Essa casa brasileira

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Quando eu e o ex namorávamos, nós vivíamos praticamente nos extremos da cidade: ele morava e trabalhava no Leste e eu vivia no Oeste e trabalhava no Norte. Quando decidimos buscar uma casa, o primeiro impulso foi procurar no Leste porque era mais perto do trabalho dele. Eu tive resistência a isso e questionei se ele pretendia trabalhar naquela empresa a vida inteira. Como a resposta foi negativa – e ele acabou saindo de lá poucos anos depois de casados -, disse que não fazia sentido centrar nossas buscas apenas no Leste. Virou quase uma competição, cada um torcendo que a casa ideal para os nossos sonhos e orçamento ficasse na sua região. Os corretores ficavam loucos, porque quando nos perguntavam que bairros estávamos dispostos a ver, eles contemplavam três pontos cardeais e os do meio. Mas na verdade enchemos pouco o saco dos outros porque vimos quase tudo sozinhos. Na sexta-feira já marcávamos as casas em potencial que veríamos naquele fim de semana e, além dessas, seguíamos qualquer placa que víssemos no caminho. Foram meses fazendo isso, vendo dezenas de casas por dia em todos os cantos que se possa imaginar, um daqueles feitos que quando a gente olha pra trás se pergunta como teve paciência. Vimos muita coisa, muitos absurdos. Lembro de um sobrado pequeno, com todos os cômodos apertados, cujo grande atrativo era a banheira da suíte, que cabia umas sete pessoas sentadas. É de se perguntar pra que tipo de consumidor aquela planta foi pensada. Vi casas que para resolver o desperdício de espaço com corredores o tinham simplesmente omitido: as portas dos quartos ficavam coladas na lateral, formando um triângulo cuja base era a escada. Ou seja, se você saísse do quarto um pouco sonolento ou distraído, poderia morrer.

O que realmente me marcou nos absurdos que vimos naquela época foi o seguinte: fomos parar naquele conjunto de sobrados por uma das muitas placas que seguimos no meio da rua. Quem estava lá para vender foi o próprio sujeito que construiu os sobrados. Eram uns seis sobrados de dois tamanhos diferentes: o maior tinha cerca de 150m² e estava mais de vinte mil acima do orçamento (no mercado imobiliário se fala dez, vinte e trinta mil com um desapego que é de deixar deprimido) e o outro tinha 110m² e estava menos acima do orçamento. Ele queria, claro, que a gente se propusesse a vender as mães e ficar com o maior, por isso nos fez visita-lo primeiro, mesmo a gente dizendo que não poderia ficar. Pois bem, fomos e ficamos babando. Quartos, suítes, banheiros, sala, cozinha, tudo muito bem distribuído, iluminado, espaços bem aproveitados, um projeto muito bom. Era de fechar o negócio ali se não estivesse realmente acima do orçamento. Fomos animados ver o de metragem menor. Nos perguntávamos como seria, se de repente só tivesse tirado um dos três quartos, ainda assim seria bonito, a gente não precisava mesmo de uma casa tão grande. Quando entramos… olha, não tenho nem palavras, aquilo foi inacreditável. O sujeito pegou a planta da casa de 150m² e passou a régua na lateral da planta e com isso cortou os 40m² de diferença. A casa menor era idêntica à anterior, só que com os cômodos de todo lado direito mutilado. Ficou horrível, burro, não quisemos ver mais nada.

Evito ao máximo dar pitacos políticos aqui, mas essa reforma da previdência me parece igualzinha. Tem muita gente boa escrevendo e sendo entrevistada sobre o assunto, então não vou ousar tentar explicar o que não entendo. O que sei é que todos temos ciência de que é preciso mudar, que não dá pra seguir no atual modelo. Mas com tantas outras possibilidades e torneiras abertas, precisa ser uma matemática tão óbvia e burra que pune justamente quem menos pode se defender?

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Inteligência culinária

Hoje todos reconhecem, nem que seja um reconhecimento bem marromeno, que existem diversos tipos de inteligência. Antes, inteligentes eram apenas os CDFs chatos que entendiam o que o resto da sala não entendia, ou seja, coisas que envolvem números. Hoje sabemos que o esportista, aquele cara que vinha todo suado depois do recreio porque não perdia uma chance de ficar perto de uma bola, que só fazia sucesso na educação física e com as meninas, também é inteligente. Acho até que é a última parte – ir bem com as meninas – que leva as pessoas a terem bastante resistência em reconhecer que exista uma inteligência corporal – “Além de terem corpão e pegarem geral, ainda por cima eu tenho que chamar eles de inteligentes?” Olha. E ainda dizem que Deus é justo.

 

Mas a inteligência que realmente sofre com a falta de reconhecimento é a Culinária. Ela é tão injustiçada que nem ao menos entra na classificação das inteligências. Mas ela existe, tenho certeza que existe. Eu sei que existe porque eu sou totalmente desprovida dela. A capacidade de apreciar e criar sabores exige um tipo de percepção, cálculo, sensibilidade e talento que não é pra qualquer um. A pessoa que não tem essa inteligência pode fazer qualquer tipo de curso, seguir as melhores receitas, ter à mão os ingredientes mais selecionados e não será capaz de fazer mais do que uma comida nhé. Já o inteligente culinariamente é capaz de transformar qualquer feijão no paraíso. É o mesmo feijão, cebola e alho e ao mesmo tempo não é. Olha, admiro tanto, alguém que cozinha bem pra mim é um tipo de Macgiver.

 

Eu fico pasma quando estou comendo e alguém solta um: “Esse prato com um pouco de salsinha e páprika ficaria ainda melhor”. Sério, como é que o mundo não reconhece que isso é um tipo de habilidade. Saber se tem muito ou pouco sal, ok, mas daí propor que a comida ficaria melhor com algo que nem está lá é demais. Tento buscar dentro de mim algum registro disso e nem sei onde está, é como se eu tentasse mover as minhas asas. Gente normal classifica a comida em três grandes grupos: bom, ruim e dá pra comer. Gente normal adora comida de rua. Gente normal só descobre aquele gostinho amargo suspeito depois de dez minutos. Gente normal acha que toda comida amarela tem curry e é indiana. Gente normal quando decide ser inventiva com temperos descobre que alecrim fica horrível no molho sugo e depois fica catando todas as folhinhas porque não vai ter paciência de fazer mais molho. (Não que eu tenha feito isso, claro, foi uma amiga que me contou.)

 

Por isso que eu vivo dizendo que ainda escreverei o livro Culinária for Dummies* porque a parte mais importante – ser uma imbecil na cozinha – eu já tenho. Só eu falarei de igual para igual com o público desprovido de inteligência culinária. Chega dessas receitas de bolo que você vai seguindo e só meio do texto dizem: “coloque a forma num forno pré-aquecido” sem que ninguém tenha avisado antes que tinha que ligar o forno. Ou que supõem que a gente sabe que diabo de medida ou marca de sal é essa chamada “Agosto”. Ou que realmente acreditam que qualquer receita com mais de três ingredientes e duas etapas pode ser rápida e simples. É por isso que eu digo: saber cozinhar é um tipo de inteligência, e das mais importantes. Remunerem bem, valorizem, estimulem a procriação e ofereçam todas as toalhas brancas que pedirem. O mundo precisa deles.
* A série de livros “for Dummies” foi traduzida no português como “para leigos”. Pra mim, perdeu todo sentido.

Burro-especialista

Na terminologia psico-empresarial-idiota do momento, o nome disso é foco. Uma pessoa focada seria aquela que tem um objetivo e jamais se desvia dele. Na prática, o que vemos são criaturas que só respiram e vivem pra um assunto. Nos funcionários, quem lê Quem Mexeu no Meu Queijo pra baixo e vê qualquer filme com equipes como uma metáfora da vida empresarial; no ballet, gente que não apenas ignora qualquer outra forma de expressão artística como também ignora qualquer outra dança que não seja o ballet; nas religiões, naqueles que só lêem os livros sagrados e só ouvem musicas de louvor. Eu poderia me estender infinitamente nos exemplos, porque pra ser burro-especialista basta encontrar um assunto.

O efeito imediato é que esse tipo de gente é completamente mala. Se você quer perguntar algo sobre a área de interesse dele, vá em frente. Mas depois de ouvir a resposta, saia correndo – é tão raro alguém dar ouvidos a um tipo desses que todos são carentes*. Ironicamente, ser burro-especialista não ajuda ninguém a ser bom no que faz. Quem não se desvia, quem só trilha pelo conhecido, quem vive em função da cartilha, jamais é criativo. Pra ser bom, é preciso ter o que dizer. E ninguém tem o que dizer se não saiu viveu.
* O que nos leva ao antigo dilema Tostines: são carentes porque são malas ou são malas porque são carentes?