Mutilação

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Me disseram que todo grande autor – ou artista – é um mutilado. Neste sentido aqui:

Eu também já fui inteiro e, então, as coisas para mim pareciam naturais e confusas, estúpidas como o ar; acreditava ver tudo, quando na realidade só via a casca. Se você se reduzir à metade de si mesmo, eu lhe asseguro, meu rapaz, passará a compreender coisas que estão além da inteligência comum dos cérebros inteiros. Terá perdido metade de si e do mundo, mas a metade que restar será mil vezes mais profunda e mais preciosa. E então você desejará que tudo seja partido e despedaçado à sua imagem, porque a beleza e a sabedoria e a justiça só existem naquilo que é feito aos pedaços.

Italo Calvino/ Visconde partido ao meio

Ainda estou pensando.

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Mais Drexler, menos Richard

Artistas como Keith Richards são muito engraçados e ao mesmo tempo não são. Existem duas alternativas para trajetórias assim: ou não há qualquer mérito, ele é um sortudo que estava fazendo a coisa certa na hora certa, ou ele nasceu com uma luz e uma genialidade que o colocam acima da avaliação dos mortais comuns – ou seja, conforme-se que uns poucos não seguem nenhuma das regras de bom senso. Com isso, eles apenas não se estrepam como conseguem muito mais do que você.

 

Eu gosto muito de artistas como o Drexler. Um cara que tem um talento enorme e indiscutível, mas olhamos pra ele e vemos o trabalho duro. Ele escrevia, estudou violão clássico, foi gente comum e médico até os trinta. Drexler parece personificar tudo aquilo que lemos sobre o esforço e o bom caráter. Eu olho para o Drexler e vejo mérito, em níveis profundos. Mais do que isso: Drexler me faz acreditar num mundo melhor. No Mundo Drexler, as pessoas amam seu trabalho e o reconhecimento vem na medida do esforço. No Mundo Drexler, a fama, o talento e o dinheiro andam juntos com a pureza de propósito, com os bons sentimentos e a vontade de melhorar cada vez mais. Não estou dizendo que ele é perfeito como ser humano, claro que não, mas não é um porra louca mundialmente famoso sem mais nem porquê. Vejam as entrevistas e os documentários sobre Drexler, todos apontam pra mesma direção. O Mundo Drexler não é o meu, pelo menos não agora, infelizmente. Conheço mais gente que eu gostaria de ajudar do que posso, porque eu também não estou numa posição confortável. É como se esse outro mundo fosse uma rua que corre paralela; não apenas não consigo mudar de faixa como não conheço ninguém que o saiba. Mas eu quero muito esse mundo, quero luz, justiça e beleza. Ele me faz acreditar que em algum lugar o bom existe e saber disso não deixa de ser uma forma de alento.

Leitora

Depois de ler o fantástico Labirinto dos Caminhos que se Bifurcam, de Borges, primeiro eu tive que parar um pouco, atordoada de maravilhamento. Depois tive aquela vontade de mostrar pra todo mundo, enfiar o livro na mão dos que eu gosto e mandar ler. Mas antes disso, enquanto estava lendo, eu me deliciei com uma frase em particular e… São muitos maravilhamentos, mas eu quis uma frase porque eu estava lendo em público, perto de uma amiga, e achei que ler trechos inteiros seria tedioso, então a gente fica em busca de algo curtinho mas lindo o suficiente. Li para ela: “Pensei que um homem pode ser inimigo de outros homens, de outros momentos de outros homens, mas não de um país, não de vaga-lumes, palavras, jardins, cursos de água, poentes.” Quando entraram os vaga-lumes, a cara dela foi para “Hã!?” e me deu vontade de não ler mais nada. Ah, as pequenas solidões! Ela, uma artista, que seria capaz de cair no choro com uma dança ou uma música, não entendeu os vaga-lumes, não se sentiu transportada para o concreto, não captou a beleza do trecho, de sentir um país de modo cinestésico e não como um conceito. Enfim, não vou explicar.
Já li brincadeiras sobre os prêmios literários procurarem os livros mais complicados e ilegíveis, que se é complicadíssimo e ninguém entendeu, é porque só pode ser bom. Eu rio, e acho que de um lado procede. Mas de outro, há o lado de que todo mundo fica mais exigente quando degusta demais de uma mesma coisa. Um dia cheguei em Salvador e comi um acarajé qualquer, achando uma delícia estar comendo acarajé. Depois soube que meu irmão não tinha conseguido comer nem a metade, que acarajé horroroso. Apresenta alguém para um coral ou orquestra pela primeira vez e o sujeito vai achar tudo lindo. Mas vai ouvir aquela música várias vezes e em vários lugares diferentes para não começar a sacar que não é tudo igual, que tem melhores e piores, maneiras diferentes no mesmo trecho. Ler é como tudo, a gente vai percebendo mais e ficando exigente.
Mas as solidões são tão pequenas perto da companhia. Há dias em que chego em casa tão cansada – ou que eu não saio de casa e passo o tempo todo sem ter com quem conversar. Ou que me acontecem solidões banais, como esperar demais o ônibus, estar encasacada num dia que esquentou e com os pés apertados num calçado desconfortável. Ou a solidão por ter dito tchau quando se tinha vontade de pedir pra ficar. São dias que a gente precisa de um presente, um elogio, uma boa notícia. Pra mim, ter um bom livro à espera pode ser tudo isso. Para outros, os livros não significam nada. Eles estão do lado de uma piscina e não sabem nadar, têm fome e não gostam daquele prato. É uma pena.

Um salário para o Gabriel

Depois de uma linda patada por bulerías – que é o momento no flamenco que se faz uma roda e a pessoa entra pra dançar um pouquinho – fui cumprimentar o Gabriel. “Gostou mesmo?”. Céus, claro que eu gostei. Eu e todos os presentes. Fui animada, segura, tecnicamente difícil, um arraso. Uma das coisas que me agradam no mundo da dança é isso: a inutilidade dos certificados. No mundo lá fora, as pessoas saem correndo pra assistirem um monte de cursos, coisas que não as interessam ou que elas vão lá como quem corre uma maratona, numa correria que nada se aproveita. Tudo porque elas precisam do papel, e é a quantidade de papéis que vai dizer aos outros quem ela é. Na dança, mesmo que eu tenha todos os papéis do mundo, é na hora do palco, na movimentação do corpo, nos primeiros minutos de coreografia, que a pessoa diz quem é. E o Gabriel é. Sua paixão pelo flamenco é famosa, ele é o que vai atrás da história, dos passos, conhece os grandes nomes, respira e vive flamenco. Depois de muita economia, ele largou o emprego e viajou semanas pela Espanha pra viver tudo aquilo de perto, frequentar os bailes, estar pessoalmente na atmosfera flamenca. De lá, voltou ainda melhor.

 

Logo após meu elogio, e de confessar que ele costuma se achar uma porcaria, Gabriel disse que precisávamos sentar, tomar um vinho, que ele tem uns projetos aí. Só que ao contrário do que eu esperava, esses projetos não dizem respeito ao flamenco e sim a dar um tempo. Com o olhar mais triste do mundo, ele me disse que precisava ganhar dinheiro, que é muito difícil, que se profissionalizar é quase impossível. Ainda mais triste do que o olhar dele, foi eu ter dito que estou nesse mesmo movimento, que estou mandando curriculo, que a gente se envolve nessa paixão e não quer sair mais, e chega uma hora que se vê obrigado a crescer, e tentar se enquadrar. Naquele momento teria sido tão bom ter dito algo diferente! Mas a tristeza que havia no olhar dele é a mesma que tem frequentado o meu nas últimas semanas. Um certo sentimento de traição do destino, de amar tanto algo, de investir no coração e não ver saída, não ver retorno.

 

Li alguns livros sobre os muito muito ricos, como os amigos que Capote frequentava. Através deles eu descobri que os muito muito ricos pagam as despesas dos amigos. Eles viajam e levem o povo junto, pros hotéis, pros programas, pros drinks, as roupas, tudo. Quando lia isso, pensava que tipo de gente fútil era essa e que qualidade amigos um milionário teria, apenas um bando de puxa sacos que não querem perder sua fonte de renda. Talvez. Mas hoje vejo sabedoria nessa atitude. Pobre e burro é o ex-marido daquela minha amiga que a largou porque ela não podia contribuir tanto quanto ele nas despesas. Quem é rico sabe que pessoas são tão preciosas que elas valem o investimento, que o melhor quarto de hotel e as melhores festas não são nada sem as melhores companhias. Se de outra forma não podemos tê-las, então que se pague. Dinheiro é descartável, gente não.

 

Eu gostaria muito de ser dessas pessoas muito muito ricas e poder pagar meus amigos. Eu tenho me queixado e andado triste, e sei que muitos dos meus amigos gostariam de me acudir. Eu sei que eles sabem que eu sou competente, esforçada, confiável e que seria uma excelente qualquer-coisa que eles precisassem. Mas eles não têm como me ajudar, porque eles também estão na lida. Assim como muitas vezes sei que eles estão em dificuldades e não posso fazer nada além de torcer pra que tudo se resolva da melhor forma. Como disse o Alessandro, certas pessoas mereciam ser pagas para ser quem são. Eu gostaria de falar pro Gabriel – “Diz aí, Gab, quanto é que você ganha nesse teu emprego que eu cubro”. O Gabriel merecia receber pra flamenquear. Ele merece ser pago para pesquisar os palos, descobrir novos sapateados, treinar palmas. Mais: ele merecia ser pago para continuar sendo uma das pessoas mais carismáticas que eu conheci na vida, pra espalhar a risada dele pela escola, pra contar suas histórias deliciosas, cantarolar. Pra me recompensar, bastava ele dançar umas bulerías bem boas.

Algo a dizer

Quando eu trabalhava no atelier, uma vez apareceu um cara que tinha acabado de se formar em engenharia civil e belas artes. Por causa desse feito, somado ao fato de ser jovem, bonito e rico, ele se achava um gênio. Só que éramos todos alunos de um escultor que já tinha visto de tudo um pouco por ali, e ele mesmo era bastante experiente. Não sei se por temperamento ou pra não se envolver com a briga de egos, o professor nunca elogiava abertamente. Ele se limitava a corrigir e orientar. Procurávamos descobrir se o trabalho estava bom pelo brilho do olhar, pelo entusiasmo ou comentários feitos por terceiros. Tudo muito diferente da realidade que o recém-formado estava acostumado.

Com algumas semanas, o cara conhecia o trabalho de todos e todos conheciam o trabalho dele. Ele era um dos que gostavam de esculpir o corpo humano – uma das coisas que o nosso professor também gostava. Pra aprender a fazer rostos, ele pediu ajuda. O professor mostrou como colocar a argila, a inclinação do pescoço, as áreas do rosto, o segredo para fazer os olhos. O trabalho foi indo e virou um punk mostrando a língua. Isso gerou algum cuidado, porque é tecnicamente difícil tirar molde de uma cavidade como a da boca. Depois de tudo feito, o rapaz exibiu orgulhosamente seu trabalho e o professor se limitou a dizer que estava tudo correto. Foi aí que ele não resistiu e chamou o professor para uma conversa franca. E não ouviu o que esperava.

O professor disse a ele que a figura estava tecnicamente boa, mas não dizia nada. Um punk, língua pra fora, tudo muito caricato. Não havia uma opinião por detrás, um sentimento, uma mensagem, nada. Era um trabalho dispensável, que não faria diferença para ninguém. Ele sabia esculpir um rosto, mas e daí? Mais do que saber fazer um rosto ou um corpo humano bem feito, o artista deve ter algo para dizer, o trabalho deve ter uma intenção. Como exemplo, citou o Balzac de Rodin – o quanto a figura de Balzac já havia sido retratada, na polêmica que aquela escultura gerou. Não é uma escultura bonita e nem ao menos é detalhada, mas há uma história por detrás. Era a forma de Rodin enxergar Balzac. É praticamente apenas um rosto, mas o quanto aquele rosto, aquela pose, aquela capa nos transmite. O que aquele punk de língua pra fora dizia? Que seu autor não passava de um menino.

A ferida de ter ouvido que não tinha o que dizer não durou muito: pouco tempo depois ele arranjou um emprego como engenheiro e nunca mais tivemos notícias.

O público

No segundo grau, numa aula de interpretação de texto, tive que escrever sobre Nos bailes da vida. Frente à pergunta “Todo artista tem que ir aonde o povo está? Por quê?”, fui a única que disse: “Não, isso é uma opção pessoal do artista”. Nunca imaginei que colocaria em prática essa resposta e descobriria que Milton Nascimento estava certo desde o início.

Eu gostava de desenhar, mas não achava meu traço tão bom assim e a coisa não foi adiante. Já sonhei em ser jornalista porque adorava escrever, mas minhas histórias não resistiram à auto-crítica que crescia junto comigo e parei quando me tornei adolescente. Quis fazer teatro e minha mãe me impediu (cortou o dinheiro do ônibus) com medo da “promiscuidade do meio artístico”. Amava piano e toquei durante alguns anos, mas era um amor pouco correspondido. Minha mais séria tentativa foi a de virar escultora. Conscientemente, eu sabia que devia mostrar o meu trabalho. Mas tinha muita dificuldade em falar e mostrar, até mesmo para os amigos. Era quase como revelar um segredo. Eu pensava que o ideal seria como nos filmes, que o artista de verdade está preso ou num manicômio, e alguém se apresentasse mostrando o que eu fazia. Porque a parte de sentar na frente do barro, ter idéias, produzir, era deliciosa e muito fácil pra mim. Enquanto meus colegas de atelier levavam meses pra modelar uma peça, eu fazia em dois dias. Meu problema era, sempre foi, a parte de ir ao público. Expor qualquer coisa que eu fiz sempre fazia com que eu me sentisse nua, como se tivesse oferecendo meu próprio coração à pessoas indignas.

Quando eu comecei o ballet, frequentava uma escola para adultos que não tinha apresentação de fim de ano. Eles não queriam dor de cabeça. Durante muito tempo, isso pra mim era alívio, porque não queria passar vergonha de collant. Aí comecei a frequentar o curso de dança moderna e entendi o papel que o público tem. Fazer e ninguém ver é quase como se não fazer; a arte vai morrendo as poucos. A idéia de mostrar estimula, permite entender o próprio progresso, coloca sangue novo nas veias. Quando me exponho – aqui, num palco – sinto que me coloco contra toda uma vida, contra tendências do meu temperamento e todos os meus pudores. Por natureza, não gosto das pessoas. Aprendi a esperar o pior delas, as considero complicadas e maldosas. Mas apesar de nunca saber como serei interpretada, de não saber o que farão com meus gestos e palavras, eu preciso mostrar. Porque sei o que acontece quando se é talentoso só dentro de casa. Todo artista tem que ir aonde o povo está.

Hélio Leites II

(Começa aqui)

Nunca me esquecerei. Estavamos no sofá e em cadeiras, em umas cinco pessoas. Logo a frente, uma mesa e um caixilho de porta que mais parecia um teatro. Sem cerimônias, Hélio Leites abriu a bolsa cheia de miniaturas e começou a contar a história de cada uma delas. O sonho da casa própria, o discurso de Santo Antônio aos peixes, bailarinas, remédios, metáforas. Uma história puxava a outra e a cada caixinha ele acrescentava um verso, uma observação inteligente, um jogo de palavras, uma piada. Tudo articulado, tudo caprichado. Até o boné que ele estava usando tinha uns bonequinhos e ele nos mostrou que mantém o cabelo curto com uma enorme franja grisalha, que também serve como elemento cênico. No final dessa meio hora ou mais, eu estava com as bochechas doendo de tanto sorrir e rir. Saí de lá tão feliz, tão leve, como se tivesse recebido uma boa notícia.

Eu mudei muito entre nossos dois encontros. Gênio para alguns e louco para a maioria, Hélio Leites continua fazendo o de sempre: oferecendo seu trabalho e suas histórias a quem estiver passando. Pouco importa quem ouve e como ouve; você pode admirá-lo ou considerar o sujeito um palhaço (no pior sentido) qualquer, mas de qualquer forma sairá feliz. É preciso ser muito grande e muito artista pra se oferecer dessa maneira. Uma vez estava num casamento e uma amiga declarou o quanto era bom que nós, ali sentados, éramos medíocres, e que essa mediocridade nos permitia frequentar a sociedade. Havia todo um contexto, mas não consegui deixar de me sentir ofendida. Quis protestar, mas não achei argumentos que provassem que eu não sou mediocre. Alguém que te conhece, lê teu blog, sabe das tuas pretenções artísticas e te inclui na mediocridade, como um elogio – que dizer? Eu nunca tinha ouvido alguém defender daquele jeito a mediocridade; eu pensava que ninguém, em qualquer circunstância, poderia achar bom ser medíocre. Sempre vi a mediocridade como um acidente ou uma incapacidade. Vejo as pessoas buscarem a autenticidade, mas sem disposição de pagar o preço; querem uma coisa autorizada e convencional. Não sei se é possível ser autêntico desse jeito. E eu sou uma pessoa de hábitos muito convencionais.

Eu não sou o Museu Casa do Botão.
O Museu Casa do Botão é isto aqui.
É o menor museu da América Latina, só perdendo para o Museu das Pulgas de Bucareste.

Como todo museu que se preze, o nosso também está a um palmo do nosso nariz, colado em nossa pele e no qual pegamos (tocamos) em média 37 vezes por dia. Por estar tão próximos de nós, nada sabemos a seu respeito, muitas vezes nem quantos furinhos ele têm. Mas nos interessamos muito pelas coisas que estão longe de nós, assim como manchas solares que estão à 300 bilhões de quilometros da Terra; rabos de cometas e esquecemos o nosso. Discos voadores; vidas em outros planetas; nos preocupamos com todas essas coisas e esquecemos o que está perto de nós. Perto de nós está nossa família, que muitas vezes não conseguimos enxergar. A proposta da Museu do Botão é tentar acordar nas pessoas o real sentido da vida, esquecido pelas dificuldades enfrentadas na sobrevivência do dia a dia. Assim como o Botão junta partes da roupa, acreditamos que ele pode também juntar as pessoas e, por conseguinte, idéias. Todo mundo se abotoa igual, mas não pensa igual, por isso é que cada um tem o seu próprio botão.
Hélio Leites
retirado do livro Pequenas Grandezas: miniaturas de Hélio Leites p.56
Eu não sairia vestida de miniaturas, cabelo desgrenhado, trabalhando com sucata, contando histórias. Tampouco convivo com alguém parecido. Mas isso fala apenas quem eu sou e não quem ele é. Ele, Hélio Leites, button-maker-performer-graphic-designer-multidiaman, um homem que encontrou seu caminho. Eu não sou a medida de todas as coisas; ser o que eu não sou ou entendo não quer dizer que algo é ruim, indesejável, ridículo. É justamente isso o que o discurso da normalidade – e seu orgulho – diz. Acho de uma pobreza de espírito imensa. Se não tenho como me defender quando sou chamada de medíocre, que pelo menos eu tenha sensibilidade para valorizar quem não é.

Artista

Eu não sei como é ser diferente, uma certa pretensão artística sempre me acompanhou. Por motivos que não adianta lamentar, eu jamais tive oportunidade, quando criança, de fazer qualquer curso. Se você parar para pensar, nas grandes áreas artísticas a pessoa sempre deve ter começado na infância; imagine minha situação. Tenho paixão por piano e inveja declarada a todos aqueles que sabem tocar qualquer instrumento musical. Eu tentei tocar piano durante a faculdade, pagando com dinheiro de estágio. Mas estágios chegam ao fim… Eu era uma criança que desenhava bem; hoje dá pra dizer que eu sei copiar, que sei olhar como desenhista. E talvez seja esse olhar que tenha me tornado uma escultora rápida. Eu sentava na frente do barro e depois de umas três horas intensas de trabalho a escultura estava quase pronta. Aí eu deixava o trabalho descansar para vê-lo de outra forma no dia seguinte. Mais algumas horas e fim. Há poucos anos surgiu a dança. Passei por ballet, moderno, contemporâneo e agora estou no flamenco. Não sei medir meu grau de aptidão; sei que o prazer que sinto é tão grande que se mistura com quem eu sou.

Mas a vida… a vida é uma caixinha de surpresas. Apesar de todo meu esforço, minha paixão e possível talento, nenhuma dessas atividades deu frutos. Um dia fiquei definitivamente sem dinheiro e não pude mais pagar a escola de piano; até tinha um amigo disposto a me dar aulas de graça, mas eu não tinha onde estudar. Minhas esculturas foram para várias exposições, já encantaram muitas pessoas por fotos e pessoalmente, mas jamais consegui vendê-las. Parei de fazer por falta de espaço; o número delas tem diminuido somente porque comecei a presentear as pessoas. Não sei o que me aguarda na dança; só sei que sempre pagarei para dançar. Porque os custos – transporte, estadia, figurino, divulgação, etc- todo ficam a cargo do bailarino; os lugares apenas cedem o espaço. As pessoas se apresentam apenas pelo prazer de mostrar seu trabalho.

Em todas as minhas atividades, sempre quis dizer algo. Acho que o objetivo da arte é atingir as pessoas, transmitir algo, emocionar. No fim das contas, todas as formas de manifestação artística que escolhi foram quase escondidas – pouca gente soube, pouca gente viu. Minha única atividade que disse algo para alguém sai tão simples e natural que custei a dar valor: minha escrita. E a pessoa a quem atinjo é você, leitor.

Cordélia – Os primeiros
não somos a ficar sobre braseiros
com boas intenções. Rei oprimido,
por ti, somente, falta-me o sentido,
que eu, por mim, poderia, carrancuda,
enfrentar as carrancas da Fortuna.
Tais irmãs e tais filhas não veremos?

Lear – Não, não, não, não! Levai-nos para o cárcere.
Nós dois, sozinhos, cantaremos como
pásssaros na gaiola. No momento
de a benção me pedires, eu me ajoelho
e te imploro perdão.

Shakespeare/ Rei Lear, Ato V cena III

Outro barro

Sônia Braga, por exemplo. Essa não foi feita do mesmo barro que eu. Algumas mulheres têm uma sexualidade exuberante, que salta em todos os seus gestos, o sexo como uma verdadeira forma de expressão. Alguns vêem como putaria pura mas eu acho que vai além. Penso no curriculo amoroso da Sônia Braga (nacionais: Caetano, Chico, Djavan, Pelé, dentro outros. Internacionais: Clint Eastwood, Robert Redford, Warren Beatty, Mick Jagger, Pat Metheny, entre outros) e imagino que ela deve ser muito interessante e desencanada. Algo que alguém (eu) que não gosta nem que estranhos a olhem demais nunca alcançará.

Qualquer um com grande capacidade de vendas ou de ganhar dinheiro não se parece comigo. Nas novelas qualquer um que se proponha fica rico, mas se tudo fosse tão simples… Não apenas não consigo como até mesmo não gosto de convencer. Vender me deixa tão impaciente que ou eu daria o produto de graça ou mandaria o cliente à merda por ele não reconhecer o valor do que ofereço. Totalmente explicado porque minhas esculturas estão encalhadas – queria muito alguém com esse talento pra me empresariar! Ver o Roberto Justus (representante perfeito do tipo) migrando para a área artística me traz um certo consolo!

Por último, qualquer artista expressivo me faz desejar ser diferente. De Maria Bethânia a Maria Callas, Isadora Duncan a Ana Botafogo, Giotto a Caravaggio, Victor Brecheret a Camille Claudel… há neles coragem e rebeldia, um toque pessoal e universal. Que pitada a mais de alguma coisa esse pessoal têm? Penso que há neles uma necessidade de se expressar mais forte do que o pudor ou senso de ridículo. Quando a gente lê seus nomes com letras douradas, não tem noção do que o que eles fizeram foi desmerecido antes de ser louvado. Que eles se propunham a experimentar, a mostrar mesmo pra quem não pediu, algo meio:
A moça de amarelo é minha ex-professora de contemporâneo. Ela nem vai muito com a minha cara, mas eu a considero uma Artista. Dessas de um barro diferente do meu.

Do contra

* comprei o Guia do Mochileiro da Galáxia, no sebo, por 15 reais. Há anos ouço falar desse livro, que tem muitos fãs, dentre eles a Flor. Já passei da página 80 e continuo com a sensação de que joguei meu dinheiro fora…

* fui convidada para um café e quando vi estava numa festa de artistas. Pela primeira vez em muitos anos eu não me senti uma artista. Me senti uma tremenda burguesa, que não gosta de inovações artísticas e que não precisa vender o que faz por 100 reais só pra entrar uma grana.

* hoje me mostraram um creme novíssimo, que você passa na gordurinha e fica com a sensação de que pegou muito sol. Horas depois – PUF! – você está com menos 2 cm. Será que eu sou a única que não tem vontade de consumir esse tipo de produto?

Artista? UAU!

Os artistas carregam a fama de serem pessoas mais sensíveis e especiais do que as outras. Ouço isso de pessoas que não sabem que sou escultora. Quando sabem, elas me dizem isso com olhares deferentes, com parabenizações, com referências a esse assunto nos momentos mais inesperados. Às vezes ouço uns “você, que é uma artista…” que me dá o aval pra tudo. Certos gestos triviais meus começam a ser explicados por esse fato – só uma artista mesmo pra gostar da cor laranja ou pra gostar de Body Balance (?)…

Os escultores, na Idade Média, eram como pedreiros. Eles estavam lá, na hora em que tudo era construído, pra fazer uma escultura lá no canto, se desse na telha de quem coordenava. Elias, no livro (que eu não li) Mozart: a sociologia de um gênio, mostra que essa coisa de artista ser considerado especial nasceu junto com o ideal romântico. Acho que essa lenda de artista ter um dom divino permanece porque a maioria dos artistas não desmente. Quem não gosta de ser considerado especial?

Nas poucas vezes que tentei desmentir essa de que os artistas são especiais, fiquei com a cara no chão. Claro, só falei com pessoas que gostam muito de mim. É como o dia em que estava atendendo uma moça que achava que todos os universitários eram pessoas legais, bem resolvidas e que liam muito. Tentei desmentir, mas, por coincidência, minha pasta estava com uma pasta no chão – ela era transparente, tinha uns 3 livros da biblioteca pra devolver e um adesivo “I love Barcelona”. Claro que ela não acreditou em mim.

Esse é o tipo de crença que só se mantém quando você não conhece artistas. Dizem que os cantores e os pianistas são os piores, não sei dizer. Cada área advoga pra si o maior veneno entre artistas. Conheci artistas de tudo quanto é tipo: aposentados que procuram ocupação, gente que foi criada pra ser o gênio da família e não sabe fazer outra coisa, pessoas talentosas e esforçadas, pessoas esforçadas e nada talentosas, pessoas vaidosas que gostam mais das vernissages do que o trabalho em si e, principalmente nas artes plásticas, peruas que gostam de serem especiais.

Ou seja, ser artista, é como ser qualquer outra coisa: depende das circunstâncias e das oportunidades. Alguns fazem por amor, outros por vaidade, outros por tédio. Alguns têm mais talento do que outros. Alguns famosos tem talento, muitos talentosos não são famosos. Existe sim, gente especial e sensível; assim como tem gente especial e sensível trabalhando como funcionário público, vendedor, profissional liberal, dentista…

Ah, exposição!

Expor o trabalho é tudo para o artista; conta pontos no currículo, atrai possíveis compradores, dá visibilidade. Para mim, a grande vantagem está em atingir o público. E não estou falando de público em sentido abstrato – o meu público, as pessoas que eu conheço. Uma exposição é a oportunidade de fazer com que as pessoas saibam que eu sou escultora. Afinal, meu marketing pessoal sempre foi uma bosta.

A primeira reação quando digo que sou artista plástica é Oh!. Acho que por detrás deste Oh há muito de não saber o que dizer mesmo. Porque pouco tempo depois do Oh descubro que ninguém sabe ao certo o que eu faço. Para me agradar e mostrar que me valorizam como artista, as pessoas fazem coisas como apontar de mim um São Francisco feito de palha (como seu eu tivesse algo haver com esse tipo de trabalho) ou me perguntarem quanto custa uma fonte. Convidá-las para ver uma exposição é tentar me poupar desse tipo de coisa.

De cada exposição que faço, devo conseguir que meia dúzia realmente veja. Tenho 2 que realmente vão, e um deles é o meu ortodontista. As outras pessoas se dizem emocionadas, juram que vão e depois de tudo terminado se desculpam, dizem que perderam o prazo. Também tem aqueles improváveis, que você convida por tabela e esquece. Um dia ele passa ao lado ou é uma pessoa adora ver exposições e eu nem sabia. Quando reencontro, ele realmente foi. É uma surpresa, nunca dá pra adivinhar quem vai.