As dores II

Justiça seja feita: é muito mais fácil conviver com quem não assume suas dores do que com quem vive em função delas. Como os traumatizados profissionais. São aquelas pessoas que vivem o(s) trauma(s) de sua vida como se tudo tivesse acontecido ontem, mesmo que o acontecimento seja de 50 anos atrás. Quando um desses, meio à queima roupa, te conta o que lhe aconteceu, você se sente surpreso e até mesmo lisongeado pela confiança. Dá a ele seu tempo, solidariedade e atenção. Fala um pouco de si para mostrar que lições você aprendeu e que podem ser úteis. Quanto mais atenção você der, mais raiva e sensação de ter sido enganado você tem depois. Com o tempo você descobre que aquela dor não é segredo e sim um cartão de visitas. Repetindo sempre a mesma história, as queixas são usadas para justificar qualquer besteira, em qualquer área da vida. O traumatizado profissional não precisa de conselho porque ele nunca quis mudar. Ser traumatizado é seu modo de viver.

O problema para essas pessoas (e alívio para as que as cercam) é que qualquer história – por mais dramática e dolorosa que seja – some de nossas mentes assim que dobramos a esquina. Os problemas alheios têm um poder muito pequeno de mobilização. A vida tem uma característica que é sua benção e maldição: as experiências são incompartilháveis. Ninguém jamais saberá o que vivemos, ninguém sentirá na pele o que nós passamos. Toda descrição será apenas uma idéia aproximada. Não é possível comparar as dores, nem ao menos quando elas são parecidas. Cada um tem sua própria história – única, irrepetível. E quem não consegue fazer da própria vida uma experiência interessante a perde sozinho.

10 comentários sobre “As dores II

  1. Engraçado, eu sempre sou abordada por pessoas que me contam seus problemas na fila do banco, no consultório do ginecologista ou no ônibus. Tentei ler, mas nem isso ajuda. A pessoa pode cutucar, sabe como é, né? Então entendi que vc n precisa escutar, é só ouvir e murmurar algo, pq ng quer saber sua opinião, querem apenas ouvir o som das próprias vozes. faço terapia há oito anos pq morro de medo de me tornar uma destas pessoas. rssrsrsr. Falando nisso, vou te mandar um e-mail contando uma história super trágica que aconteceu comigo aos tres anos de idade. rsrsrsrr. Abracinhos fofos.

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  2. é só pra completar, é muito fácil resolver o problema dos outros.

    eu sei que eu tb faço isso, e muitas vezes, na esperança de acalentar o sofredor, eu digo 'entendo'.
    entendo porra nenhuma, assim como não entendem o que se passa aqui…

    às vezes só ouvir basta. às vezes nem isso…

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  3. Eu, como distímica, já conheço muito bem essas liturgias dolorosas e é sempre a mesma coisa: parece que a pessoa que está sofrendo inventou e patenteou a dor, pronto, ninguém sofreu tanto no mundo quanto ela. Nunca caí neste conto vindo nem de mim mesma, complicado cair vindo de terceiros. Dor e c*, cada um com os seus.

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  4. sem contar que esses traumatizados profissionais, como disse você, são uma galera que guarda um ressentimento absurdo. não vou dizer que sou desprendida e que as coisas não me marcam, mas quando você vê pessoas que estão separadas há 40 anos e ainda não podem falar o nome do ex-marido… sei lá, pra mim, ódio é um sentimento que causa muito desgaste e requer muito despendimento de energia, quando essas pessoas que o causam mereceriam apenas indiferença. fora que concordo totalmente que amor e ódio são dois lados da mesma moeda, porque são igualmente intensos e cheios de paixão. e até que ponto vale a pena manter um sentimento destes por uma pessoa que você acha uó?

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  5. Grande verdade, indivisível, essa é a palavra! a dor é única. Tenho maior orgulho das minhas sabe? me fizeram crescer muito mais do que qualquer alegria, e só eu sei algumas coisas… continue a nadar.

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  6. Eu não tenho orgulho das minhas dores, mas de tê-las superado. Da minha força sim, eu tenho orgulho. Quem gosta de dor, me assusta. É como aqueles despeitados que nunca tiveram uma festinha de aniversário, por exemplo, e vivem falando mal de quem festeja. Parece o argumento de quem quer parecer superior aos outros pq sofreu pra burro. E daí? Todo mundo sofre. Todo mundo morre. Isso não torna ninguem especial.

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  7. valeu o apoio miga!!! vc me entendeu, é bem isso.. tenho orgulho da forma que superei e supero as coisas.. e orgulho de vc ter me entendido de primeira…to feliz por isso, o resto, que se dane.
    beijo enorme.

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