Mas tão bonitinho o silêncio

A intenção dela não foi nos dar uma vivência de racismo. O que aconteceu é que ela foi convidada para a festa de casamento mais chique da sua vida, no Castelo do Batel, o lugar mais chique possível para se ter uma festa em Curitiba. Com meses de antecedência ela nos consultou sobre a questão de ter um acompanhante, e numa das diversas brincadeiras, eu lhe sugeri que fosse com uma amiga e fizesse com ela um falso casal lésbico, ia ficar super moderna. Ela então me disse que, de castigo, caso ela não arranjasse um acompanhante para a data, eu teria que ir de lésbica com ela e ser a masculinizada – aproveitávamos o cabelo curto e já ia de terninho e pouca maquiagem. No fim, deu certo e eu não precisei ir. Nos dias seguintes, estávamos doidas pra saber da festa, vimos fotos lindas. Lembro bem também do nosso silêncio quando ela nos contou que, assim que estacionou o carro e saiu dele maquiada e produzida, os seguranças a mandaram estacionar nos fundos, porque era lá a entrada de funcionários. Dentro da festa, foi preciso darem uma carteirada nos garçons, porque eles serviam todo mundo menos ela. Talvez pior ainda tenha sido que nós achávamos que ela iria (ou tinha que) ir embora, indignada, e ela nos explicou que isso é normal, que se fosse se retirar a cada episódio racista não iria mais a lugar nenhum.

Também foi sem querer que eu e uma amiga iniciamos uma discussão política no berço de um lugar bolsonarista. Agora tem muito bolsominion arrependido, classe média que se vê como rica, que foi atingida por corte em saúde, concursos, alta do dólar, aumento do desemprego, enfraquecimento das exportações. Mas existem também aqueles que estão tão acima na piramide que não foram pegos por nada disso, ou que têm tanto que mesmo tudo isso come apenas a bordinha sem importância do seu patrimônio. E foi uma dessas pessoas que começou seus argumentos dizendo que não havia nada de novo, que esta crise é igual a todas as outras crises, que as loucuras ditas agora são iguais a todas as outras loucuras ditas antes, mas tudo isso é normal e nem merece registro porque foi o governo petista que criou um legado realmente imperdoável: “o PT criou a luta de classes, o nós contra eles”.

O racismo pra mim é muito abstrato, é uma coisa que acontece com outros, relatos que me surpreendem e me chocam. Quando o problema não é seu, quando você está no grupo privilegiado, é como se visse certos problemas desde a cobertura de um arranha-céu – você está tão alto que as pessoas na calçada são apenas cabecinhas, tudo parece pacífico e igual. O agora é diferente porque as pessoas reclamam. Indígenas, gays, mulheres, negros, pobres. O pessoal da cobertura não via e está sendo chamado a ver. E a reação de muitos é: que pena que o gay não é discreto como antes, que o negro não ria da piada racista como antes, que a mulher não seja passiva como antes. Agora a moça do café não quer mais trazer a filha pra aprender o serviço também, ela quer viajar e colocar os filhos em faculdade. Será que antes a empregada via que a patroa gasta numa noite mais do que lhe paga de salário num ano inteiro e achava OK, só passou a se indignar agora? E o problema está na indignação e não na disparidade? Ninguém nega as profundas desigualdades sociais do Brasil, desigualdades estas que nasceram com o país, mas acha que era tão mais bonitinho antes, um povo tão cordial, tão mais barata a mão de obra… Minha conclusão é que, se você sofre e tem do que reclamar, reclame mais, reclame mais alto, grite para todo mundo ouvir. Não permita que usem o teu silêncio como desculpa.

 

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