Perda de valores, vanguarda e flamenco

Não faz muito sentido pra mim, mas tenho amigo gay que dança flamenco e é daqueles que se enfurece com a “perda dos valores”. Ele é mais velho, não é dessa geração que se assume desde a adolescência, ouve músicas e tem ídolos gays, “dá pinta” por aí. E o flamenco, como todo mundo que faz flamenco sabe, já foi uma dança muito subversiva. Tem uma brincadeira que eu faço, quando surge uma dúvida de como um passo é feito: basta testar qual a maneira mais difícil que será aquela. Quase morri de tédio o dia que vi o ensaio de um grupo de dança tradicional, que pra cada dois passos para a direita, precisavam fazer dois para a esquerda, sempre precisava haver o mesmo número de pessoas a cada lado do palco e eles precisavam andar formando figuras geométricas. O flamenco é todo torto, faz as coisas em números ímpares, entra no meio dos tempos. Isso sem falar nas subversões ainda mais óbvias, como o fato da mulher puxar a saia pra cima na hora de dançar, a força e a sensualidade no palco, a presença. Pensem no que era isso há séculos, porque o flamenco existe pelo menos desde o século XVIII. Uma vanguarda que todos os bailaores sabem é que um ritmo chamado Farruca antes era dançado apenas por homens, e hoje as mulheres o dançam também, geralmente de calça e figurinos sóbrios para se manterem fiéis ao estilo. Se por um lado o flamenco foi uma vanguarda em relação à sua época e à outras danças, ele também teve sua vanguarda dentro da vanguarda, com a mulher ousando colocar uma calça, ousando expressar sentimentos que até então eram considerados exclusivos dos homens.

Mas o flamenco é uma arte, algo lindo, superior, meu amigo diria, nada a ver com os absurdos que tem por aí: gente pelada, peças onde se enfia a mão nos orifícios uns dos outros, desrespeito a figuras religiosas em exposições, que são vestidas de forma profana ou o profano vestido de religioso. A questão é que para as inovações surgirem é preciso ter liberdade. Outras metáforas me vêm à mente: um solo fértil, um respiro, a flexibilidade que permite que construções que recebem muito impacto não desabem. Não é possível, antes mesmo das coisas surgirem, julgar o que presta e o que não presta. É preciso aceitar o choque inicial, saber que é assim que funciona e, à primeira vista, pode ser até feio. O “fora dos padrões” pode ser visto como ameaça, assim como pode ser o experimental, diferente, novo, criativo – é através dos que fazem coisas que a princípio não nos parecem certas que a sociedade se renova. O chocante nem sempre está começando um novo caminho, ele pode estar informando algo que existe e em pouco tempo será comum. Como um dia foi com o flamenco, com a homossexualidade, com as mulheres usarem calças compridas. O que é idiota e sem sentido, o choque pelo choque, como peça de teatro onde um enfia o dedo no orifício do outro, não frutifica e o próprio tempo se encarrega de apagar.

No vídeo, uma Farruca de uma das escolas de flamenco mais tradicionais da Espanha, a Amor de Dios.

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