Artista? UAU!

Os artistas carregam a fama de serem pessoas mais sensíveis e especiais do que as outras. Ouço isso de pessoas que não sabem que sou escultora. Quando sabem, elas me dizem isso com olhares deferentes, com parabenizações, com referências a esse assunto nos momentos mais inesperados. Às vezes ouço uns “você, que é uma artista…” que me dá o aval pra tudo. Certos gestos triviais meus começam a ser explicados por esse fato – só uma artista mesmo pra gostar da cor laranja ou pra gostar de Body Balance (?)…

Os escultores, na Idade Média, eram como pedreiros. Eles estavam lá, na hora em que tudo era construído, pra fazer uma escultura lá no canto, se desse na telha de quem coordenava. Elias, no livro (que eu não li) Mozart: a sociologia de um gênio, mostra que essa coisa de artista ser considerado especial nasceu junto com o ideal romântico. Acho que essa lenda de artista ter um dom divino permanece porque a maioria dos artistas não desmente. Quem não gosta de ser considerado especial?

Nas poucas vezes que tentei desmentir essa de que os artistas são especiais, fiquei com a cara no chão. Claro, só falei com pessoas que gostam muito de mim. É como o dia em que estava atendendo uma moça que achava que todos os universitários eram pessoas legais, bem resolvidas e que liam muito. Tentei desmentir, mas, por coincidência, minha pasta estava com uma pasta no chão – ela era transparente, tinha uns 3 livros da biblioteca pra devolver e um adesivo “I love Barcelona”. Claro que ela não acreditou em mim.

Esse é o tipo de crença que só se mantém quando você não conhece artistas. Dizem que os cantores e os pianistas são os piores, não sei dizer. Cada área advoga pra si o maior veneno entre artistas. Conheci artistas de tudo quanto é tipo: aposentados que procuram ocupação, gente que foi criada pra ser o gênio da família e não sabe fazer outra coisa, pessoas talentosas e esforçadas, pessoas esforçadas e nada talentosas, pessoas vaidosas que gostam mais das vernissages do que o trabalho em si e, principalmente nas artes plásticas, peruas que gostam de serem especiais.

Ou seja, ser artista, é como ser qualquer outra coisa: depende das circunstâncias e das oportunidades. Alguns fazem por amor, outros por vaidade, outros por tédio. Alguns têm mais talento do que outros. Alguns famosos tem talento, muitos talentosos não são famosos. Existe sim, gente especial e sensível; assim como tem gente especial e sensível trabalhando como funcionário público, vendedor, profissional liberal, dentista…

2 comentários sobre “Artista? UAU!

  1. Ah, o dom artístico. Mas vai me dizer que qualquer um é capaz de realizar o que um artista realiza? Se assim fosse, eu aceitaria calado essa banalização. Mas não é! Ou senão, quem me dera ser um cantor. Destes que cantam com a maior naturalidade e encantam qualquer um… ah. Bem, concordo que exista a “divinização” do artista. À exceção, talvez, dos desconhecidos. Os que fazem da calçada seu palco. O “aval pra tudo” é um exagero, mas… convenhamos, artistas têm mesmo um “terceiro olhar” que as outras não têm.: )

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