Outras musiquinhas

De tanto ler uma coisa aqui e outra ali, descobri que tinha interesse pelo Brasil da geração da década de 50 – não a geração que nasceu em 50, e sim a que produzia cultura naquela época. Bossa nova, Brasília, Darcy Ribeiro, Carmen Miranda, eu quis saber o que fez que o Brasil que um dia foi tão vanguarda acabar. E foi isso que me fez estudar a década seguinte… As pessoas não lamentam a saída das ciências sociais do currículo porque não podem lamentar o que desconhecem. Antropologia, todos deveriam ter o prazer de estudar antropologia. Ficamos mutilados de nascença, como país, sem estudar sociologia.

Eu gosto e acho muito importante a provocação que algo diferente nos causa. O seu próprio lugar, numa outra época, pode ser tão diferente. No Brasil da minha infância, ninguém achava que mulher semi-nua na TV estragava alguém – e vejo as pessoas ignorarem o fato na hora de clamar por um retorno moral. Mas também pode ser da mesma época em outro lugar: na série Rita, que se passa na Dinamarca, a professor precisou brigar com as alunas, que não queriam tomar banho depois de praticar esportes. O motivo era excesso de auto-crítica com seus corpos. Para convencê-las, teve ela mesma que tirar a roupa primeiro. Aqui por muito menos um artista foi chamado de pedófilo num museu. Mas quero falar de algo bom: no mesmo mundo e na mesma época, que nós, os portugueses fazem uma música muito gracinha, tão diferente da nossa. Eu ouvi esta pela primeira vez sem ver o clipe, e logo nos primeiros versos pensei que é exatamente o meu nervoso dentro de um engarrafamento.

 

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Pelados na TV

maniquíes-articulados

Não vou dizer a conta porque ela já está tendo problemas sem eu anunciar. Tenho uma amiga que está em Portugal e ela descobriu, fascinada, um programa de namoro onde a pessoa escolhe seu parceiro através de anteparos. O programa é em inglês, mas veja bem, ele passa na TV aberta portuguesa. Detrás dos anteparos as pessoas estão nuas e vão sendo mostradas debaixo para cima, cada vez mostrando mais um pouco, à medida que se escolhe. Talvez até por birra porque alguém a denuncia toda vez que ela posta, uma noite dessas ela postou o programa inteiro e eu vi. Apenas que é sensacional, fiquei com vontade de mandar todo mundo ver. A gente vivendo uma onda assustadora de moralismo e Portugal, que para nós lembra muito senhoras católicas de preto, com uma atitude muito mais saudável em relação à nudez. O programa é sensacional pela tranquilidade de tudo. Tranquilidade de olhar para diferentes formatos e ver que nada ali é estranho, cada um é de um jeito e tem sua beleza. Gostei da tatuagem, não gostei porque achei grande, gostei porque me inspira confiança – nada errado. Quando o candidato é eliminado, o anteparo levanta e a pessoa caminha nua até o palco. Caminha nua, cumprimenta, ela está nua mas nada ali é erótico. No fim, quando sobram duas pessoas, a pessoa que estava selecionando que aparece nua. Quando sobra apenas um casal, eles verificam se continuarão gostando um do outro vestidos, num encontro. Fiquei boba, achei lindo. O programa me faz perceber quanto nos gabamos de ser liberais e na verdade somos extremamente retrógrados. E que expor o corpo não é o mesmo que encará-lo com naturalidade, a nossa exposição é muito sexualizada e julgadora.

Agora o jogo virou, pá

Uma vez um português me perguntou até que ponto nós, brasileiros, estudávamos a história de Portugal. Acho que até D. Pedro II voltar, eu respondi. Aí ele pensou um pouco e disse:

-Que bom. Depois é só porcaria.

Bem, esse diálogo faz quase vinte anos e, de lá pra cá, Portugal tem merecido usar o meme “parece que agora o jogo virou, não é mesmo?” com a gente. Ou melhor, conosco.

Quando eu comecei a tentar ler autores sul-americanos foi que eu me toquei do quanto éramos um país orgulhoso que usa a diferença da língua como desculpa para se manter à parte da América Latina. Desculpa sim, porque temos muito mais dificuldade em entender inglês do que espanhol e consumimos muito mais tudo que vem da língua inglesa. De maneira semelhante, foi meu recém adquirido amor pela música portuguesa – sou fã do Miguel Araújo como nunca fui fã de nenhum outro cantor na minha vida – que me fez ver que viramos também demais as costas para os portugueses. Passei a ver entrevistas do Araújo e do Zambujo, vi o Tiago Nacarato cantando no The Voice e outros vídeos dele no youtube, Zambujo concorreu ao Grammy Latino com um álbum com canções de Chico Buarque; todos eles com gravações de músicas nossas e/ou participações de brasileiros, falam dos nossos compositores, têm a música brasileira como uma influência. Eu agora sei estes nomes, mas quantos de nós realmente sabemos alguma coisa sobre os portugueses? Eu mesma não sei, gosto de uns autores e uns músicos. Tenho a impressão de que é muito natural, em Portugal, estar a par do que acontece aqui. Depois de Dom Pedro II voltar, eu só sabia que eles mereceram uma música fofa do Chico: Sei que há léguas a nos separar/ Tanto mar, tanto mar/ Sei também quanto é difícil, pá/ Navegar, navegar.

Sim, claro, agora sabemos que eles estão bem. E graças a um governo de esquerda, o que torna um contra-senso brasileiros que foram lá para fugir da Dilma ou eleitor do candidato que promete exilar esquerdistas. Há os que dizem que eles nos devem, porque fomos a colônia mais rica e tal. Mesmo que a dívida exista, porque o laço sempre existirá, ainda assim a migração me soa como parente que sumiu vinte anos e volta porque agora está doente.

Doçura

Tenho sentido uma falta imensa de doçura, imensa. Apelo para doçura nas maiores doses que posso e sinto que ela adere em mim com um hidratante numa pele muito ressecada, que afina pouco e pede mais e mais. Um lado sente que precisa salvar o mundo do desmoronamento, outro que suas liberdades correm o risco de serem podadas antes mesmo de criarem raízes, e os dois se sentem perdedores. E se armam. Na minha busca por doçura, tenho ouvido muita música portuguesa, de quem sempre ouvi que desprezamos as raízes mas de quem herdamos o coração bom. Ouço a música deles e acredito.