tânia e… Adendo: gosto tanto de pegar carona com a Tânia que ela nem imagina. Sabe o que é se animar pra ir pra um compromisso só porque depois vai ter aquela carona? Mais: ela vive se perdendo no caminho e eu adoro, quanto mais ela se perde melhor. Porque as nossas conversas são sempre tão boas pra mim, sempre tão proveitosas, nunca saio delas sem algo novo pra pensar. Nessa última carona, o assunto caiu no subconsciente. Tão poderoso, tão determinante nas nossas ações, o que sabemos a nosso respeito é tão pequeno. Ainda estava (estou) completamente contaminada pelo exemplo que oprof. Clóvis deu, do consciente ser apenas o facho de luz que sai do farol. Aí ela me disse que o subconsciente é tão poderoso que ele não apenas fala através dos nossos gestos, nossos tons de voz, nossas expressões, que às vezes ele aparece no que nos acontece, em outras pessoas nos dizendo e nos fazendo aquilo que nos pertence. Lembrei na hora do quanto eu fiquei afetada ao não me ver nas fotos do espetáculo do ano passado. Não saiu uma única foto individual minha no palco, e fiquei muito abalada. Minhas amigas viram nisso apenas uma vaidade, mas é que eu li naquela ausência tantas outras coisas. Eu li naquilo meus padrões, minha dificuldade em me fazer marcante, o espaço que cedo pros outros e me faz falta, enfim, eu vi de tudo ali. O fotógrafo não ter me mirado foi totalmente eu, foi o meu movimento. E o subconsciente– ela continuou – é tão grande e poderoso na nossa vida, nas nossas escolhas e ações, que quem sabe a gente lide apenas com ele o tempo todo, que até isso a que chamamos Deus seja no fundo apenas esse grande e desconhecido subconsciente. Pra mim também faz tanto sentido. Eu rezo, eu falo com Deus, eu agradeço, e essa relação tem se estreitado cada vez mais. Só que ao mesmo tempo eu não sou propriamente deísta. Eu faço o que funciona comigo, porque já aprendi que é mais fácil abraçar os símbolos do que tentar, com meu ego fraquinho, influenciar minhas decisões. Acho que quem se nega e tenta ser sempre racional está simplesmente se negando a utilizar o que a humanidade já construiu e funciona tão bem. Oração, astrologia, velas, imagens, tudo já está carregado de sentido e nos influencia de uma maneira maior do que podemos controlar. Ao mesmo tempo, não acredito numa resposta definitiva à questão da existência divina. E caso fosse possível responder com certeza de que Sim, esse Sim significa tão pouco. Ele por si só não explica nada. Sim não quer dizer que Ele tenha livro, filho e detesta cu, ou seja, que a nossa conduta signifique qualquer coisa. Não sabemos se é uma relação de criação, de interdependência, de determinação, não sabemos de nada. E mesmo se pudéssemos ter um manual, de que adianta saber mentalmente sem realmente entender. Se não entendo essa coisa tão pequena, tão limitada e com poucas variáveis que sou eu mesma. E na nossa miudeza, não conseguimos atingir mais do que nós mesmos.

Cabelo ativista

Voltei a ter cabelo curto há menos de um mês. Não que o meu cabelo fosse dessa comprideza toda, mas dava pra fazer um rabinho. E eu era apegada àquele rabinho, me sentia super cabeluda com ele. Achei que quando cortasse ia ficar exposta, o crânio à vista, radical, ia ser aquele escândalo. As pessoas com quem conversei também pareciam pensar assim, porque não tive reações tão boas quanto esperava à ideia de diminui-lo – “Ah, mas o seu cabelo é tão bonito!” De onde eu concluí que só obteria autorização pra cortar se começasse a deixar de lavar o cabelo, ele nascesse despontado, queimasse tudo com chapinha, fizesse uma descoloração barata, coisas desse nível. Parei de comentar e cortei. Pronto. Poucas reações. Silêncio quase que total. Aí minha profe de costura (Ah, não contei que agora estou aprendendo a costurar? Então, estou aprendendo a costurar) me perguntou, toda feliz: “Você cortou o cabelo, né? Ah, viu como eu reparo!?” Se precisava ser tão observador pra botar reparo que eu cortei o cabelo, é sinal de que o rabinho não fazia toda essa diferença.

 

 Aí a Fal conta: moço me explicou que só feministas — palavra pronunciada com cara de nojo — têm cabelo curto. É? Não vou discutir. Comecei a cortar o meu cabelo curto aos quinze anos, e ele pra mim significa tanta coisa. Na minha fase atual, é nitidamente um retorno. É como se eu tivesse voltado no tempo, voltado a ser quem eu era há mais de dez anos e ficar com medo de corte de cabelo me pareceu sem sentido. Porque antes eu era assim, me encantava com um corte e fazia. Me preocupar em como seria depois se eu mudasse de ideia ou se me achariam masculinizada nem me passavam pela cabeça. Eu não tinha medo de mudar, era da filosofia que cabelo cresce e pronto. Quero voltar à coragem que eu tinha naquela época, àquela moça que cada dia admiro mais. A confiança no futuro que ela (eu) tinha era baseada apenas em si (mim) mesma.

 

Quem me conhece pessoalmente também sabe que tenho muitos cabelos grisalhos e não os escondo, não passo nenhuma tinta. Agora os meus grisalhos aparecem ainda mais, por causa do corte. Antes eu pintava o cabelo, mas era relapsa. Ao invés de pintar o cabelo a cada quinze dias, levava pelo menos um mês. Quando a cor da tinta ainda era forte, as pessoas olhavam com indiferença. À medida que ela ia saindo e meu cabelo desbotava, vinham os elogios. Me perguntavam o que fiz, se eram luzes, diziam que o meu cabelo estava muito bonito. Depois de pintar muito e ouvir muito, decidi unir o útil ao agradável de deixar de pintar de uma vez. Tem um resto de tinta no banheiro, mofando.

 

Então imaginem o que o mocinho da Fal pensaria de mim, a ativista em pessoa. Aí eu me pergunto: fazer as coisas por preguiça, vale? Talvez valha. Talvez, em algum momento, eu devesse ter pensado: “os homens preferem cabelos longos” ou “só posso cortar curto se for garantido que vou ficar linda”. Mais: “anota na agenda, paga salão, usa shampoo tonalizante, mas não deixa de pintar esse cabelo. Coisa mais desleixada!”. Nunca decidi isso, nunca pensei em fazer do meu cabelo bandeira para qualquer coisa. Minha única questão é que se enquadrar dá tão mais trabalho…
(Juro que eu tentei colocar uma foto minha pra ilustrar o post, mas não achei nenhuma que desse pra ver…)

Dona Beija

Eu não sou como a Julie, que gosta de novelas antigas e lembra delas. Eu lembro apenas que eu vi, lembro das aberturas e do sentimento de gostar ou não gostar. Talvez a novela que mais tenha marcado a minha infância e que eu guarde o maior volume de informações seja Dona Beija. A trajetória dela me impressionava e Maitê Proença era um ícone de beleza. Das diversas cenas bacanas e além da minha compreenção, uma em especial ficou marcada na memória:

Uma das mulheres da cidade resolve mandar um presente mal criado para Dona Beija. Ela abre o lindo pacote e ele está cheio de fezes. Numa outra cena, a mesma mulher está em casa com o marido e recebe de Dona Beija um lindo buquê. “Deve haver algum engano. Eu mandei fezes para ela, como ela poderia ter me enviado flores?”. Nas flores há um cartão e ela, por ser analfabeta, pede para o marido ler. Ele cai na risada e diz que foi bem merecido. No cartão dizia:
Não sei como é com os outros, mas eu já fui tratada de tudo quanto é forma- já fui peixinho, já fui aquela que ninguém se dá ao trabalho de puxar o saco. Algumas pessoas encontram comigo de vez em quando, e são sempre de uma generosidade tão grande que eu fico sem saber o que fazer; outras são economicas como se pagassem impostos até por palavras gentis. Alguns esperam pra ver o que você vai fazer primeiro, para responderem de maneira estritamente proporcional e assim não se sentirem em desvantagem; outros, podem te oferecer a melhor metade do pouco que têm. A maioria retribui a menos do que recebeu.

– Cada um só pode ofertar o que possui.

Ovelha negra

De uns tempos pra cá tenho me sentido fascinada pela figura da ovelha negra. Fui num quiosque que faz camisetas personalizadas e fiz uma com uma grande ovelha negra pra mim. Se fosse de fazer tatuagem, hoje tatuaria uma ovelha negra nas minhas escápulas. Mas eu teria que levar meu próprio desenho, assim como fiz com a camiseta, porque na minha concepção a ovelha negra não tem olhar mau. Ela é tão boa quanto qualquer outra velha, só que é negra.

O Luiz não entende o porquê do meu fascínio e ri quando digo que me identifico, que me sinto uma ovelha negra. Ele não vê como uma pessoa de hábitos tão certinhos como eu pode dizer um absurdo desses. Pense bem: que culpa tem a pobre ovelha se nós atribuímos às cores branco e preto qualidades relativas à pureza e maldade? Ela nasceu tão ovelha quanto as outras, indiferente ao que nos desperta. Se as ovelhas simbolizam a passividade e falta de senso crítico, por que criticamos a que é diferente? Como se deixar de ser igual aos outros fosse necessariamente terrível ou violento, ou seja, Black Sheep. Fazer um filme de terror com uma ovelha é quase como a fronteira final.

Se uma ovelha soubesse dos imaginários a seu respeito, mesmo uma bem retinta, com certeza comeria placidamente sua grama.

Ombros

Não sei se é porque sou geminiana, mas meus ombros sempre foram meu ponto de tensão mais importante. Estar com os ombros doendo é o básico. Tinha freqüentes torcicolos durante a adolescência, que me deixavam sem olhar para um lado às vezes para os dois. Durante a faculdade, fiz alguma coisa que me deixou sem forças no braço e tive que ir a um quiropraxista. Foi o meu acupunturista que me salvou quando eu tirei o nervo do ombro do lugar, o que causa cãimbras terríveis cada vez que a gente move a cabeça. Desconfiei da mesma causa quando passei a noite em claro com dores que vinham da base do pescoço e se estendiam por todo o braço direito, mas era apenas uma crise de overtraining, que me fez abandonar o krav-magá.

Desconfio que uma dor no ombro que tem me perseguido tenha origem numa antiga lesão no pé, porque as duas dores aparecem ao mesmo tempo. Nesse período, fico com um ombro um pouco mais alto do que o outro. Meu estado de espírito se revela facilmente com meus ombros caídos, demonstrando que estou insegura e/ou infeliz. Tenho uma foto bem emblemática disso: numa viagem, cercada de dois amigos, sorrindo e ombros muito caídos. Eles estavam lá, revelando que a noite estava horrível e eu queria ir pra minha casa chorar. Mas isso já é outra história.

É por esses mesmos ombros acabo de tomar um relaxante muscular. Tudo por culpa de várias cambalhotas no chão, que machucam meu corpo por serem no chão e machucam meu ego por não estarem saindo. Ai, que dor!