Curtas sobre profissionalização

profissionalizacao-01-760x400Já entrei na fase de ter que fazer vários exames chatos todo ano. “Você já fez antes?”, perguntam cheios de dedos. Aí a gente se pega já tirando a roupa, colocando os peitos pra fora pra moça, abrindo as pernas, olhando pro lado. Faz aí.

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Eu estava sentada no banco do ônibus ajeitando meus pacotes de compras e um sujeito me estendeu um papel. Nem olhei, fiz um gesto de recusa com a mão. Depois o vi recolhendo o papel e ninguém tinha dado nada. Método errado. Tem dias que ouço histórias comoventes de superação após largar as drogas, gente puxando oração, brindes dados de coração, artigos que custariam o dobro na loja e nem salvam vidas, gente que toma fitoterápico pro joelho que o SUS não cobre, piadistas. Vê se alguém que só distribui papel tem chance hoje em dia.

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Dois tuites meus viralizaram de maneira assustadora. Um deles falava de veneno de rato e o outro de classe média. O segundo foi parar em pelo menos duas páginas do Facebook. Não queria ver a repercussão, mas me mostraram. Como vocês podem imaginar, não tem limites. Teve até gente que copiou como se fosse a sua experiência pessoal. Também disseram que eu criei o tuíte apenas para ganhar likes. Que sonho seria se eu tivesse essa capacidade de adivinhar o que as pessoas querem ler.

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Séries Netflix: só com indicação. Os trailers das de humor são assustadores.

 

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Arrelia (também serve Tiririca)

Um autor, claro. Daquele que com a sua aldeia consegue descrever o mundo, um retrato da sua época e atemporal ao mesmo tempo. Se não pudesse ser um grande autor, pelo menos alguém que passa a sua vida cercado de muitos deles, pelo que produziram. Um professor universitário. Um pesquisador. Ou quem sabe um advogado, profissão que também se cerca de livros, linguagem, códigos. Se for para dar as costas para tudo isso, em viagens por lugares exóticos, com línguas que jamais soariam familiares, ser transportado num olhar a outra realidade. Projetar realidades, construções, arquiteturas, influenciar a pessoa sem que ela sinta, com a mágica da combinação de cores e móveis. Desenhar o trivial e transformar em algo novo e surpreendente, um novo jeito de se sentar ou de se vestir. Salvar vidas, o que pode ser tanto num sentido biológico como simbólico, salvar a alma da ignorância ou dos seus próprios medos. Sendo nos sonhos as profissões tão grandes e tão nobres, eu não entendia quando via a entrevistas de palhaços – Arrelia quando eu era criança e o Tiririca quando eu já era maior – que diziam que escolheram ser palhaços porque não conseguiam imaginar algo mais bacana do que viver de fazer as pessoas rirem.

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Sobre a tirinha: Macanudo é uma expressão argentina antiga, algo como “supimpa”. O autor, Liniers, batizou com esse nome apenas para colocar Supimpa no meio do jornal.

Curtas de uma sabedoria rasteira

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Vocês não sabem, mas a profissão de vitrinista é muito ruim. Não estou falando da dificuldade de elaborar as vitrines e sim o quanto é chato vestir manequim. Eu faço isso só de vez em quando e como xingo.

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Tem um texto ótimo do filho do Mário Prata, em que ele conta de um papo onde o viúvo lamenta que não tenha fotos da mulher tal como era, que a gente tem mania de tirar fotos quando está bonito na festa e não tira justamente do mais corriqueiro, com o cabelo do dia a dia, no lugar onde sempre vai, com o gesto mais característico. Acho que esse é um dos grandes atrativos das fotos antigas, com filmes.

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Aquela gordura do azulejo do banheiro sai bem fácil com palha de aço.

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Amiga, antes de sair de férias, estava com uma intuição fortíssima de que seria demitida e contou pra mãe. “Filha, se for pra você ser demitida, você vai e pronto”. No fim, foi mesmo, fecharam a filial. Adoro gente quem tem algo prático e simples pra dizer. Olha que o padrão feminino entende que ser amiga é ficar histérica junto.

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Alguns precisam de vídeos de gatinhos para restabelecerem sua fé na humanidade. A minha reage muito bem vendo vídeos com Darcy Ribeiro.

Na minha idade

Uma vez me disseram que eu tenho Complexo de Peter Pan. Fiquei chocada e concordei. Nunca pensei em mim mesma como alguém que faz um esforço deliberado para não crescer. Ao contrário, em certas coisas me sinto uma verdadeira sexagenária. Mas tenho que reconhecer que pra outras ainda estou no jardim de infância. O argumento que a pessoa usou foi o que meu problema em seguir uma carreira é justamente o complexo. Começo, mudo de área, recomeço, nunca me firmo, porque se firmar numa profissão é uma coisa bem adulta.

 

Várias vezes achei que me tornaria professora universitária, e várias vezes investi em roupas mais sérias pensando nas minhas futuras aulas. E, invariavelmente, essas roupas ficavam paradas no guarda-roupa sem uso, até serem doadas. Calças sociais, blazers, sedas. Há poucos dias desabafei no meu facebook sobre o assunto:

 

Às vezes eu penso se não deveria me vestir de forma mais compatível com a minha idade. Mas, afinal, o que as mulheres da minha idade usam?

 

Os amigos vieram em meu socorro, dizer que uma mulher deve vestir o que quiser, o que for adequado ao seu estado de espírito. Há os que perguntaram afinal como é que eu me visto, e eu acho que me visto igual a uma universitária – coisa que não sou há mais de dez anos! Claro que, sendo meus amigos, apareceu conselhos de que o que me falta é um xale. Pra combinar com a cadeira de balanço.

Eis que de manhãzinha estava saindo cedo de casa, com a minha bike, e encontrei a vizinha. Ela tem mais ou menos a minha idade e é psicóloga. Olhei para ela e descobri o que uma mulher com meu físico na minha faixa etária usa: camisa branca, calça social bege, salto agulha e yorkshire.

Simpatia, ex e sexo

Não sei qual das coisas absolutamente normais eu disse, normais no sentido de que eu as diria inocentemente para qualquer um, que fez com que minha médica me falasse, espontaneamente, que eu sou uma pessoa muito simpática. Vai ver que sou. Eu tinha é que conseguir arranjar uma maneira de ganhar dinheiro com isso.

“Dá pra virar amiga de aluguel, igual o teu amigo Alessandro“. “Pra mulheres isso costuma ter outro nome” “As gueixas não dormem com os seus clientes”. Trollagem de ex – a melhor trollagem.

E já que o assunto é esse, tenho que dizer: se descobrir capaz de fazer sexo sem estar apaixonada é uma das coisas mais libertadoras que existem. Mais não digo.

Critérios pessoais de sucesso

A vida da pessoa pode estar gritando sucesso, nos critérios que comumente usamos, como dinheiro, carros, imóveis e puxa-sacos. Mas eu sou incapaz de acreditar na realização pessoal de alguém chato, estressado, mala, prepotente. Pra mim o sucesso tem a ver com um fazer… adequado? Tem a ver com a difícil equação de agir conforme o tempo, a capacidade pessoal, o desejo e a consciência. Mal e mal a gente sabe se conseguiu isso na própria vida, quanto mais na dos outros. Mas tem algumas pessoas para quem olho e me parece que elas devem ter conseguido.

 

-> Aquelas pessoas que quando o assunto profissão surge, falam sem pensar, na cara, chocando os presentes com a espontaneidade da declaração: eu amo meu trabalho. Não é: “olha, minha profissão é legal a maior parte das vezes, tem dias e dias”. Eles dizem com todas as letras: AMO. Nem se importam com o constrangimento que causam. É como aquelas pessoas que esfregam na nossa cara que encontraram um namorado rico, bonito e apaixonado. Farinatti é esse tipo de gente.

 

-> Tem aqueles que trabalham com coisas que não tem nada a ver com uma vocação no sentido mais profundo e têm total consciência disso. É um trabalho que não define quem a pessoa é, tanto pro bom quanto no ruim, ou seja, não causa vergonha e nem a torna terrivelmente orgulhosa. Nunca é trabalho insuportável – porque isso contaminaria todo o resto – mas lhe permite viver com o conforto necessário e lhe dá liberdade. E com essa liberdade, elas fazem o que realmente amam. Pode ser cozinhar, viajar, cuidar de gatos. A parte mais difícil talvez seja justamente essa – saber o que fazer, se tiver tempo e dinheiro.

-> Pessoas que sorriem muito. À exceção do Coringa, quem sorri muito necessariamente é feliz.

-> Velhinhos interessantes. Aqueles que você consegue enxergar o jovem que ele foi um dia, que conserva um sorriso maroto por debaixo das rugas. São as mesmas rugas e gestos mais lentos de uma pessoa de idade, mas quando você para pra ouvir se surpreende. A pessoa conta que foi corista, que viajou pelo mundo, que largou tudo por amor, que participou da Resistência. Mas você só descobre se começa a conversar, porque velhinhos que contam sempre a mesma história e são carentes por atenção são outra coisa.

Eu não sou Paul McCartney

Resolvi me dar uma consulta com um astrólogo de presente porque não estava bem. Já li e conheço meu mapa desde que me entendo por gente, só que desta vez eu queria uma outra pessoa falando sobre ele. Alguém que me fizesse ver as coisas que eu não estava vendo, quem me desse alguma luz. Ou seja, a gente sempre procura esse tipo de ajuda quando quer ouvir algo extraordinário. Ninguém vai a uma cartomante, por exemplo, pra ouvir que pode ser que você encontre alguém e pode ser que não. A gente quer o RG do sujeito, que ele venha logo e totalmente apaixonado. Então não foi exatamente o que eu queria ouvir quando o astrólogo falou de sorte e não me inclui no grupo dos que a possuem…
“Algumas pessoas têm muita sorte no campo profissional. Há um aspecto, de Júpiter na Casa Dez, que indica isso. Eu gosto muito dos Beatles, e acabo usando isso como exemplo. O Paul McCartney estava na casa dele quando John Lennon apareceu por lá e disse: “Estou fazendo uma banda de rock, quer tocar com a gente?”. O John Lennon foi até ele, Paul nem precisou procurar. É o típico caso da sorte bater à sua porta. Algumas pessoas têm isso, essa sorte. Esse não é o teu caso, você não tem nenhum aspecto desses. Você não é uma sortuda, não é uma pessoa que vai estar andando na rua e será descoberta, não vai ganhar herança, o John não vai bater na tua porta. Você está mais para uma lavradora. Tudo o que você precisar, você terá que construir. Você vai trabalhar duro, vai arar a terra, vai cuidar, vai esperar. Não conte com a sorte, você é do tipo que conta apenas com o seu próprio esforço”.
Não gostei de ser chamada de lavradora, mas nem precisei pensar muito pra saber que ele tinha razão. Eu convivi lado a lado com uma pessoa sortuda, o meu irmão. De coisas que davam de presente pra ele aos empregos que ele nunca teve que procurar, do lado do meu irmão eu sempre me senti a hiena Hardy.  Claro que ele tem os méritos dele, mas é diferente. É diferente ter essa luz ou não ter.

Como diz aquele ditado, o que não tem remédio remediado está. Estamos aí, na enxada.

Os melhores

– “Filho”, eu diria, num daqueles vídeos ou relatos que a pessoa decide fazer para sua prole, ainda pequena, sobre como é a vida, depois que descobre que pode ser que não esteja mais aqui para passar para ele sua sabedoria banal sobre fatos do dia a dia- “deixa eu te transmitir uma verdade fundamental e infalível sobre os serviços. Os melhores profissionais que eu encontrei até hoje, sejam eles dentistas, acupunturistas, confeiteiros, esteticistas, pedreiros, astrólogos, lambedores de selos ou carpinteiros, não são os mais afamados. Nunca são aqueles que têm prédios de três andares só para si, com secretária de salto agulha numa recepção de mármore, não são os que usam turbante na cabeça e terno Armani, jamais serão o que precisam de meia hora de concentração e salamaleques antes de começar a fazer. Os melhores sempre são aqueles que um amigo indica, dizendo que faz muito bem feito. Nunca é o amigo das estrelas, o queridinho da alta sociedade, não procure por lá. Chegar ao sujeito realmente bom é por indicação, é quase como fazer parte de um clube fechado. Você contata o profissional com facilidade. Ele te atenderá normalmente, num lugar limpo e comum. Cobrará um preço honesto e fará seu trabalho. Tudo rápido e eficiente. A consciência do quanto aquele trabalho é bom vem depois, quando você ouve o quanto as pessoas pagam tão mais caro por serviços ruins, do quanto as coisas poderiam ter dado errado e não deram. E essas pessoas vão preferir continuar pagando caro, porque adoram os picaretas. Elas precisam dos prédios, do mármore e do Armani. Os picaretas fazem com que lhes paguem com gosto porque algumas pessoas são incapazes de aceitar que qualidade e simplicidade andem juntas.”

Dinheiro, muito dinheiro

Desde minha adolescência, minha mãe cisma que eu deveria ter estudado Direito. A insistência dela me fez pensar um pouco no assunto, ler o currículo do curso, mas a área toda tem tão pouco a ver comigo que não precisei pensar muito pra saber que não, de jeito nenhum, nem um pedaço do meu ser combina com tal curso e profissão. Eu seria mais feliz capando boi do que de terninho no fórum.

 

Sexta fui visitar a casa de uma advogada, uma dessas pessoas que o destino coloca por acidente no nosso caminho. Sinto que há algo de errado, como se fosse um erro de continuidade dos filmes, quando conheço alguém de uma classe muito diferente da minha. A distância entre as classes sociais é tão poderosa que não é preciso proibir o contato, como no caso das castas. As classes diferentes raramente se encontram, não na mesma mesa. No máximo, como patrões e empregados, como quem ser e quem é servido. Assim que paramos no portão da casa, pensei – não sabia que era um condomínio fechado. Não era, o murão era de uma única casa, uma mansão. Não tenho nem como descrever o tamanho e o luxo. Da entrada até a mesa onde foi servido o café já era uma distância maior do que o terreno da minha casa. Tudo lindo, dourado e luminoso. No fim daquele café, jogando conversa fora, uma das presentes diz que a filha tinha se separado, a filha advogada. A anfitriã vira pra ela e pergunta:

– A tua filha está empregada?
– Está.

– Que pena, senão eu diria pra ela vir falar comigo. Estamos precisando de uma advogada da área X lá no escritório e sei que é a área dela.

 

Aí, pela primeira vez na minha vida, eu tive vontade de ter feito Direito. Só pra dizer – Opa, peraí, tem eu! e ganhar um emprego assim, num café. Só por estar no lugar certo e na hora certa, só porque dinheiro chama dinheiro. Mas ninguém nunca precisa dessa maneira de sociólogos ou alguém que saiba escrever direitinho. Ninguém nunca me trará para esse mundo no meio do café. Mas, também, sociologia e escrita não leva ninguém à mansões.

 

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Já entrei em mais casas ricas e inacessíveis do que achei que entraria, nessa minha curta vida. A primeira reação, ao voltar para casa, é sempre a de me sentir meio pobre. Mesmo que eu pudesse aplicar na minha casa tudo o que sonhei para ela, tudo o que o orçamento não tem me permitido nesses dez anos, jamais seria tão luxuoso. Essa minha casa, minha pequena casa, já me aprisiona nela muito mais do que eu gostaria. Se saio, me preocupo com ladrão, se viajo, tenho que ver hotel pra cachorro, também tem o problema das plantas. Sou casada com isso daqui. Nem faxineira eu gosto, não gosto de mandar, não gosto de estranhos mexendo nas minhas coisas. Um apartamento, percebo, dá mais liberdade, ainda mais se for alugado. Se um dia viesse parar na minha mão todo o dinheiro necessário para ter uma mansão, ele jamais se transformaria numa mansão. Eu gastaria tudo, provavelmente viajando. E distribuiria. Até conheço o caminho pra me relacionar com pessoas importantes e que poderiam me render contatos, mas fazer amigos com esse fim é contra a minha natureza. Lugares e pessoas cheios de status me entendiam e irritam. A maioria das formas de ganhar dinheiro esbarra com meus valores. O dinheiro teria que vir até mim, oferecido, igual uma propaganda genial que teve anos atrás de um velhinho que bate na casa do sujeito e diz que é o tio-rico rejeitado e deixou todo o dinheiro para ele. Concluo que não tenho vocação para a riqueza.

Rentáveis

Deixa eu confessar que estou desapontada. Na época do vestibular, aquela fase importante das escolhas profissionais, existem os pais que pressionam e os pais que dizem para o filho seguir o coração. Minha mãe fez um pouco dos dois: ela queria muito que eu fizesse Direito mas também entendia que a vida era minha e eu tinha que seguir o que me atraía. E direito sem dúvida nunca me atraiu. Meu coração sempre pendeu para humanas, praticamente todos os cursos de humanas me atraem. E posso dizer que o problema começa aí – eta área desvalorizada e mal remunerada. Eu não sabia o quanto era assim até o Luiz me contar que ofereceram emprego a ele, um empregão, quando ele tinha seis meses de formado. Tudo porque a empresa chegou na faculdade e pediu o nome dos maiores escores da última turma a se formar. Os anteriores já estavam empregados, então o emprego chegou até ele. Digam quando um empregão procura um recém formado da área de humanas. Outro exemplo: um amigo meu, seis meses antes de se formar, foi empregado como médico. Ele chegou lá procurando estágio e já o colocaram como clínico geral, ganhando como formado, porque eles estavam precisando. Talvez o problema seja esse: com um curso de humanas, ninguém sente que precisa de você. Quem sabe se você souber fazer um bom café…

 

Outra verdade é que nos fixamos muito com a idéia de que é preciso faculdade para se dar bem na vida. Existe uma tendência a ganhar melhor com curso superior, só que sempre existem exceções. São os trabalhos tão específicos que quase ninguém faz, ou quase ninguém tem o talento, então aquela pessoa se torna única na cidade. Existe uma joalheria no centro que abre apenas dois dias por semana. Tudo porque o joelheiro dela recebe relógios da cidade inteira para arrumar – ele sem dúvida deve ter algo de único. Quando você precisa fazer um tratamento dentário, aquela coisa tão cara, o teu dentista fará em vezes, já o protético recebe apenas à vista. Vi uma reportagem dizendo que é muito difícil arranjar o especialista em distinguir o sexo dos pintinhos. Falando em sexo, uma dominadora profissional ganhava – quando aceitava ser contratada- quinhentos reais por duas horas de sessão. Não são duas horas de chicotadas, como ela mesma explicou: ela podia deixar o cara ajoelhado e ler uma Vogue. Como dominadora, ela nem tinha obrigação de fazer sexo com o sujeito, ele é que estava lá para lhe dar prazer. Penso numa prostituta de rua, com seu trabalho tão pouco especializado – pra ela é dureza (não resisti ao trocadilho) ganhar cinquenta reais. Ser especializado é tudo nessa vida.

 

Quem recomenda ao filho, numa época importante da vida, aprender a olhar pintinho? Nem os metafóricos. Amei todas as coisas que fiz e faço, mas também teria amado reconhecimento, dinheiro e sucesso. Hoje os pais que forçam os filhos a certas profissões já não me parecem tão errados. É que eles sabem que amor não enche pança, e assim como trabalhar sem amor é frustrante, trabalhar só por amor também é.

Dança divertida

Eu achava muito divertido. Ficávamos em fila e, ao som do batuque, tínhamos de dar saltinhos. Saltar alto, com uma perna dobrada (em retiré) e a outra esticada, os braços se erguendo e olhando para o lado. Eu apelidei aquele salto de “propaganda de amaciante”. Era o primeiro lugar à sério que eu dançava, depois de ter passado pela minha primeira audição. Eu ainda guardava no espírito a alma de uma universitária, e achava tudo aquilo tão novo, tão divertido. Exercícios que tinham o objetivo de desenvolver a coordenação motora – quem fazia isso depois da infância? Por isso eu me sentia sempre um pouco brincando, sempre um pouco na infância. Alguns ficavam constrangidos, outros se aborreciam por não conseguirem fazer, e isso pra mim só era uma prova de que nem todo mundo sabe brincar.

Foi num espírito semelhante que fui fazer curso de preparação de musicais, em Joinville, com uma amiga que fiz na dança e considerava muito. Não apenas o curso não foi nada do que eu esperava como a amizade acabou ali, e depois de colocar os pés em Curitiba nunca mais nos falamos. Um grande problema do curso – hoje eu sei – era o fato dele ser ministrado por um cara da Globo e ser uma oportunidade de entrar lá. O musical era divertido, as músicas eram divertidas, as coreografias eram divertidas – só o ambiente que era péssimo. Competição, competição, competição. Eu era ruim demais, com apenas três anos de dança, perto de pessoas que até academia tinham. Então, não era contra mim que os fogos eram destinados – eu recebia o desprezo destinado aos muito ruins. Eu não entendia como pessoas podiam dançar, que era algo tão divertido, e não se divertirem, e tornarem aquilo mais um motivo de infelicidade. Dança e competir me pareciam um contrasenso.

Poucos meses depois, na escola, eu estava da mesma maneira: vendo quem dançava bem, querendo um lugar melhor o palco, reparando nos puxa-sacos, tentando obter as informações mais privilegiadas. Comecei a ficar assim quando a dança finalmente me fisgou, quando comecei a querer ser alguém. Aí percebi que até então eu os olhava de fora, como se aquilo não fosse um mundo sério. O mundo sério havia sido, pra mim, até aquela data, apenas o mundo acadêmico. Eu não havia me dado conta que os saltinhos e a coordenação motora eram o trabalho dos bailarinos, a maneira como se viam, como eram avaliados, sua profissão. Só então percebi, com um certo desapontamento, que onde quer que o ser humano coloque importância, lá haverá competição, inveja, fofoca, traição e tudo o que há de pior, porque poucos conseguem levar à sério sem perder a leveza.

Um pequeno detalhe

Eu gosto de ambientes bonitos, sabe? Tanto que tive assinatura de Casa Claudia durante anos, na ilusão de que isso me tornaria capaz de ter uma casa casa feito pelo Rosenbaum só de visitar a Leroy Merlin e praticar bricolagem. Aí eu percebi que tudo ficava lindo diante de um janelão com vista para um jardim temático, e passei a me interessar por revistas de Arquitetura & Construção. Adoro lojas de material de construção, adoro ver porcelanas. Passeio por esses lugares e escolho linhas de metais para banheiros que jamais usarei. Já fiz vários projetos mirabolantes para a minha própria casa, e todos ficaram lindos na minha imaginação. Essas coisas todas me fazem dizer que farei faculdade de arquitetura. Minha terceira faculdade, o que é que tem?

– E como é que você vai fazer com cálculo diferencial?

Responde meu marido estraga prazeres. Só porque eu não consigo calcular nem o troco do ônibus se não olho para os meus próprios dedos. Digo que não posso fazer decoração, simplesmente, pelo mesmo motivo alegado pelo meu irmão (que é arquiteto, mas da área de urbanismo) “Se você é decorador, vão perguntar se você também faz cafezinho. Se você diz que é arquiteto, aí sim as pessoas vão respeitar”. Por que minha genialidade tem que estar limitada a esses pequenos detalhes numéricos? Proponho a volta aos moldes antigos da arquitetura, de como era antes da descoberta da perspectiva – farei maquetes do que eu pensei e a gente faz mais ou menos o que está lá… (descobri isso vendo History Channel)

– Oras, você calcula pra mim. Pra que serve casar com um engenheiro?

Meu sonho é ser Niemeyer. Eu direi – “Ó, tive a idéia de fazer uma grande construção em forma de olho, em cima de uma base amarela fininha. Calcula aí, Luiz!”

Quando acabar esta adolescência

Uma tia do pré perguntou o que cada criança queria ser quando crescesse e só eu não soube o que dizer. Todos respondiam prontamente – astronauta, modelo, piloto de avião, trabalhar na TV…. Eu ouvia e achava tudo desejável, mas ao mesmo tempo nenhuma daquelas ocupações era o que eu queria ser. Disse que queria fazer, talvez, o que a minha mãe fazia – dona de casa? Mais tarde aprendi a responder que eu queria ser jornalista, porque meu avô chinês (que eu não conheci) o era. O que me unia ao jornalismo era gostar ler e o desejo de escrever um livro, ou seja, idéias vagas.

Acabei fazendo faculdades que não têm nada a ver com jornalismo e escrevi um livro. Mato meu desejo de escrever aqui no blog. Se tivesse feito uma tatuagem pra cada rumo que já tomei, seria como aquelas celebridades que colocam o nome do namorado e depois têm que cobrir com outro desenho. Já desisti de amar eternamente qualquer ocupação. Olho para trás e vejo que minha posição com relação a esse assunto é tão cheia de dúvidas quanto à primeira vez que me perguntaram o que eu gostaria quando crescesse. É um desejo vago de sempre aprender, me divertir e me sentir desafiada.

O Eros me mostrou uma poesia e acho que ela me define com perfeição:

Quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta adolescência

vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência

vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito

vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito

então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência.

Paulo Leminski

As batatas do vencedor

Você já se imaginou numa mesa de bar, desabafando com… Roberto Justus? Nem eu. Imagino que ele começaria a me falar do mercado competitivo no mundo globalizado, queijos mexidos e atitudes empreendedoras. Coisas que eu não gosto nem nos livros de auto-ajuda e não tem nada a ver comigo. De maneira semelhante, não me desperta um pingo de admiração quando sei que alguém se tornou doutor antes dos 30 anos. Pra mim, são pessoas que se agarram a uma linha de pesquisa cômoda, a um professor, e com ela permaneceram até o fim sem pensar se era isso mesmo. Fazendo o caminho graduação-mestrado-doutorado sem pausas, a pessoa não teve tempo de estar nas ruas e ver que questões lhe atingem pessoalmente, que pergunta a realidade lhe faz.

 

Acho que os seres humanos tem um problema sério com o sucesso. Ele é tão bom e prazeiroso, que nossos egos inflam como baiacus. Pessoas que sempre foram vitoriosas, que traçaram grandes objetivos e conseguiram, tendem a ser insuportáveis. Egocêntricas, onipotentes, superficiais, insensíveis. Também acho que todo jovem é um pouco assim, todo universitário é muito assim (principalmente no início do curso). Porque nessa fase a gente teve grandes pseudo-vitórias, não foi realmente colocado à prova. Depois que a gente sai de lá que começa a se conhecer.

 

Só quem perdeu apesar de todo mérito, é obrigado a encarar coisas como sorte, temperamento, trapaças, injustiças, momentos. Há de se perder algumas vezes, não pra matar e transformar a pessoa em Hardy. Só o suficiente pra coloca-lo dentro da raça humana.

Respondendo pela tangente

Desde meus 21 anos, detesto a pergunta sobre o que faço na vida. Entendo que para os outros seja uma pergunta tão banal quanto perguntar o nome, que é apenas uma forma de conhecer o outro e saber do que falar. Para mim é um eterno tormento. Pergunte-me qualquer coisa, pergunte qual o sentido da vida, mas não me venha com essa de profissão! Porque eu me sinto uma mentirosa com qualquer resposta que eu dê. Cada fase, cada dia, eu respondo alguma coisa. E todas as respostas são verdadeiras e incompletas, todas são meias verdades. Ou quase mentiras.

O Luiz resolve essa questão dizendo que eu sou escultora. Durante muito tempo eu me sentia confortável com essa resposta, mas deve fazer mais de dois anos que eu não uso argila pra outra coisa que não seja compressa (é um santo remédio, testado e aprovado), ela parou de ser tão verdadeira. Tenho preenchido fichas dizendo que sou socióloga, porque tenho mestrado e até livro saindo sobre o assunto. Mas e o fato de nunca ter atuado na área e ter esquecido o assunto desde que me formei, desde que comecei a dançar? Dizer que sou bailarina eu até digo, porque tenho respirado isso todos os dias desde o ano passado… Mas respondo meio baixinho, meio querendo mudar de assunto. Comecei ballet na idade que as bailarinas se aposentam; nunca vesti e provavelmente nunca vestirei um tutu. Dizer que sou Do Lar deixa o Luiz indignado, mas acho que tem a ver porque é ele quem me sustenta.

Poucas semanas atrás, encontramos uma casal amigo dele, da época de faculdade. Quando eles perguntaram o que eu fazia, fiz um muxoxo, pensando no que dizer. O Luiz se adiantou e listou tudo o que já fiz nessa vida. Também não me senti bem; sabe quando a pessoa faz cena porque sabe que vai ser elogiada? Ficou parecendo isso. Também por causa disso, olha o que eu respondi pra dona da banquinha onde eu compro piauí:

(dona da banquinha)- Você trabalha?
(eu)- Sim, eu vou entrar em férias na semana que vem.
(ddb)- É duro trabalhar em agência, o trabalho do seu marido deve ser bem melhor que o nosso, né?
(eu)- É, trabalhar com o público não é fácil…
(ddb) – Eu digo que me estresso mais na agência do que aqui. É diferente lidar com o dinheiro das pessoas. Você também é engenheira?
(eu) – Não, eu não.
(ddb) – Eu estava de folga essas duas semanas, agora vou voltar a trabalhar. É duro. (suspiro) Você trabalha em banco também?
(eu) – Não, deuzulivre. Já basta um em casa.
Chega um cliente. Aproveito pra me mandar

Eu deveria ter dito que era dona de casa de uma vez.

Sonho de bailarina

Acontece todo dia: alguém que fez ballet quando era criança resolve voltar a dançar depois de velha. Quando digo velha, quero dizer acima dos 20 anos. Basta não ser mais criança pra se sentir gorda dentro de um collant. As ex-bailarinas chegam tímidas na aula e saem frustradas ao ver o quanto esqueceram. Quando crianças, faziam aula todo dia e participaram de várias apresentações. Os anos se passaram e quando chegou a época do vestibular elas escolheram outras carreiras – na grande maioria das vezes, por pressão da família. O ballet tornou-se lembrança boa, um projeto não concluído. Ex-bailarinas sentem que deixaram para trás uma parte importante de si mesmas, e que tudo poderia ter sido diferente se tivessem lutado mais pelo sonho.

O que elas não sabem é que não havia carreira esperando por elas na idade adulta. O ballet na infância é um projeto: pais orgulhosos querem ver sua princesinha no palco. O investimento pra ter uma filha fazendo aula de ballet é muito grande: as escolas são caras, exige-se muitas horas de prática, o gasto com roupas e sapatilhas é grande e aumenta mais ainda com as apresentações. Esse investimento dificilmente terá retorno financeiro, porque (pelo menos no Brasil) é muito raro receber pra dançar e quando isso acontece não chega a cobrir os custos. Para entrar nas poucas companhias de dança- melhor ainda se forem internacionais – a bailarina precisa ser mais do que boa. Quem não se destaca com menos de três anos já não está entre os talentosos. Pra ser especial, é preciso ter biotipo e consciencia corporal muito acima da média. Para explicar melhor: todo mundo que faz ballet, levanta a perna mais alto do que quem não faz; mas poucos nasceram pra colocar a perna ao lado da orelha. Todo mundo que faz ballet aprende a dar uma ou duas piruetas, mas nem todo mundo chegará a 32 fouttes.

Ao mesmo tempo, é triste crescer apaixonado por uma atividade e ter que mão dela porque é necessário ganhar dinheiro. Quem teimosamente se mantém na área, deve se conformar em trabalhar muito, ganhar pouco e tirar do próprio bolso pra conseguir mostrar seu trabalho. Acho que se as pessoas tivessem noção dessa realidade, não se sentiriam tão mal de terem abandonado o ballet um dia.