Tudo normal

Há décadas, quando eu estudei isso, o Duplo Vínculo estava ligado à antipsiquiatria. Claro, ninguém aqui quer negar que haja um componente biológico, mas a antipsiquiatria tinha no seu âmago uma crítica à psiquiatria tentava ampliar a forma de ver a loucura. Essa teoria nos informa que não se fica louco do nada, que há uma história, que o meio tem seu papel. Nas relações familiares mais próximas de um doente psiquiátrico seria fácil encontrar relações doentias – chamadas de duplo vínculo – onde uma pessoa com grande autoridade sobre o sujeito lhe dá informações conflitantes que destroem seu senso de eu. É o “eu te amo” dito numa realidade cheia de ódio, o discurso da confiança em meio à agressões. Isso é repetido tantas vezes, por um outro tão maior e convicto, que o “louco” fica confuso e paralisado. Ele não consegue responder porque não há resposta coerente possível frente ao incoerente.

Estudei duplo vínculo como antipsiquiatria, mas hoje ele me parece tão mais amplo. Penso que existe em toda relação abusiva. Inclusive, hoje em particular, me parece que é possível fazer duplo vínculo com um país inteiro. Um absurdo maior do que o outro e nossos meios de comunicação e governo insistem que:

não há nada acontecendo

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O bom de chopp

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Estávamos quase reprovando em massa em Estatística quando o professor oficial da cadeira voltou dos EUA, com a promessa de uma forma arrojada e fresquinha de pensar. Ele era alto, loiro, agitado e provavelmente bonitão (naquela idade eu apenas o classifiquei de velho), a própria encarnação do winner. O curso em questão era de psicologia e, pelo menos naquela época, ninguém ali era muito de esquerda. Ele realmente conseguiu o milagre de salvar a turma, jamais esquecerei que pulei de uma nota 0,25 (eu colei) para 10, o que me permitiu fazer prova final e passar. Um dia, numa de suas muitas ilustrações, ele falou do novo profissional que estava surgindo. Ele disse que antigamente toda empresa tinha “o bom de chopp”, que era o cara que não trabalhava tanto assim, mas ele era amigo da galera, contava boas piadas, deixava o ambiente mais ameno. Por isso se fazia vista grossa pro rendimento menor e ele ia ficando. Agora não, não haveria mais espaço para isso, cada um tinha que ser muito competente e focado. Sem lenga lenga, trabalho duro. Várias cabecinhas balançaram em sinal afirmativo, cada qual se sentindo muito merecedora de passar nesse funil. Eu fiquei incomodada – tanto que lembro da história – e levei muito tempo para entender o porquê.

Hoje em dia se considera um avanço a maneira como temos medicamentos para pacientes psiquiátricos, porque com isso é possível estabilizar o humor deles e torná-los produtivos. Só que numa perspectiva mais crítica e ampla, vemos que outras épocas e sociedades tinham uma capacidade muito maior de absorver essas pessoais tais como são. Onde vemos gente esquisita que não produz, poderíamos ver místicos, visionários, artísticas, xamãs, santos, eleitos. Ninguém precisava tentar mudar, eram pessoas com dons especias e um papel onde suas características eram valiosas. Eles estariam apontando pra uma direção que ninguém mais. Estariam não, estão – nós é que falhamos em ver. Sem perceber, colocamos como valor absoluto o indivíduo ser gerador de renda. Se não gera renda, independente do motivo, não merece crédito em nada.

Não é à toa que as classificações psiquiátricas aumentem cada dia mais. Basta alguém gritar no local de trabalho ou destruir um objeto que já é surto e precisa ser internado. Pouco importa a violência que se sofre o tempo inteiro, quem não consegue lidar com isso a portas trancadas é louco. Normal é que leva pancada atrás de pancada com uma capacidade infinita de se conter, porque hoje nem “precisa” mais de um bom clima no trabalho. Ou será que o bom de chopp também era uma forma de trabalho?

O passado

A mesma vontade de ser boa e ajudar o semelhante, que me levou a fazer psicologia, me levou também a fazer serviço voluntário. Eu fazia atendimento telefônico a pessoas que estavam deprimidas – trabalho de prevenção ao suicídio, como chamávamos. Só que, do mesmo modo que não teria paciência para ser psicóloga, eu tenho um limite meio curto com queixas. Já fui dessas amigas que ouvem os problemas das amigas. À medida que cresci e aprendi a me relacionar com as pessoas de outra forma, isso de ser confidente me encheu. Não pelas confidências em si, e sim pela repetição delas. A amiga com problemas com o namorado (e os problemas que exigem amigas-confidentes sempre são de relacionamento) vai repetir ad-infinitum as mesmas histórias. O motivo de queixa será sempre o mesmo, a solução será sempre a mesma – a vontade de reclamar e não fazer nada também. Fico com vontade de mandar à merda e que a pessoa só volte quando for reclamar de algo diferente. Um psi não pode fazer isso.

 

Eu atendia o telefone com toda paciência. Ouvi muitas histórias e acho que posso ter ajudado bastante gente. O problema estava nos que ligavam sempre. Uma vez por semana uma mulher me ligava aos prantos. Depois de um período respeitando a dor dela, deixando chorar à vontade, eu começava a perguntar o que estava acontecendo. Ela dizia que não era justo, que não tinham esse direito, que ela sofreu muito. Eu procurava ser compreensiva, e fazia perguntas com o intuito de ajudar a organizar as ideias. Aí ela contava que foi internada a força numa instituição psiquiátrica, o que é realmente sério. Ela continuava e dizia que era difícil, que ela não merecia, que na tal da clínica ela era medicada, falava com o médico, aquela rotina de instituição. Ela não estava mais lá, mas era difícil conviver com a lembrança. Agora é que vem o problema: o fato havia ocorrido há mais de vinte anos.

 

Quando soube – e não demorou muito – eu não conseguia mais atender a mulher. Não com toda paciência que ela queria. Chegou uma época que ela me ouvia falar Alô e desligava. Soube que ela ligava para todos os plantões, todos os dias, e em pouco tempo decorou o meu dia da semana e não me ligou mais. Mais tarde fiz estágio em clínica psiquiátrica e vi que esse comportamento (e tormento) dela não é incomum. Que bom que existe gente melhor do que eu, que trate e ouça. Como acontece nos pacientes psiquiátricos, é possível ler no comportamento daquela mulher uma metáfora do que nós, os “normais”, também fazemos, só que de modo menos evidente: pro passado não existe idade, não tem longe e nem perto. O passado é aquilo que nos atormenta e define quem somos, o que governa nossas ações, o que nos faz chorar. E isso pode nunca envelhecer.