Viver ou calar

Existem certas experiências que quem não passou por elas pode ter apenas uma vaga idéia de como é. E essa idéia é tão vaga que geralmente ela se apoia no senso comum, em coisas ditas pela família e é muito fácil de estarem erradas. Tem coisas que a gente vive e não tem, no momento, dimensão do quanto aquilo mudará nossa percepção das coisas. Outras coisas nos impactam e sabemos que nada mais será como antes. Dessas experiências iniciáticas posso citar aqui sexo, morte, o primeiro emprego, sair da casa dos pais, casamento, separação, ter filhos, viver em outro país, etc.

Um dia uma amiga casada estava se queixando do marido, e outra se meteu na conversa com um monte de frases do senso comum, coisas como: “se você não sente aquela paixão ao lado dele, o melhor é separar e buscar seu verdadeiro amor”. A resposta da outra veio rápida:

-Você é casada, já foi casada?
– (sem graça) Não.
– Então você não sabe como é. Não sabe o que é viver anos ao lado de uma pessoa. Acordar ao lado dela, ver de cara amassada, ver a pessoa fazer xixi, cocô, peidar, de mau humor, de bom humor, em todas as situações que você imaginar. Não tem como manter magia de casamento o dia inteiro ao lado de uma pessoa, ninguém é principe encantado depois disso tudo. (e por aí foi)

Eu acho importante reconhecer que certas experiências são definitivas, porque diante delas devemos ter respeito. Não tenho filhos e nem vontade de tê-los; algumas vezes, crianças são irritantes e mal criadas. Mas nunca, jamais, me sinto no direito de dizer a pais e dizer como eles deveriam criar os filhos deles. Porque eu não sei como é. Não sei como é educar, como fazer para dar atenção na medida certa, como é difícil colocar limites. Não sei se eu seria capaz de colocar limites. Então, não me sinto apta a dar palpite nesse assunto. Se alguma criança me incomoda, só posso tentar sair dali; se algum pai está com problemas, só posso ouvir e oferecer minha empatia.

Acho que pra grandes experiências desconhecidas, o melhor é calar. Nada mais antipático (e insensível) do que quem acha que tem resposta pra tudo. Ainda mais quando a pessoa saiu ontem da adolescência. Vejo que existe hoje um desrespeito generalizado; comentei num blog esses tempos (não lembro qual) em que o blogueiro dizia que ninguém merece respeito só por ser mais velho. Eu disse que discordava, que os mais velhos merecem respeito sim. Sempre parto do pressuposto de que o mais velho sabe mais do que eu. Não adianta ler muito ou ser inteligente; existe um tipo de sabedoria que só chega com os anos.

6 comentários sobre “Viver ou calar

  1. A medida entre o que se deve calar ou se pronunciar é fácil perceber quando há o velho bom senso. Eu sei que muitas “opiniões” são dadas sem a intenção de impor regras, às vezes é para ajudar, mas tem que se ter limites para isso. Você nem imagina a quantidade de palpiteiros que existe quando se tem filhos: eu fazia assim, mas é melhor assado, meu médico era muito bom, meu filho NUNCA teve esse problema…é um bombardeio absurdo, até chegar uma hora que disse faço do meu jeito seja certo ou errado. Coloquei um filtro entre as “dicas”, conhecimento científico e minha nova condição, a maternidade. Não estou aqui para ser a mãe perfeita, isso que as pessoas não entendem. Eu vou errar, vou acertar, vou chutar, mas é assim a vida, sempre e em qualquer circunstância. E sobre casamento, a gente que é casada vive num mar de dúvidas. Desistir sempre será a solução + fácil

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  2. Eu acho que pegando carona no que você está dizendo ante e o que você falou no texto, eu acho que a vivência realmente faz a diferença entre você poder dar certas opiniões a respeito de certos assunto é vivência, no entanto eu acho que existem pessoas mais velhas que não a possuem, assim como existem pessoas jovens que a tem. Essa sabedoria que os mais idosos tem deveriam vir da experiência, e em teoria as pessoas mais velhas tiveram mais tempo de experimentar a vida por aí. No entanto, algumas esqueceram de fazê-lo.

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  3. Com relação à ter filhos e educá-los o que eu já sofri não existe nos autos mãe x filho, para você ter noção do quanto minha família não concorda em como eu educo minha filha, num almoço de família, quando comentei o meu desejo em ter um filho com o Arthur, minha irmã responde com cara de espanto: “VOCÊ vai ter OUTRO filho?” Daí dá para tirar o resto. A minha sincera opinião com relação à isto é: A criança em questão é feliz? Se for, os pais dão amor e educação suficiente para suprí-la. Ponto final. Opinião é uma coisa complicada para ser dada, exige INTIMIDADE e ABERTURA da outra parte para que você possa abrir a boca e dizer alguma coisa.

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  4. Concordo em número, genero e grau com o post. Mas tem uma coisa que eu aprendi. Cetas frases feitas só foram sedimentadas pq contem uma sabedoria profunda. abracinhos fofos.

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  5. Eu sei muito mais do que tu…

    :¬))

    Mais um post perfeito. Gostaria de acrescentar: algo que me irrita profundamente são as pessoas que tentam vender sua experiência dizendo mais ou menos isso: “Assim é, pq aconteceu comigo!”.

    Porra, há sempre um contexto diverso, diferentes pessoas, etc.

    Casamento é uma construção bem complicada. Acho que o meu se baseia em alguma sobra de amor e planos + lazer em comum. Quando o afastamento se torna de tamanho onde há pouco em comum, vai para o vinagre — separação ou infelicidade.

    A Ronise escreveu mto bem no 1º comentário. Como há pessoas dispostas a se meterem na educação de nossos filhos! É insuportável!

    Bj.

    P.S.– Esplêndido post.

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