Ratazana

mice

Günter Grass disse que colocou o nome de Ratazana em um dos seus livros porque conviveu muito com eles durante II Guerra e descobriu que eles são invencíveis – havia ratos por toda parte e nada conseguia impedi-los, qualquer vitória era efêmera diante da capacidade de aprendizagem deles. Eu faria uma camiseta “Lute como um rato”. Já sabia muito sobre o assunto por ter lido, sabia que não era à toa que eles são os vilões do Guia do Mochileiro das Galáxias, mas nada como ter uma experiência concreta. Os ratos ganharam a fama de covardes porque sabem fugir rapidinho quando há rotas de fugas, o que na verdade é apenas uma demonstração do seu senso prático. Eles os piores adversários que se pode ter: astutos, persistentes e hábeis.  Lembram do rato, veneno e etc? Tenho a impressão que ele preenche uma planilha e a minha casa o impede de conquistar o ISO9000. Se não for sempre ele, há um rodízio, todos focados no mesmo objetivo. Tudo o que fiz foi tão inútil que fui obrigada a tampar o ralo do meu tanque. Agora a água cai no balde. É primitivo, mas nada como a tranquilidade de saber que não há rato nenhum em casa. Eu coloquei uma pedra amarrada numa lata de tinta, então sei que ele não passa mais. Mesmo assim, em intervalos irregulares e cada dia num horário diferente, eu ouço unhas arranhando debaixo do tanque.

 

O (acho que) rato

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Era de noite, a porta dos fundos estava aberta como sempre e eu ouvi um barulho esquisito que vinha de fora. Apurei o ouvido e vinha do sifão, da parte debaixo. Durante o dia eu tinha usado o tanque e a água esparramou toda, o sifão estava desencaixado. Encaixei de volta e achei que era apenas porque estava ressecado. Ao ouvir aquele barulho, entendi que um bicho havia tirado ele do lugar e que estava tentando fazer de novo, naquele instante. Abri a torneira e deixei a água correr, o barulho parou. No dia seguinte tudo bem, mesmo assim joguei uma água sanitária antes de dormir, para dar o recado. Na manhã seguinte, o sifão todo para fora de novo. Pego uma imensa pedra redonda de jardim e coloco em cima do buraco, ou seja, fico sem tanque o dia todo. Estou bem tranquila à noite fazendo sopa e quando olho para o tanque a pedra estava longe. Foi aquela sensação de filme de terror, o bicho além de persistente é grande. Coloco a pedra de novo, agora com o reforço de enciclopédias (!!) para prendê-la à parede. Tenho medo de ter prendido o rato pra fora – ou para dentro, dependendo do ponto de vista – , mas como é que eu vou saber se ele foi e já voltou? Me desconcentro, não leio mais, não faço mais nada direito. Estou no sofá ouvindo a única trilha possível no momento – Life is Hard – e penso em não postar. Tem um ratão em algum lugar, lá embaixo.

Curtas de todo cuidado é pouco

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Tive que colocar duas roupas na Dúnia, ou seja, não adianta choramingar, chegou mesmo.

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Enquanto estava esperando o vendedor chegar com meu celular novo, uma mulher estava pedindo informações sobre uma Nespresso. Minha vontade foi de chegar junto dela, fingindo que estava vendo outros produtos e lhe falar de lado, como nos filmes: “A sua conta de luz vai aumentar…”

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Um dia, com mais paciência, eu descrevo aqui a luta que empreendi semanas contra um rato. Quer dizer, quero crer que era apenas um. Quando finalmente descobri de que buraco ele vinha, fiquei chocada em perceber que minha casa não foi invadida por ratos há anos porque eles não quiseram. (Certamente não quiseram porque aqui é limpinho, oras)

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Já vi um monte de notícias sobre a Malala e o livro é bem conhecido, então tinha decidido que ele seria o meu “livro de ficar na bolsa” da vez, mesmo porque essa vida de carregar livro de mais de quinhentas páginas cansa. Aí, logo no início ela conta sobre o tiro e me escorro em lágrimas grossas. Vou ter que continuar nas quinhentas páginas -vai que Malala é nível Menina que roubava livros em choradeira?

Curtas sobre bichos escrotos

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Ouvi um papo sobre chinelada e não estava entendendo. Aí me mostraram que havia uma barata enorme no vestiário, perto do teto e de alguns armários. Uma diz: “é que as baratas gostam muito de sabonete”. Na minha lista de “Coisas que Baratas Gostam” já constam: saliva, restos de comida, correr na nossa direção, esgoto, lixo, ralos, fingir de morta, cantos escuros, buracos entre armários, jornais velhos, calor, sapatos, aparelhos eletrônicos desativados, cerveja, papelão, voar. Concluo que o grande segredo das baratas é a sua alegria de viver.

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Quando eu conferi o lixo que não é lixo e ele estava roído, meu desânimo foi total. Aquilo sim deu vontade de fazer as malas e ir embora dessa vida divorciada e adulta. Porque enfrentar baratas, seres resistentes e nojentos é uma coisa; outra, bem diferente, é enfrentar seres superiores. Ratos são os bichos mais inteligentes da terra, o autor do Guia do Mochileiro das Galáxias tem razão. Um exemplo que li num livro: tinha um navio enfestado de ratos, nada dava jeito. Aí um dia tiveram um plano infalível de evacuar o navio, lacrar e colocar tubos que jogavam um veneno fortíssimo dentro do navio. Dias depois, voltaram achando que teria cadáver de rato espalhado por tudo, mas não, estava tão enfestado quanto antes. Quando foram ver os tubos, descobriram que cada um deles havia sido entupido com ratos, que andaram em direção ao veneno até morrer e vedar.

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Fui procurar dicas na internet sobre como lidar com ratos e uma bem ecológica recomendava cheiro de xixi de gato ou cachorro perto do local, porque são inimigos naturais. Já me imaginei colocando potinho de coleta embaixo da Dúnia durante o passeio.

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Outra: foi muito difícil desenvolver veneno para ratos. Pra começar por causa do olfato apurado deles, que faziam com que qualquer veneno passasse intocado. Depois, quando conseguiram desenvolver um veneno sem cheiro de veneno, pela prudência dos ratos: qualquer sabor novo tinha de ser experimentado pelo membro mais velho do grupo, que passava dias em observação. Só depois de alguns dias o alimento passava a ser liberado pros outros. Por isso que nenhum veneno de ratos age imediatamente.

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Por isso eu considero os ratos como uma grande inteligência coletiva. Já pensou se os humanos conseguissem agir assim? É que cada um de nós se sente importante demais. Um sujeito com um revolver com poucas balas consegue dominar uma multidão, porque cada parte dela tenta se preservar. Meu problema eu resolvi tapando o ralo, caso vocês queiram saber.