Anti-social

Fui assistir o espetáculo da Talegona sozinha. O Luiz não é fã de espetáculos de dança e eu não tento mais fazê-lo gostar. Ele só vai quando eu estou no palco; nos outros, prefere ficar em casa. Não me dei ao trabalho de procurar companhia, não anunciei que ia. Apenas comprei o ingresso e fui. Era no Guairinha e não tinha cadeira marcada. Eles nos deixaram quase até a hora do espetáculo esperando na frente da porta. Eu fui ao banheiro e quando desci as escadas, o pessoal da escola onde faço flamenco acenou para mim. Eles foram juntos, provalmente sairiam juntos. Meus professores e provavelmente alunos. Pessoas que um dia eu criarei uma afinidade, saberei os nomes, conhecerei os temperamentos. Por hora, são apenas rostos vagamente familiares. Por isso eu acenei de volta, e me mantive no meu lugar, no lado oposto ao deles. As pessoas se acotovelavam e eu acabei ficando perto da porta.

Quando as portas se abriram, foi como um estouro de boiada. Mulheres descendo pelo corredor central o mais rápido que seus saltos permitiam. Eu fui à direita, passei pelo estreito corredor deixado pela mesa de som e fui uma das primeiras a chegar. Podia sentar onde quisesse. O pessoal da escola sentou na segunda e terceira fileira da esquerda, e eu, na terceira da direita. Acenei novamente. O espetáculo atrasou e eu fiquei no meu lugar, vendo o stress que rolava em volta de mim por causa de gente que guardava lugar, o burburinho do teatro enchendo, as pessoas à minha volta conversando. Nada de ter que fingir uma afinidade inexistente, de criar um assunto. Fiquei na minha, pensando na vida.

Após o espetáculo, fui cumprimentar meus professores. Um dos alunos, um sujeito que faz aula de pilates comigo de vez em quando, repreendeu minha distância com uma indireta: “Oi, você tá viva ainda?”- o que foi até bom, porque a partir desse dia parei de sentir culpa por considerá-lo um mala. Ainda me dei ao trabalho de subir com eles pra cumprimentar La Talegona. Nas fotos que não apareci e nas conversas que não surgiram, comprovei o que eu já sabia: aquela turma futuramente pode ser minha, mas não o é ainda. Quem sabe um dia.

7 comentários sobre “Anti-social

  1. Eu iria com a turma, mesmo que não tivessem me acenado. E ficaria ali, parada, com cara de boba, ouvindo gente falar de coisas que nem entendo/gosto/concordo só pq acho ruim ficar sozinha.
    Eu sou super sociável, e acho isso, um porre!

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  2. “Nada de ter que fingir uma afinidade inexistente, de criar um assunto. Fiquei na minha, pensando na vida.”

    Muito melhor, não? Me sinto menos ET por saber que não sou a única que pensa e/ou se sente assim.

    Beijos.

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  3. eu gosto disso de ir e fazer coisas sozinha.
    mas eu tô mal-acostumada ultimamente. quero fazer tudo com namorado.

    credo, nem pareço mais a velha anti-social-não-mulherzinha que, dizem as más linguas, já fui.

    :/

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  4. Olha só,deixa eu te falar assim,sem parecer grosso, (Porque eu sou grosso).Se as pessoas que estudam com você não sentam no mesmo lugar que você no teatro, é porque você é anti-social e eles não gostam de você.
    Eu sei,porque eu sou assim.Eu prefiro ficar sozinho à ter que ter que comentar o espetáculo inteiro com alguém.
    Sinto muito,mas nós somos parecidos.
    Aliás.Porque alguém iria a um espetáculo de Flamenco?Tipo…Flamenco cara?Enfiem bambus embaixo da minha unha,mas não me levem em espetáculos de dança.
    Não sei porque eu gosto de você…

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  5. Um dos poucos momentos que eu não gosto de encontrar semi-conhecidos é na minha ida a universidade. Em geral eu sempre vou lendo ou relendo algum livro de contos ou de poesia. Me é meio incomodo algumas vezes interromper a leitura para conversar amenidades. No entanto, eu acho que num caso como esse seu eu teria ido sentar junto com eles por achar que talvez fosse um modo de estreitar os laços.

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  6. Deixei de me sentir única agora. Pensava que só eu era assim. Eu não sei puxar assunto com quem não conheço. Amenidades ñ fzem parte do meu cardápio de diálogos. A gente é assim. Somos parecidas. Adoro fazer coisas sozinha. Cinema, teatro. Enfim, jeito de ser.

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