Gente-personagem

Talvez pela escrita ser tão importante na minha vida, eu realmente nos vejo como personagens literários. Cada um, inclusive, tem sua nota fundamental, aquela que permeia todas as suas ações e serve de título da obra. Uns têm vida recheada de casos amorosos, outros de reviravoltas financeiras, uns galgam um a um os degraus do sucesso, enquanto outros já nascem com tudo e abandonam para se tornarem Budas… isso para não falar dos proustianos, que precisam apenas do cheiro de bolinhos para sentir tudo com muita intensidade. Então não sei, realmente, como formular uma regra para a vida. Não sei se existe uma solução definitiva, por mais bacana que ela pareça, seja Deus ou carpe diem. O que eu intuo é que protagonistas – e todos somos, pelo menos para nós mesmos – não são para nascer, crescer, casar, ser feliz para sempre e morrer. É o que a gente tenta, não é? Talvez gente-personagem seja feita para quebrar, cair de cara no chão, experimentar pelo menos uma vez a solidão profunda. Avançar velozmente e se descobrir errado, fugir e dar de frente com o próprio destino, como Édipos. Quem sabe a maior tragédia não seja o sofrimento, e sim não saber qual deles abraçar.

(Esta versão, sem legenda, é mais legal)

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