Enquanto fomos amigos

 

Eu estava na rua, numa dessas minhas caminhadas que qualquer outra pessoa consideraria muito longa, e lembrei de você. Nem era sobre algo que vivemos juntos – lembrei de um causo que me contaram sobre você, e ri de ser algo tão tipicamente teu. Sempre adorei o teu senso de humor, acho que essa era a parte que mais nos unia. Lembrei e lamentei não ter mais acesso a ele. Você me diria que não, que esse afastamento não passa de mais uma das minhas bobagens e exageros; bastaria te desbloquear de tudo, me reaproximar, e você se deixaria entrar na minha vida com a mesma naturalidade de antes. Me deixaria te mandar os piores links, trabalhar ao teu lado cantarolando o que toca no rádio. Passearíamos, veríamos TV juntos. Mas esse, pensei, é o grande problema. A proximidade tão grande de um lado e a impossibilidade de outro. As coisas que despertamos um no outro. O meu afeto tão disponível, o teu recheado de promessas quebradas. Você reconhece que eu não entendo, porque sou “um alien”, o que te encanta e te convida a se aproveitar. Chamar de acidente e negar algo que foi premeditado é tão ofensivo. A capacidade imensa que você tem de me magoar. Doeu tanto. Os piores cafajestes são sempre os mais amigos, os mais legais e você é tão as duas coisas. As coisas que você fez por mim, a tua generosidade, o teu carinho. Há certas coisas que eu não sei como teria passado sem você. Amo o teu senso de humor, invejo quem pode desfrutar dele sem ambiguidades. Como disse na nossa última conversa, que sei que nem parecia a última: foi muito bom enquanto fomos amigos.
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Curtas sobre a vida, esta pândega

Você vê uma situação lá longe, bem longe, em outro ponto cardeal. Vira pra amiga que está ao lado e “olha só aquilo. Ma nunca que eu me meto numa dessas”. Adivinha onde você estará em alguns meses?

 

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Se conserta o mundo em três frases, não preciso olhar RG, avatar, perguntar se viu Michael Jackson preto nem nada: já sei que é jovem. Quero ver ser assim depois que passar da idade dos enta (quarenta, cinquenta…). Aí sim eu vejo mérito, nunca antes. Porque mesmo àqueles que mal saem do sofá, a vida ensina. E a didática da vida não é essa que nós temos hoje, que não pode nem relar a mão. A vida ensina com chinelada na cara, que é pra doer e humilhar ao mesmo tempo.

 

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Ele pode ter sentido a tua falta, muito. Pode ter olhado com tristeza para a tela que nunca mais terá uma mensagem tua, para a porta que nunca mais te dará passagem, para a risada… ou pode ter simplesmente dado de ombros, ter dito que foi mal, esquecido o assunto com a facilidade que se esquece a anotação de um post-it. Seja lá como foi, para ambos, um dia passa. Tudo que foge ao nosso olhar passa.

 

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Eu lhe falei que mantinha muitas das minhas neuras e fraquezas atrás de uma porta muito específica do meu inconsciente. E ele – jovem, claro – me falou com a presteza de um mágico que uma fraqueza reconhecida se torna força, e abandonou o assunto – jovem, claro – porque aquela máxima resolvia tudo. Veja bem. Algumas fraquezas podem, talvez, quem sabe, dependendo, se transformar em força. Mas o mundo continua aí, as portas fechadas pra esconder a bagunça e os resultados das nossas atitudes limitadas produzindo filhotes limitadinhos.

Sdds: Orkut

O orkut foi importante para mim, por mais que hoje o renegue tanto quanto as minhas fotos de mullets. Lá fiz grandes amigos, e muitos deles são meus amigos até hoje. Eu os vejo casados, tatuados, morando sozinhos e tenho a dimensão do quanto o tempo passou.  Eu lembro de como eles eram antes, na época que trocávamos scraps e diziam que o meu scrapbook era “uma praça de eventos”. Eu tinha casado há pouco tempo, tinha poucos amigos e me divertir com eles pelo orkut era importante pra mim. Lá eu vi namoros, amizades, casamentos nascerem e morrerem. Conheci muita gente por causa do orkut, e descobri que pessoalmente é sempre outra amizade, outra relação, que a internet é uma realidade paralela. Foi no orkut que assumi que gosto de brincar e não de falar sério, que ter senso de humor precede o “oi, de onde tc?”. Era ótimo ficar fuçando os perfis – de amigos, inimigos, desconhecidos – tentando adivinhar a personalidade pelas comunidades. Eu adorava descobrir comunidades engraçadas, como a “Malufistas que dão o cu”, que diziam que eram pessoas que sofriam duplo preconceito, por sua posição política e sexual ou a “Eu já chorei vendo filme pornô”, que tinha uma descrição tão engraçada que me fazia rir sempre que lia. Eu tinha minhas próprias comunidades, a “Invejosos” e a “Rancorosos”, sendo que essa última era um sucesso. Uma vez fizeram uma comunidade pedindo a minha volta, porque cometi orkuticídio (quem nunca?). Quando voltei (quem nunca?), transformei numa comunidade mutante. Por falar em mutante, uma comunidade mutante de amigos foi recriada recentemente no facebook, como página, mas é claro que não é a mesma coisa – nós não somos os mesmos. Alguns falam mal de quando os brasileiros pervertem a função inicial das coisas em redes sociais, mas eu sempre vi nisso uma criatividade, algo positivo. No início, as brincadeiras eram nas comunidades, depois o negócio virou mandar scrap. E o que dizer dos depoimentos secretos?  Era uma prova imensa mandar um, com a advertência *Apague*. Era entregar um segredo na mão de alguém, precisava ser muito íntimo para mandar testimonial secreto. Pra saber de quem se era íntimo, era só listar com quem se trocava esses depoimentos. Dos depoimentos, alias, é a parte que eu mais sinto falta. Nosso perfil era conhecido não apenas pelo que dizíamos, mas também pelas coisas bonitas que nossos amigos tinham a dizer a nosso respeito. Era de aquecer a alma. Saudades.

Sem você

Desculpe falar francamente, mas eu tenho autoridade o suficiente pra colocar a roupa na Dúnia sem ajuda. E muito mais autoridade com os poucos comandos e a pouca obediência que ela tem. Com alguma demora, eu consigo acordar cedo e colocar o lixo para fora. Demoro mais porque não tem quem me apresse, é verdade, mas nada do que colocar o despertador pra mais cedo não resolva. Eu vou à biblioteca, ao restaurante favorito, compro chocolates que me dão alergia, – quem vai me proibir? – compro e parcelo tudo no cartão. Em casa, passo pano com a certeza de que ninguém passará pelo chão até ele ficar totalmente sequinho. Penduro meias, calcinhas e o que quiser no banheiro, e sei que elas não vão molhar, não vão cair no chão, não serão uma visão feia. E, sabe, sou organizada o suficiente para tirar tudo de lá em pouco tempo. Tem vezes que nem ligo a TV, nem sei o que está passando. Ou vejo alguma coisa e desligo. A casa fica silenciosa e posso jogar Angry Birds com som. Assisto filmes com todos os controles na mão, na minha mão. E finalmente vi Up, que está gravado por aí num DVD sem identificação. Eu sempre escrevo nos CDs – você teima em não escrever e dá nisso. Mas tenho sentado do meu lado do sofá. E dormido mal.

Volte logo, porque isso daqui não tem a menor graça sem você.

Longe de casa há mais de uma semana

Che-gay.

Senti saudades absurdas. Pra vocês terem idéia, pensar meu blog esperava minha volta me fez bem. Passei todo esse tempo sem ver TV ou chegar perto de um computador. Me senti o próprio Dr. Jivago no meio da Revolução Russa, com necessidades elitistas que ninguém à minha volta compartilhava. As roupas na mala estão tão sujas que não dá nem vontade de lavar e sim de incinerar. Saudades de comer direito, da minha rotina, dos meus hábitos.

O que fiz nesse meio tempo? Fui pro Festival de Dança de Joinville e participei de um musical – Welcome on Boardway.

Estou morrendo de saudades, me liga vai…

Lembra dos tempos em que me ligava e rapidinho eu aparecia em sua casa para saciar aquela sua vontade? Ainda lembro dos dias em que me pegava fervendo com seus olhos de desejo e logo podia sentir seus lábios e dentes me mordendo toda.

Bom vou te dar mais uma chance. Ligue para qualquer uma das minhas casas: Champagnat é 3339-0003 e no Ecoville é 3373-3535. Escolha o endereço mais próximo e ligue já, estou morrendo de saudades. Tenho pressa em saborear aqueles momentos inesquecíveis.

Assinado: Pizzaria Originalle.

Esse papel apareceu na minha caixa de correio. Realmente, bastante original.