Dúnia em serviço militar

{Decidi escrever este post depois de receber e-mails de cerca de 35% dos nossos leitores -ou seja, da Flávia}

Quando o adestrador me disse que até poucos anos atrás teve um vira-lata bem parecido com a Dúnia, percebi que foi amor à primeira vista. A Dúnia entrou no carro dele bem feliz e também estava muito feliz quando fomos visitá-la na segunda. Aliás, fico meio desgostosa em pensar que ele fica muito feliz no hotel, no adestrador… e talvez o lugar onde ela fique menos feliz seja aqui. Bem, deixa pra lá…

Ela estava reinando lá. O local é nos fundos de uma fábrica, e tem um amplo gramado onde ela fica solta. Há outros cachorros, com quem ela tem contato apenas visual – eles são grandes e ficam presos. Tem um canil de cachorro grande só para ela; vê-la segura de si deitada dentro do canil dela mostrou claramente o quanto ela estava à vontade naquele ambiente.

Foi engraçado. O adestrador ensinou muitas coisas úteis – a não pular assim que encontra alguém, a esperar sentada, a sair e entrar quando é chamada, a deixar de fazer qualquer coisa quando ouve não. Quando chegou a nossa vez de nos aproximarmos, a Dúnia não se jogou, não deu mordidinha, sentou e atendeu todos os meus nãos. Com o Luiz, ela fez a festa! Se jogou, mordeu, fez manha, não atendeu… enfim, foi desmoralizante. Engraçado pacas!

O Luiz não foi o único a ser desmoralizado. Quando ela estava no canil, o adestrador decidiu nos mostrar algo. Chamou; a Dúnia saiu do canil e quando chegou perto, virou pra outra direção e deu as costas. O adestrador ficou como um bobo, chamando de tudo quando é maneira enquanto o cachorro simplesmente sumia de vista. Ele disse – “é a primeira vez que ela faz isso desde que chegou aqui!”. Eu e o Luiz nos olhamos e dissemos – “Essa é a Dúnia que eu conheço!”

Quinta-feira ela está aí. Vamos comprar uma casinha pra ela e mudar o sistema de alarme. Estou morrendo de saudades da minha Dúdu. Agora, além de achar fofinho todo vira-lata que vejo pela frente, dei pra ficar namorando o pastor alemão do vizinho. O jeito que ele senta com as orelhas pra cima, como deita, como fica encolhido pra receber festinha do dono… é tudo muito Dúnia. Mas observo tudo de longe; ao contrário do que acontece comigo, ele não lembra de ninguém da família quando eu chego perto.

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Um ser especial

{Reproduzo aqui o texto fofinho que o Alessandro colocou no scrap dele. Essa é a foto do avatar. Entrem logo porque ele muda mais que eu!}

Das criaturas, entre o céu e a terra, foi dado a uma tornar-se especial. É o vira-lata.

Vira-lata é o nome científico dessa raça de cães que vive entre os homens com a liberdade que os bípedes almejam tanto e não têm, embora possuam um par de membros desocupados para fazer o que quiserem.

É o rei dos bichos de nome composto, com seu verbo, seu hífen e seu substantivo.

Um vira-lata sempre parece saber para onde vai, com seu passo decidido. E, se parado, aparenta a placidez de quem está no devido lugar, na hora certa. Os humanos, por mais que saibam para onde ir, sempre têm esse ar um tanto patético dos perdidos no mundo. Parados, mal sabem onde pôr as mãos. Por isso, os bolsos.

E eles, junto com os bolsos, inventaram uma designação meio estúpida para o vira-lata: srd ou sem-raça-definida. Os homens precisam definir tudo. Porque os cães de raça, cada homem escolhe de acordo com o apartamento ou casa – que tem – ou personalidade – que acha que tem.

E, assim, os cães de raça, com suas designações pomposas e pedigris, podem ser escolhidos por seus donos, criteriosamente. O vira-lata, por sua vez, prefere e sabe fazer escolhas ele mesmo. Sem árvore genealógica, atravessa a rua sozinho e consegue comida com sua humilde auto-suficiência.

Há, sem dúvida, mais nobreza em um vira-lata que em um galgo de corrida. As agruras da sarna, dos atropelamentos e das pedradas dão fibra à sua alma.

Repare naqueles que nunca tiveram um vira-lata. Parece que lhes falta algo. O sorriso, talvez, tenha menos de rabo abanando em seus componentes e mais de tédio e fleuma, ou coisa assim. O vira-lata ensina a ser feliz com pouco. Mesmo quem não tem nada pode ter um cão, desde que ele deixe. O bêbado e o louco conversam com um vira-lata de igual para igual. Ao menos esses conseguem se alçar à altura do cão. E este lhes lambe as mãos.

Veja a procissão de cães atrás de uma única cadela. Dinastias inteiras de vira-latas foram fecundadas e fundadas em madrugadas quando até o amor, esse item em extinção, era dividido.

Vira-latas há aos montes por aí. E não tem um que seja igual ao outro. Parecidos, às vezes. Em sua miscelânea genética, ele é antes de tudo um forte. Nunca precisou de vacina pra sobreviver.

Quando perguntam por aí: se você fosse um bicho qual seria?, todos respondem coisas como águia, leão ou tigre. Eu demorei pra descobrir, mas hoje eu respondo de boca-cheia.

Se eu fosse um bicho, eu seria um vira-lata. Desses amarelos.

{Por falar em Alessandro, não deixem de visitar o Cracatoa}