Inteligência culinária

Hoje todos reconhecem, nem que seja um reconhecimento bem marromeno, que existem diversos tipos de inteligência. Antes, inteligentes eram apenas os CDFs chatos que entendiam o que o resto da sala não entendia, ou seja, coisas que envolvem números. Hoje sabemos que o esportista, aquele cara que vinha todo suado depois do recreio porque não perdia uma chance de ficar perto de uma bola, que só fazia sucesso na educação física e com as meninas, também é inteligente. Acho até que é a última parte – ir bem com as meninas – que leva as pessoas a terem bastante resistência em reconhecer que exista uma inteligência corporal – “Além de terem corpão e pegarem geral, ainda por cima eu tenho que chamar eles de inteligentes?” Olha. E ainda dizem que Deus é justo.

 

Mas a inteligência que realmente sofre com a falta de reconhecimento é a Culinária. Ela é tão injustiçada que nem ao menos entra na classificação das inteligências. Mas ela existe, tenho certeza que existe. Eu sei que existe porque eu sou totalmente desprovida dela. A capacidade de apreciar e criar sabores exige um tipo de percepção, cálculo, sensibilidade e talento que não é pra qualquer um. A pessoa que não tem essa inteligência pode fazer qualquer tipo de curso, seguir as melhores receitas, ter à mão os ingredientes mais selecionados e não será capaz de fazer mais do que uma comida nhé. Já o inteligente culinariamente é capaz de transformar qualquer feijão no paraíso. É o mesmo feijão, cebola e alho e ao mesmo tempo não é. Olha, admiro tanto, alguém que cozinha bem pra mim é um tipo de Macgiver.

 

Eu fico pasma quando estou comendo e alguém solta um: “Esse prato com um pouco de salsinha e páprika ficaria ainda melhor”. Sério, como é que o mundo não reconhece que isso é um tipo de habilidade. Saber se tem muito ou pouco sal, ok, mas daí propor que a comida ficaria melhor com algo que nem está lá é demais. Tento buscar dentro de mim algum registro disso e nem sei onde está, é como se eu tentasse mover as minhas asas. Gente normal classifica a comida em três grandes grupos: bom, ruim e dá pra comer. Gente normal adora comida de rua. Gente normal só descobre aquele gostinho amargo suspeito depois de dez minutos. Gente normal acha que toda comida amarela tem curry e é indiana. Gente normal quando decide ser inventiva com temperos descobre que alecrim fica horrível no molho sugo e depois fica catando todas as folhinhas porque não vai ter paciência de fazer mais molho. (Não que eu tenha feito isso, claro, foi uma amiga que me contou.)

 

Por isso que eu vivo dizendo que ainda escreverei o livro Culinária for Dummies* porque a parte mais importante – ser uma imbecil na cozinha – eu já tenho. Só eu falarei de igual para igual com o público desprovido de inteligência culinária. Chega dessas receitas de bolo que você vai seguindo e só meio do texto dizem: “coloque a forma num forno pré-aquecido” sem que ninguém tenha avisado antes que tinha que ligar o forno. Ou que supõem que a gente sabe que diabo de medida ou marca de sal é essa chamada “Agosto”. Ou que realmente acreditam que qualquer receita com mais de três ingredientes e duas etapas pode ser rápida e simples. É por isso que eu digo: saber cozinhar é um tipo de inteligência, e das mais importantes. Remunerem bem, valorizem, estimulem a procriação e ofereçam todas as toalhas brancas que pedirem. O mundo precisa deles.
* A série de livros “for Dummies” foi traduzida no português como “para leigos”. Pra mim, perdeu todo sentido.
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O cara da armação inadequada

Eu e ele nos cruzamos quando eu não saio de bicicleta. Onde eu o encontro – mais próximo ou mais distante do semáforo – me diz o quanto estou no horário ou não. Na última vez o vi já dobrando a padaria, então apertei o passo porque já estava bem atrasada. O normal é que eu o veja bem na faixa de pedestres. Ele é daqueles tipos magros de ombros finos e rosto magro e fino cuja idade não sabemos determinar. Quando jovens, parecem velhos, e quando velhos parecem não ter chegado lá. Diria que tem mais de trinta e menos de cinquenta. Ele tem aquele tom de pele que aqui faz as pessoas se sentirem muito negras, muito pardas, mas que em Salvador seria considerado “você tá horrível, desbotado, precisa ir na praia pegar um cô(r)”. O cabelo baixinho e as sobrancelhas bem pretas. As roupas, sempre folgadas, tendem ao marrom. Não sei para onde ele vai, que tipo de serviço faz, eu adivinharia que tende a ser algo braçal sem ser pesado. 

Era pra ser apenas uma das muitas pessoas com quem cruzo por aí, sem nem registrar, mas sempre que olho pra ele aquela armação de óculos me incomoda. Fina pros lados, totalmente inadequada pro rosto. Imaginem, um rosto fino e comprido com uma armação fina e comprida pro lado – fica parecendo uma cruz. Para piorar o conjunto, na parte de cima, como se de plástico, um tom de branco muito forte que lhe dá um tom moderninho brega. Eu passo por ele e tem aquele branco gritando, dizendo que ou aquele óculos não foi escolhido pra ele, ou ele não sabe quem é, que rosto tem, que mensagem passa.

(Eu não deveria dizer isso, pra não estragar o post, mas da última vez que nos vimos eu vi que o óculos não tem partes de plástico. A armação é toda de metal e a parte de cima reflete a luz de maneira estranha. Ou seja, a crítica ainda é válida)

Cobrador-legista

Até agora não entendi como é que eu me perdi na volta do Ibirapuera. Saí pelo mesmo lugar onde entrei, segui um retão, da mesma forma que cheguei lá andando reto toda vida (leia isso com sotaque catarinense). Até passei pelas mesmas clínicas que eu tinha passado. Devo ter pego alguma rua que sai de lá em triângulo. Sei que o caminho foi ficando diferente, diferente, até que não pude negar os fatos: estava perdida em São Paulo.

 

Encontrei uma moça, dessas que fica do lado de um stand pra falar de Jesus, e achei que seria alguém perfeito pra pedir ajuda. Ela me mandou andar até Santo Amaro e de lá pegar um ônibus. Tenho resistência a pegar ônibus em São Paulo, por mim faço tudo de metrô. Acho que é porque o sistema lembra mais o curitibano, com isso de parar nos mesmos centros e só fazer a troca. Mas estava perdida de um jeito, e preocupada com meus horários, que tive que ceder. Já havia andado horas, visto duas exposições, e estava no horário do almoço, tinha que sair cedo pra ir pro aeroporto. Nem lembro direito o nome da linha. Cheguei no motorista e disse que tinha que parar perto do cemitério, e ele me disse que passaria por uns quatro. Claro que eu nem sabia qual cemitério era, nem ao menos qual a graça da igreja que fica por perto. Tenso mas deu certo.

 

Então, eu reexpliquei minha situação ao cobrador e grudei nele. Sentei na frente do sujeito, que já conversava com uma moça. Era um cobrador que fazia bico de legista, ou o contrário. Quando que a gente vai imaginar uma coisa dessas. Ele nos mostrou a mão calejada de lidar com formol, mesmo usando duas luvas para trabalhar. Pena que perdi trechos da conversa, porque ele falava relativamente baixo. Ele nos falou que o formol ainda é menos pior do que o cheiro dos cadáveres, que nada fede mais do que gente. Contou do ajudante que abusava dos cadáveres e ele teve que demitir. E que, na verdade, ainda salvou a vida do sujeito, porque abusando de cadáveres ele acabaria pegando doença deles, que vai necrosando as partes que entraram em contato com os corpos. Falou da rápida decomposição dos cadáveres com câncer, que você não pode nem encostar o dedo para que eles não estourem e comecem a vazar na hora. Contou que ganha uma fortuna quando morre alguém de família rica e pedem para reconstituir o corpo para poder ter um caixão aberto. Contou do caso de uma moça, que à medida que foi sendo despida, apareciam mais e mais tatuagens, e tinha 26 piercings pelo corpo. Na hora de devolver os pertences à família, o choque: eram todos evangélicos, os pais não sabiam de nada daquilo. Concluíram que a moça morreu porque já estava endemoniada.

 

“A vida da gente é um nada. Isso aqui (passa a mão no braço) é um nada, se acaba muito rápido. Tem que viver bastante, namorar, aproveitar a vida. Estamos aqui só de passagem”. Clichê, mas com outra autoridade quando dito por um cobrador-legista.

Lua minguante

Uma das coisas mais esquisitas que eu ouvi a meu respeito é que eu sou lua minguante. É menos misterioso do que parece – eu nasci num dia de lua minguante, então teria características de lua minguante. É um pressuposto duvidosíssimo, eu sei, me atribuir características só porque a lua estaria de um jeito quando eu nasci. Mas aí ele me disse: “Você não é daquelas pessoas de lua cheia que chega num lugar e chama atenção, que faz amizades, que tem naturalmente toda sorte voltada para si”. E, poxa, não sou mesmo. Não sou uma pessoa de grande popularidade e brilho pessoal; eu já sabia que não era um sol, agora descobri que nem uma lua cheia eu sou. Tentei dar uma pesquisada sobre o assunto, o que eu sei das fases da lua é o que todo mundo sabe. Não achei nada das pessoas serem como luas. O que posso concluir, pelos cortes de cabelo e pela lua no céu, que ser lua minguante é ser introvertido e nada luminoso. Poxa, acho que sou mesmo.
A gente ouve um monte de coisas durante a vida, boas e ruins, e ignora tantas. Aí ouve que é lua minguante e se identifica, se dói. Eu sou tímida, canso de dizer que sou tímida, e tento achar que é tão século passado confundir timidez com arrogância. Mas parece que não é. Veja o que eu descobri: apenas agora, dez (!!!)  anos depois, a família do Luiz descobriu que eu sou uma pessoa legal, que tenho bom coração. Eles vieram me falar: “a gente tinha uma ideia tão diferente de você, totalmente o contrário do que você é”. Se eles me achavam o contrário de uma pessoa legal de coração bom, conclui-se que pensavam as piores coisas ao meu respeito. E as pessoas que disseram isso nunca haviam me dirigido a palavra. Nunca falaram comigo e me julgavam da pior forma. Tem aí, claro, o dedo de parentes de Curitiba falando mal de mim. Por mais que eles tenham falado, a fama pegou. A mesma fama que eu tinha, quem sabe, faculdade. Quase todo mundo da minha sala me detestava, nenhuma delas tinha ao menos se dado ao trabalho de falar comigo. Anos depois, uma ou outra me deram uma chance, ou porque fui simpática no corredor, ou porque caiu no meu blog sem querer. Aí descobrem, muito tempo e quilômetros percorridos, que eu sou uma pessoa legal, que não sou nada daqu… Que porcaria de imagem é essa que as pessoas tem de mim!?
De onde eu concluo que sou péssima de primeiras impressões. Falta de brilho é pouco, devo ser um buraco negro. Veja bem – as pessoas levam anos pra gostar de mim e eu não cultivo amigos de infância. Ou seja, estou ferrada, ainda por cima dou tiro no pé. Agora não sei se deveria procurar mais as pessoas ou se minha presença só piora as coisas. Aposto que vocês só gostam de mim porque entraram primeiro em contato com o que eu escrevo e não com quem eu sou. Isso se gostarem. Com licença que eu vou ali me matar e já volto.

Mulherão

Durante muito tempo eu achei que o que me impedia de ser um mulherão era a aparência. No dia que eu tivesse um corpão para exibir… Os anos passaram e a adolescência passou, e com ela muitos complexos injustificados. Mas o fim da adolescência não me tornou um mulherão. Fiquei mais magra e mais gorda, fui a mais nova e a mais velha, me vesti melhor e pior, já tive cabelão e cabelinho, fui solteira e hoje sou casada. E em nenhum momento, entre uma amizade masculina e outra, entre uma festa e outra, entre uma conversa e outra, fui um mulherão. Pensei também que tinha a ver com a altura, que todo mulherão precisa ter pelo menos mais de 1,70. Aí conheci uma bailarina que conseguia ser um mulherão com a mesma altura que eu, 1,65. Será que todo mulherão tem peitão? Porque todas as que eu conheci tinham, ela tinha, e a forma como lembro dela é de bota, collant decotado e capa curta fechada por um cinto, andando pelo festival de Joinville e fazendo com que todos os heteros presentes no local (muito menor do que a média em outros lugares, reconheço) quase se jogassem no meio do caminho para chamar sua atenção. Foi com ela que tive a certeza de que todo mulherão acha muito natural que os homens se interessem por elas. Ou seja, eu sempre fiz tudo errado – eu tratava mal todos aqueles que não tinham chance. Do mulherão loiro e siliconado que vi na rua, aprendi que ser mulherão é um investimento que é pago com cantadas. Mulherão escondido debaixo de roupas discretas não existe, porque mulherão é justamente pra atrair olhares. Ser mulherão é um modo de vida, de se relacionar com o sexo oposto, de que colocar como objeto de desejo. Por isso que eu nunca fui e nunca serei um mulherão. E digo isso sem dores, sem achar que tenho menos valor por causa disso. Mulherão é apenas mais uma das muitas formas de ser feminina.

Mulheres lindas que eu nunca serei

Quando a gente cresce um pouquinho, percebe que esse negócio de beleza é mais ou menos como doce: o fato do chocolate ser o preferido não tira a importância do doce de côco e do pudim de requeijão. Existem diversos tipos de beleza e pra cada uma delas um público alvo. O negócio é descobrir o que mais combina com você e ter confiança que ser assim também é bom.

Ainda assim, tem alguns tipos femininos que às vezes dá vontade de ser. Não de vez em quando, com uma roupa ou pra uma ocasião; tem mulheres que são belas de maneiras que não são as nossas. Só nos resta olhar e invejar. Descrevo aqui algumas mulheres lindas que não tem nada a ver comigo:

* Chiquérrima: não confundir com a Paty – a Paty é um arremedo da Chiquérrima, uma deslumbrada sem estilo. A chiquérrima anda elegante em saltos altos, cabelo impecável, maquiagem clean. Não usa terninhos – usa saia, meia-calça, roupas femininas com um toque clássico. Tudo acompanhado de um porte elegante, uma maneira discreta de ser e de falar.

* Natural: geralmente gosta do visual hippie. Cabelo ao natural, rosto sem maquiagem, bijox indígenas, tecidos naturais, sandália. Pode ser que cuide da saúde e que pratique esportes. É linda sem ter consciência ou se esforçar para isso. Idealista, urbana com gosto pelo rural, alternativa. O problema desse estilo é que ele só é fofo até os 20 e poucos anos.

* Mulherão: peitão, coxão, bundão, cabelão, bocão – tudo nela é superlativo. Melhor assim se acompanhado de decotão ou fendona mostrando a coxa. Alta, geralmente com o cabelo comprido e liso, nunca passa despercebida. Os homens quebram o pescoço pra olhar essa mulher passar. Não adianta querer virar uma – pra ser esse tipo de mulher tem que ter uma certa vocação genética…

* Sexy: não confundir com a Vulgar, aquela mulher que se enche de decotes na tentativa de chamar atenção. A sexy não precisa de decotes pra isso, embora geralmente os use. A Sexy é um jeito de olhar e de falar (ou sussurrar), de lembrar uma gata, de se mover de maneira macia. Mesmo parada, usando jeans e camiseta, ela é Sexy. Quem melhor do que Angelina Jolie pra representar esse tipo de mulher?

* Romântica: a roupa tem que ser aquela de mocinha, com tecidos esvoaçantes, babados, flores, cores claras. A única que pode colocar uma flor no cabelo sem parecer ridícula. O cabelo tem que ser comprido, de preferência com algumas ondinhas. Imitar a roupa é fácil, está na moda agora. O difícil é ser assim, falando doce, sorrindo angelicalmente, gesticulando de maneira delicada.

* Extrovertida: sempre penso numa amiga minha, a Fabiula. Popular, agitada, múltipla. Chega num lugar e fala com as pessoas, mesmo que as pessoas não falem com ela. Espontânea, fala o que pensa, chama atenção, deixa sua marca nos lugares. Claro que gosta de uma balada, de sair, de tirar fotos diferentes, de beber, de estar com os amigos. Muita gente tenta ser extrovertida, mas a verdadeira Extrovertida é um modo de vida.