Kamikase

Na primeira vez que fui ao Parque de Águas Claras, há mais de 5 anos, foi com os meus tios. Eles nos buscaram cedo, pra chegar cedo e pegar o melhor lugar para pescar. Fomos diretos para o lago e lá passamos horas emocionantes, naquela observação contínua de um cenário parado com águas turvas. Depois disso, passamos pelo clube e me senti enganada – pô, estava ao lado do paraíso na terra e eu olhando a água? Piscinas com correnteza, piscinas de crianças, piscinas de adultos, toboáguas. Fiquei disputando com as crianças os lugares na fila para os toboáguas de 8 metros. Naquela época, estavam terminando de construir os toboáguas de 15 metros – Free Fall, com alguns segundos de queda vertical, e o Kamikase, cheio de curvas.

Nessa longa 1 semana de espera até voltar ao Parque de Águas Claras, já tinha decido ir num desses toboáguas gigantescos. O Luiz disse que iria também – afinal, o que são 15 metros para quem já saltou de 1500 de paraquedas? Mesmo assim ele não foi. Eu já sabia que o Luiz não sabe nadar. Afinal, graças à (porcaria) infância superprotegida, ele também não sabe andar de bicicleta e tem os pés fofinhos*. Só hoje descobri que é mais do que não saber nadar: o Luiz é meio fóbico com água. Por isso ele não foi – diz ele. Da minha parte, aprendi a nadar com menos de 5 anos, pegava onda na adolescência e era o orgulho do papai** por nadar com um peixinho. Acho até que, se meus pais não tivessem se separado quando eu era tão nova, hoje eu teria algumas medalhas no armário e os ombros bem largos… mas isso não vem ao caso.

Mal cheguei no Parque e já subi as escadas para os toboáguas gigantescos. Aquele monte de lances de escada vazada e o clube cada vez menor fizeram com que eu recuasse. No meio do caminho, um pirralho ainda me disse – não desiste não, vem cá, é legal! Mas eu não voltei. Fui para a piscina e o Luiz compreendeu o meu gesto. Fiquei olhando os outros, os corajosos. Pensei, pensei… Falei para o Luiz – eu vou tentar de novo. Juntei a coragem e fui. Afinal, enquanto fêmea eu sou muito macho.

Tem que ter culhões mesmo. De cada 15 que saltam, só 1 é mulher. Subi com um monte de homens – eles vão em bandos, pra poderem acusar os que recuam de serem viados. Quando cheguei lá em cima, a coragem falhou de novo. Vi a Free Fall e decidi que naquilo não ia dar. Deixei passarem na minha frente. Um cara lá em cima me disse que eu tinha que fechar os olhos e ir; o cara que cuidava me disse “se pensar muito você não vai”. Sentei no Kamikase e fui!

Como é? É mais longo do que para quem está olhando. A posição que você adota lá em cima é a que você fica, porque quando começa não dá pra controlar mais nada. Eu fechei os olhos e só sentia minha respiração presa, meu corpo voando, a água por debaixo. Não tem como controlar ou segurar, então você fica tenso como se se segurasse em si mesmo. E na hora você pensa que, apesar de todos os outros saltos e todos os cálculos, o troço vai arrebentar com você lá em cima e você vai despencar piso abaixo, e nas manchetes no jornal… bem, até pensar nas manchetes o salto acabou. Tremendo como vara verde, com água no nariz e o biquini todo enfiado na bunda, eu sobrevivi. Cá estou.

Se tivesse uma camiseta “eu fui no Kamikase”, eu compraria.

* ter pés fofinhos de neném é um privilégio de pessoas que só andavam calçadas quando crianças.
** meu pai tem vários orgulhos, e todos eles meio esquisitos.

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