Uma irritação anti-clerical

Isaac Newton, no século XVIII, trancado no seu quarto, teve insights transformados em teorias que ainda hoje poucos são capazes de entender. Sobre pretender ter outros insights desse nível, melhor nem falar. Isaac Newton, tão ser humano quanto nós, só que com acesso a menos informação e quem sabe até menos nutrientes. Mas aí se o assunto é Deus, nego não apenas tem certeza da existência, dos objetivos e dos planos, como pode até dizer a preferência Dele com relação ao comprimento das saias.

vida de pecado

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rs rs rs rs

Revi a exposição Gênesis, do Sebastião Salgado, e toda minha paciência e boa vontade foram postos à prova com dois (suponho) americanos que estavam lá. Eles ficavam rindo o tempo todo. A primeira vez que eu vi a exposição foi num sábado. Museu lotado, pessoas de tudo quanto é tipo e atitude. Pra cada foto você nunca estava sozinho, sempre tinha mais alguém olhando. Tenho um talento especial de fazer as coisas ao contrário, e vi a exposição de trás para frente. Então, ao invés de acompanhar as pessoas, fazíamos um rodízio. Naquele dia, não me irritei. Pelo contrário, achei muito engraçado passar pelas pessoas e cada hora ouvir algo diferente. Muitos risos diante do tronco usado no pinto. A moça fazendo cara de “que fofo” na frente da foca. Diante da foto da tartaruga de um metro e meio uma moça com dois amigos disse: “olha, exatamente do meu tamanho”, o que me permitiu ter dimensão exata do tamanho da tartaruga. Um sujeito de rastafari até a cintura e bata colorida, comentou com a namorada que achava o Sebastião bom, mas que pro gosto dele algumas fotos era muito exageradas, over mesmo. Como exemplo, mostrou a foto de uma nativa trabalhando. As plantas ao lado dela “sujavam” a foto. Devia ter mandado ela ter trabalhado mais pra lá, claro! Fiquei com vontade de pedir o número do cara e passar pro Sebastião – pra consultoria.

Como eu ia dizendo, naquele dia não me irritei. Com o museu mais vazio, o perfil dos frequentadores era mais de famílias. Os adolescentes alternavam entre um ou outro fascinado, com aquele jeito de quem quer seguir esse caminho, e as caras de tédio de sempre. As crianças corriam livremente pelos corredores e quando paravam recebiam explicações dos pais. Achei engraçadíssimo diante da foto do leopardo dizerem que aquela “foi a última foto do Sebastião”. Ou seja, sou muito à favor de rir, de curtir, não acho que a pessoa tenha que ter uma atitude contemplativa. O que me incomodava naqueles americanos rindo, é que eles davam dois passos e riam. A cada foto um dele dizia alguma coisa e ria. Pense, são 245 fotos. Ninguém tem tanta coisa pra falar assim, ninguém é tão espirituoso assim. Eram risos forçados, quase uma competição. Aqueles dois, diante de um trabalho tão lindo, uma oportunidade de viver uma experiência de beleza tão grande – porque é isso o que esta exposição é – e ficavam com risinhos forçados. Vão fazer isso numa balada, num churrasco, sei lá. Idiotas.

Música

O nome do post era pra ser “música flamenca”, mas achei que vocês se desinteressariam na hora e nem se dariam ao trabalho de abrir o link. Porque é fácil gostar de flamenco, mas gostar de música flamenca é outra história. Tem violões (guitarra flamenca) muito bonitos, o som do cajón também é envolvente, mas aquelas palmas todas acabam enchendo e o cante… é uma gemeção e limpação de garganta que fica difícil. O flamenco não é apenas uma dança, é toda uma cultura. A dança nasceu junto com o canto, com o pessoal em volta da mesa – um bate palmas, outro canta, o que tem violão toca, alguém levanta pra dançar, e às vezes os papéis se invertem. Então quem dança tem também a obrigação de treinar o ouvido, saber a diferença entre os vários ritmos e estilos (os palos), bater palmas e desenvolver toda a sensibilidade e espírito flamenco.

 

Foi imbuída em todos esses propósitos que minha amiga Viviane decidiu colocar numa rádio flamenca enquanto estava trabalhando. Ela havia feito nas noites anteriores um curso, onde um dos maiores guitarristas flamencos do país passou um pouco do seu conhecimento e estimulou os alunos a se aprofundarem nessa cultura riquíssima. Ela colocou na rádio, num volume possível no ambiente de trabalho, e quando podia se propunha a identificar os ritmos, entender as palmas. Lá pelas tantas, um relatório que ela tinha que escrever parecia cada vez mais difícil. Aquela irritação foi crescendo, uma falta de concentração… até que ela perceber: “Ah, é essa maldita música que está me atrapalhando!” Ela desligou a rádio e finalmente conseguiu trabalhar em paz.

 

Eu também já fiz a minha tentativa. Uma vez coloquei um CD flamenco – tenho vários – e deixei lá enquanto realizava minhas tarefas domésticas. Aquela palma e gemidos estavam me irritando, mas decidi ser forte e deixar, quem sabe o ouvido acostumava. Deixei o volume meio baixo para não me atrapalhar tanto. No final da tarde o Luiz chegou e depois de me cumprimentar parou na sala e me fez ficar em silêncio. “Tá ouvindo?” “Ouvindo o quê?” “Os vizinhos, eles estão brigando de novo”. Era a música flamenca.

Por hora vou ficar só com a Choncha Buika mesmo.

Tóquinha

Estudar psiquiatria é muito interessante, porque todo mundo tem um pouco algum transtorno de personalidade. Assim que começaram a estudar o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) eu ganhei o apelido de Tóquinha. Não que eu tenha pensamentos repetivos que me forçam à fazer rituais, e sim porque tenho uma grande tendência ao perfeccionismo e à organização. A vida de quem tem estas características costuma ser muito boa no que diz respeito à prazos, trabalhos e coisas que necessitam de algo bem feito. Mas o perfeccionismo é muito estressante pra quem o pratica. Optei por procurar ser assim apenas em algumas áreas na vida, pra não infartar cada vez que o ônibus se atrasa, que uma vírgula é mal colocada ou sou obrigada a mudar minha rotina.

Mas eu nunca me achei tão perfeccionista assim, nunca. Apenas achei que gostava das coisas bem feitas. Isso até o dia de hoje: eu estava sentada no ônibus e uma senhora na minha frente abriu um remédio e tirou de lá a bula. Depois de ler a bula, ela dobrou o papel de qualquer jeito e colocou de volta na caixinha. Dobrou de qualquer jeito. Tive vontade de arrancar a bula da mão da criatura e dobrar tudo direitinho, conforme a dobratura original.

Digam que vocês também se irritam se alguém dobra um papel de bula errado.

Irritações

Parece que quando você está irritado e com vontade de matar o mundo, o mundo começa a fazer coisas irritantes pra ser morto. Quinta, eu me sentindo um tigre em jejum por causa da TPM, e aí…

Irritação 1:

A única esteira boa vazia é justamente ao lado da velhinha mais redundante e conversadora da academia. Espero, espero, até que me rendo e vou naquela. Meu problema com essa velhinha é que a encontro toda segunda, quarta e sexta. E toda segunda, quarta e sexta elas me diz as-mes-mas-co-i-sas:

 

– Oi. Você é animada, né? Você vem aqui e corre.

– Você sabe mexer com esses aparelhos, né? Vocês da mocidade sabem ligar. A gente de idade não consegue, é até perigoso…

– Você chega cedo, né? Eu também chego cedo.

– Você faz uns cinco, seis quilometros, né? Hoje eu quero ver se consigo fazer três. A gente tem que ir aumentando. Eu paro quando meu pé começa a formigar.
– Eu olho pra você e me admiro. Eu também já fui assim, atlética, quando mocinha.

Eu juro que eu tento, mas o fato de eu não responder e mal olhar na cara dela não a desestimula.

Irritação 2:
Pessoa cruza a sala e já chega perguntando:

– E aí, a “alimentação natural”, você vai?
– Hein?
– Você vai ou não vai na palestra?
– Que palestra?
– A palestra sobre alimentação natural.
– Que palestra sobre alimentação natural?
– A de sábado.

– Mas que palestra de alimentação natural de sábado é essa? É aqui, onde é, eu nem ouvi falar!

– A palestra do Dr. Mauro.

Semanas antes eu descobri que minha mãe vai ao mesmo médico homeopata dessa senhora. Mas daí eu ficar sabendo que o sujeito vai dar uma palestra sobre alimentação no sábado já é uma certa distância.

Irritação 3:

A filha da mesma mulher anterior. Acho que é de família. Ela virou pra mim do além e disse:

 

– Eu acho que você devia exprimir.
– Exprimir?
– É, como socióloga.
– O que?
– Dizer as coisas que você pensa, deixar sua posição clara.
– Mas do que você está falando?
– Sobre as coisas que você pensa.
– Mas do que?
– Enquanto cientista social.
– Mas dizer como e o que, do que você está falando?
– Do seu blog.
– Mas eu devo dizer o quê no meu blog?
– Sua opinião política.

Isso porque eu um dia comentei que tinha blog, por alto.

Irritação 4:

Eu estava sozinha no banheiro, me maquiando. Chega uma desconhecida e reclama:

 

– Nossa, mas que silêncio aqui!

 

Na certa ela achou que eu estaria fazendo moonwalker. Ou conversando com um amigo imaginário. Ou fazendo moonwalker enquanto converso com um amigo imaginário.

 

Isso tudo sem falar que eu levei uma baita cotovelada na rua, e a mulher não se deu nem ao trabalho de se virar e me pedir desculpas. Antes que eu a puxasse pelo ombro e a estapeasse, corri pra casa e me tranquei até o dia acalmar.

Uma das coisas mais irritantes do mundo

… é quem acha que sabe mais de nós do que nós mesmos. Com base em um único encontro, em um detalhe de roupa, em uma informação, acham que já sabem tudo a respeito de nossos complexos mais profundos. Como se não bastasse tanta arrogância, ainda cometem a deselegância de falar isso publicamente. É aquela coisa, igual discutir Complexo de Édipo com psicanalistas: se você, mulher, diz que não concorda com a inveja do pênis, é porque não assume a sua. Simples assim. Quando alguém faz essas análises de botequim, te chama de mal resolvida, negar soa como confirmação. Quer dizer que você não tem consciência de seus próprios complexos. A pessoa que faz esse tipo de análise nunca cogita quem pode estar errada é ela.

Dá vontade de dar na cara. Por incrivel que pareça, esse post tem a ver com a minha tentativa de ser cupido.

Meme das irritações

Ninguém me passou esse. Estava procurando um meme e a primeira coisa interessante que achei no Google foi esta. Nem li direito porque me identifiquei tanto com as coisas que irritam o Bruno Melo que calhava de eu repetir o post dele. Então vamos lá, o meme é “Escreva sobre 5 besteiras que te irritam“. Só cinco?

1. Na blogosfera: analfabetos funcionais

É foda: eu penso num tema, reflito sobre ele, lapido até ficar numa forma interessante de ler. Aí vem alguém do além, não lê direito o que eu escrevo e se dá ao direito de meter o pau. Por isso que os comentários são moderados. Criticar tudo bem, mas vamos concordar que a crítica deve ter alguma coisa a ver com que é dito no texto? Coincidência ou não, esses analfabetos funcionais adoram anonimato e miguxês.

2. No restaurante: quem se serve como se estivesse na Cerimônia do Chá

Todo mundo que come em buffet já passou por isso. Você com fome e com pressa (porque estar com pressa já é um estado de espírito num buffet) e alguém na sua frente resolve contemplar a comida. Olha as inúmeras opções, reflete, respira… enquanto a fila se avoluma. Aí na hora de se servir, faz questão de pegar 367873 grãos. Nem a mais, nem a menos. Pra isso, se serve de infinitas colheradas e chega até a devolver comida.

Essa é a versão pessoa-chata-na-sua-frente. Na versão pessoa-chata-que-está-atrás, eu me irrito com aquela pessoa que não se serve de nada e fica atrapalhando você. Aí a gente se serve correndo, achando que a pessoa quer justamente aquilo que estamos nos servindo. Só depois você percebe que o mané só queria aquilo que estava láááááá no fim do buffet. Então por que não deu a volta de uma vez???

3. Na filosofia de vida: vegetarianos radicais

Pra esse tipo de gente, não basta não comer carne: tem que encher o saco de todo mundo que come. Eles fazem cara de horror e discursam cada vez que alguém cita um bife. Todos os males do mundo se resumiriam ao fato de comer ou não carne; há poucos dias eu ouvi que o potencial da humanidade é viver 150 anos e não chegamos a esse número pura e simplesmente porque comemos carne. Isso sem falar que tudo é comparável a carne – ai do carnívoro que reclamar de guerra, violência ou espancamento de cachorro perto de um vegetariano. Ele logo será tachado de alguém tão violento quanto porque come carne.

E sabe o que é mais irritante ainda? Que essas pessoas tem um determinado perfil: são jovens, bem nascidos, fazem yoga do DeRose, universitários. Assim que deixam de ser qualquer uma dessas coisas, eles voltam a comer carne. Porque ser vegetariano quando se tem tudo na mão é muito fácil – quero ver ser vegetariano ganhando mal ou comendo em refeitório de empresa. Dá vontade de dizer: “Meu filho, se daqui há 5 anos você continuar vegetariano a gente conversa”. Palavra de quem não come carne vermelha há mais de 15 anos.

4. Na biologia: o aparelho reprodutor feminino

A natureza estava de sacanagem (no mau sentido, o figurado) quando criou o aparelho reprodutor feminino. Ela deixou todas as vantagens com os homens e todas as desvantagens com a gente. Pra começar, aquela antiga queixa: homens podem fazer xixi de pé, enquanto nós temos que nos equilibrar sobre privadas sujas ou segurar o xixi até encontrar um lugar limpo. E os cuidados, as inseguranças, os micos e os gastos que menstruar todo mês nos causa? Como dizia a minha mãe, pior do que menstruar só parar de mestruar.

Sabia que a muitas doenças venérias ficam invisíveis (e até mesmo assintomáticas) nos homens e se manifestam nas mulheres? Porque a vagina é uma caverna escura e quentinha, perfeita para bactérias. Ou seja, o homem esfrega seu bilau em qualquer lugar e continua ótimo, enquanto com as mesmas bactérias a gente faz banho de assento e toma antibióticos. E os critérios de beleza, que agora invadem o que até pouco tempo era chamado de vergonha? Bigodinho de Hitler, virilha profunda, carequinha… como se já não bastassem todos os cuidados com pernas, axilas e buço, o machão que leva uma mulher pra cama pode se dar ao direito de ter nojinho se encontra pêlos lá?

5. Nas celebridades: Paris Hilton

Menos pela Paris Hilton em si e mais pelo que ela representa. Antes, para se tornar uma celebridade, era preciso se destacar em alguma coisa. Nem que essa coisa fosse somente o rebolado. Hoje em dia é possível ser famoso através da fama. Esse é o caso da Paris Hilton. Ela é famosa por ser famosa. Ela não faz nada, e nas poucas vezes que fez alguma coisa seu desempenho foi medíocre (dizem que até video do boquete é ruim). Ela vive de festa em festa e nem mau exemplo o suficiente é.

Não existem mais limites na tentativa de aparecer. Fico pensando nas pobres coitados que fazem de tudo para serem famosos. Que fazem plásticas esdrúxulas, que aceitam serem filmados 24 h, que topam comer olho de cabra. Hoje em dia, até ser flagrado fazendo boquete é uma honra se o video conseguir causar algum impacto. Porque tem gente que paga pra aparecer, não importa como e nem porquê. No outro extremo, há celebridades tão celebradas que não podem nem pintar o cabelo em paz. Menos, né?

Será que adianta repassar em meme pra alguém? Adoraria ler a irritação de: Ricardo, Anne, Pickler, Ligia, Julie, Queroul e .

Graur!

Um lado meu é muito sociável e é capaz de atrair a simpatia das pessoas aonde quer que vá. Se tiver um tantinho de abertura, eu consigo preencher o silêncio no meio de várias pessoas desconhecidas. Posso ir numa festa sozinha e sem conhecer ninguém que eu não tenho medo – caso eu não consiga falar com ninguém, eu sou louca o suficiente pra me divertir sozinha. A vida me lançou pra tantas coisas diferentes – de profissões a faculdades, tentativas, culturas e pessoas – que adquiri traquejo pra ser agradável e lidar com várias situações. Uma pessoa assim certamente estaria predestinada a popularidade…

Mas não. O outro lado de mim é selvagem e arisco. Ele recusa a popularidade e suporta a presença de seres humanos durante pouco tempo. Basta alguém manifestar o desejo de me ver com muita freqüencia para ele rugir de ódio. Por isso me mantenho sempre com poucos amigos – tenho certeza que, em pouco tempo, acabaria estraçalhando a horda de pessoas que me adoram. E volta e meia faço isso com algum amigo que se aproxima demais da jaula, porque pessoas carentes me irritam MUITO. E, como selvagem, sou incapaz de ser agradável por pura conveniência social. Como nos filmes, meu lado adora chocar quando deveria socializar.

Já tentei matar, já tentei ser só selvagem. Com os anos fui me conformando à idéia de ser quem eu sou. Nos damos bem, conheço meus limites. Nunca serei popular e jamais serei falsa…

Malvada, eu?

Uma das poucas pessoas da faculdade com quem falava ultimamente… peraí, acho que começarei do princípio… Quando nos conhecemos, a Fulana estava sempre em crise porque seu namorado não estava a fim de casar logo. Eles namoravam há anos, ela era quase da família, a sogra já era sogra… Aí quando terminou, ela estava em crise porque terminou. Depois, entrou em crise porque iria viajar. E nessas crises passou a ter necessidade de falar comigo durante a aula, por orkut, por telefone e por msn – com direito a crises de ciúmes. Um dia fiquei p da vida, bloqueei e passei um carão pelo msn.

Eu sou assim, brigo com a pessoa, coloco em pratos limpos. Sou grossa, pronto. Mas como toda pessoa grossa e explosiva, depois que falo a coisa fica limpinha. No dia seguinte, esperava encontrar com ela, dar uma rosnada e tudo voltar às boas. Mas o que viria depois foi totalmente inesperado: ela passou a sentar longe de mim, me olhar com cara de cachorro que quebrou o vaso e pedir para amigos intercederem a favor dela… nem elevador comigo ela pegava mais. Aí sim eu fiquei p da vida de verdade e, já que ela ficava longe de mim, parei de falar com ela e pronto.

Aí essa amiga passou quase um ano fora, em um país distante, entrou pra uma religião fundamentalista e arranjou um namorado estrangeiro… Quando ela voltou, conversamos como se nada tivesse acontecido. Ela vinha me falar do quanto está em crise com o namoro à distância e a nova religião. Um dia, esqueceu de me contar que não tinha uma aula e mandei um e-mail reclamando. Resultado: ela passou a sentar longe de mim, me olhar com cara de cachorro que quebrou o vaso… Oh não! Oh sim: começou tudo de novo.

Às vezes penso em simplesmente falar – “Ô, Fulana, deixa de ser boba!”, porque não custa nada. Mas não falei. Acho que custa sim, essa infantilidade me irrita muito. Talvez eu seja mesmo malvada.

Metendo os cascos

Há duas semanas a exposição no SESC tem me atormentado. O cronograma exigiu as fotos e descrição das peças com mais de um mês de antecedência; a entrega das peças, 4 dias antes da abertura. Pois bem: a data da abertura foi transferida duas vezes, e dois dias depois da abertura “oficial” as peças estavam largadas, sem qualquer tipo de identificação, livro de visitas, nome da exposição, nome da artista e nada. Sem dizer que o material de divulgação não tinha ficado pronto.

E eu, todos esses dias batendo ponto, perguntando, saindo da aula pra passar lá. Sexta, quando vi tudo naquele estado, estressei de vez e ameacei tirar as peças de lá se até segunda as coisas não estivessem em ordem. Quando o fulaninho responsável pela exposição ligou no meu celular duas vezes às 17h e completou com um “desculpe qualquer coisa”, vi que estava lidando com gente muito burra.

Hoje cheguei lá disposta a levar tudo embora. Atormentada pelo meu próprio inconsciente (que me fez ter sonhos horríveis com a exposição) e com raiva de me sentir uma otária, fui falar com o fulano. Ele me disse que o material de divulgação só ficaria pronto daqui há DUAS semanas – porque materiais são impressos a cada 2 meses e eles haviam perdido o prazo. Além disso, TODOS os responsáveis pela exposição são ESTAGIÁRIOS que entraram no SESC este ano.

Quem nunca viu não imagina, mas sou das pessoas mais brabas que eu conheço. Não fiz escândalo – disse que lamentava o SESC confiar as exposições a estagiários que não entendem nada, que não são profissionais e que desconhecem as rotinas do local onde trabalham. Nisso, apareceu uma personagem desconhecida, mais velha, e que deve ser a incompetente que cuida dos estagiários incompetentes.

Resultado: o meu material será impresso amanhã de manhã e com a data de abertura de exposição de amanhã, como pedi – não posso receber o material com uma data que não foi cumprida. A moral desta linda história é que meter os cascos despenteia e é preciso. Isso sem falar na cartinha que os espera quando a exposição terminar…