O bom de chopp

img_4552

Estávamos quase reprovando em massa em Estatística quando o professor oficial da cadeira voltou dos EUA, com a promessa de uma forma arrojada e fresquinha de pensar. Ele era alto, loiro, agitado e provavelmente bonitão (naquela idade eu apenas o classifiquei de velho), a própria encarnação do winner. O curso em questão era de psicologia e, pelo menos naquela época, ninguém ali era muito de esquerda. Ele realmente conseguiu o milagre de salvar a turma, jamais esquecerei que pulei de uma nota 0,25 (eu colei) para 10, o que me permitiu fazer prova final e passar. Um dia, numa de suas muitas ilustrações, ele falou do novo profissional que estava surgindo. Ele disse que antigamente toda empresa tinha “o bom de chopp”, que era o cara que não trabalhava tanto assim, mas ele era amigo da galera, contava boas piadas, deixava o ambiente mais ameno. Por isso se fazia vista grossa pro rendimento menor e ele ia ficando. Agora não, não haveria mais espaço para isso, cada um tinha que ser muito competente e focado. Sem lenga lenga, trabalho duro. Várias cabecinhas balançaram em sinal afirmativo, cada qual se sentindo muito merecedora de passar nesse funil. Eu fiquei incomodada – tanto que lembro da história – e levei muito tempo para entender o porquê.

Hoje em dia se considera um avanço a maneira como temos medicamentos para pacientes psiquiátricos, porque com isso é possível estabilizar o humor deles e torná-los produtivos. Só que numa perspectiva mais crítica e ampla, vemos que outras épocas e sociedades tinham uma capacidade muito maior de absorver essas pessoais tais como são. Onde vemos gente esquisita que não produz, poderíamos ver místicos, visionários, artísticas, xamãs, santos, eleitos. Ninguém precisava tentar mudar, eram pessoas com dons especias e um papel onde suas características eram valiosas. Eles estariam apontando pra uma direção que ninguém mais. Estariam não, estão – nós é que falhamos em ver. Sem perceber, colocamos como valor absoluto o indivíduo ser gerador de renda. Se não gera renda, independente do motivo, não merece crédito em nada.

Não é à toa que as classificações psiquiátricas aumentem cada dia mais. Basta alguém gritar no local de trabalho ou destruir um objeto que já é surto e precisa ser internado. Pouco importa a violência que se sofre o tempo inteiro, quem não consegue lidar com isso a portas trancadas é louco. Normal é que leva pancada atrás de pancada com uma capacidade infinita de se conter, porque hoje nem “precisa” mais de um bom clima no trabalho. Ou será que o bom de chopp também era uma forma de trabalho?

Anúncios

Tempo

Quando eu era muito ocupada, com aulas de manhã, de tarde e todo o resto do meu tempo escrevendo trabalhos e dissertação, deixei muita gente de lado. Pra mim era assim: em nome da nossa amizade eu abria espaço na minha atribulada agenda. Ao invés de comer em dez minutos, eu marcava um almoço; ao invés de voltar correndo pra casa pra digitar alguma coisa, me dispunha e encontrar alguém pra um café. Depois eu tinha que compensar o tempo perdido, sair correndo e retomar minha loucura. Quando mais de um amigo me procurava era um transtorno, porque era mais coisa pra se acumular. Pouco meses depois eu me supreendia com um e-mail se queixando de falta de notícias, saudades, que há meses não nos víamos. Pra mim tinha sido ontem. Algumas semanas não são nada para quem não descansa. Por que as pessoas tinham que ser tão carentes e não podiam me deixar em paz?

Agora eu sou o outro lado. Todo mundo com jornada dupla, seja por emprego e pós, emprego e filhos, emprego e emprego. Olho para os lados e está cada vez mais comum as pessoas trabalharem mais de dez horas por dia. Voltamos à Revolução Industrial, só que desta vez “voluntariamente”: eles fazem isso para serem mais qualificados, serem promovidos, ganharem mais… ou pra simplesmente não ficarem para trás num mundo onde os outros estão dispostos a trabalhar dez horas. Agora sou eu que tenho que me lembrar que os meses passam voando e não levar pro pessoal essa gente que não tem mais tempo de me dizer Oi.

Embromation

Desde aquele incidente com o meu orientador, escrevi apenas algumas linhas para o meu trabalho. Antes, depois de passar o dia inteiro em aula e passear com o cachorro, vinha direto para o computador e escrevia. Quando faltava alguma leitura, lia aqui mesmo, pra já completar o trabalho.

Eu já fiz gesso, brinquei com o cachorro, passei pano lá embaixo, arrumei umas roupas espalhadas, me depilei, recarreguei a bateria do celular, acendi incenso, ouvi CD dos Beach Boys, respondi scraps… adivinha o quanto eu escrevi?

Meninas ricas

Um dia estava no vestuário da academia e, não sei o por quê, o assunto recaiu sobre mérito e esforço próprio. Uma aluna de Pump dizia em altos brados que merecia tudo o que ela tinha – que enquanto outras na faculdade podiam se dar ao luxo de voltar pra casa, ela tinha que trabalhar em agência de viagem. Que ela ralou muito, que construiu cada pedaço. Que merecia o emprego, o carro, as roupas, tudo o que ela tinha. Fiquei em silêncio. Ele deve ter confessado o que penso – de que não fiz um monte de esforço para chegar a lugar nenhum.

Se fôssemos comparar as histórias, eu poderia dizer que merecia ainda mais do que ela. A Aluna de Pump estudou desde criança em colégio particular e fazia inglês. Teve a sua e foi para muitas festas de 15 anos. Passou em Comércio Exterior na PUC e trabalhou na área durante o curso. Aos 30, tinha um bom emprego por causa da sua experiência e por falar inglês com fluência. Morava com o pai num apartamento bem localizado e estava para se casar com um chefe de cozinha.

Por outro lado, eu estudei em colégio particular até a 7º série, quando meu pai resolveu ir para o buraco e levar todo mundo junto. Fui para um colégio estadual. Não fiz cursinho e tentei vestibular só na Federal, porque não poderia estudar em nenhuma outra. Passei. Tinha aula de manhã, de tarde e de noite e não tinha horário para trabalhar. Só para fazer estágios – e fiz durante os 5 anos, quase 2 por ano. Era a famosa sem grana da turma, e vivia filando xerox e lanches. Depois de formada inventei de ser artista, sempre com a minha mãe me sustentando. Agora estou casada, fazendo outra faculdade/mestrado pra ver se consigo virar uma cidadã produtiva.

Não posso dizer que mereço tudo o que tenho. E nem ela. Não entendo como as pessoas batem no peito e acham que construíram suas vidas; esquecendo a classe social de onde vieram, as muitas oportunidades que tiveram, todo seu passado e seu meio social. Quem disse que eu ou ela, se tivesse nascido sem tantas oportunidades, não teria simplesmente virado catador de papel? Como alguém pode ter tanta certeza assim? Se é tudo uma questão de mérito próprio, todo mundo merece estar onde está?

Eu acredito que quem merece dizer que construíu tudo o que tem é gente como o Sílvio Santos e outros 0,001% da população. Os outros não fizeram mais do que não afundar.