Telefonema

telefonema

Foi difícil. Quando a terça-feira passou e ela não me ligou, eu sabia que ela havia morrido. Tenho do lado do computador um calendário onde anoto os compromissos, e quando fui anotar aquele dia, a intuição me disse que iria riscar meu calendário à toa. Eu ouvi e entendi, mas fiz questão de marcar, como se o meu gesto com a caneta fosse mudar a realidade. Esperei ansiosa o dia inteiro, a manhã seguinte. Ela vinha tendo tantos problemas de saúde que era comum não atender o telefone na hora e ligar mais tarde. Mas eu sabia que não era o caso. Entrei em contato com a única pessoa em comum que tínhamos. A amiga em comum ficou de ligar, de ver, de entrar em contato. Mandou um e-mail pra família meio que para constar. Na teoria que ela formulou, nada havia acontecido, foi como umas férias inesperadas, uma manipulação. “Ela vai ligar mais tarde, quando estiver assistindo a novelinha dela”. Fiquei tão irritada com o tom condescendente. Combinamos de passar as novidades uma para a outra, de continuar ligando. Eu não liguei mais, não tinha coragem – me dava arrepios saber que o telefone do outro lado estava tocando para o vazio. Para tentar convencer, dei a cartada final e disse a verdade: ela está morta, há poucos dias ela me ligou avisando que iria morrer, que havia sido avisada num sonho. “Se ela tivesse sonhado isso teria me dito”. A novelinha dela, a manipulação. Se em poucas palavras eu percebi esse tom, o que ela não terá percebido. As pessoas me contam cada coisa, vocês não sabem. Me contam porque sabem que eu não as julgo. Pessoas de família margarina não ouvem confidências sobre problemas familiares, pessoas contra “abortistas” não ouvem confissões sobre fazer um aborto. Ela me contou que iria morrer. Eu me sentei e agi com o máximo de naturalidade que eu pude diante do direito de alguém de finalmente descansar. Abriram o apartamento e encontraram o corpo na sexta-feira.

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