Mais Drexler, menos Richard

Artistas como Keith Richards são muito engraçados e ao mesmo tempo não são. Existem duas alternativas para trajetórias assim: ou não há qualquer mérito, ele é um sortudo que estava fazendo a coisa certa na hora certa, ou ele nasceu com uma luz e uma genialidade que o colocam acima da avaliação dos mortais comuns – ou seja, conforme-se que uns poucos não seguem nenhuma das regras de bom senso. Com isso, eles apenas não se estrepam como conseguem muito mais do que você.

 

Eu gosto muito de artistas como o Drexler. Um cara que tem um talento enorme e indiscutível, mas olhamos pra ele e vemos o trabalho duro. Ele escrevia, estudou violão clássico, foi gente comum e médico até os trinta. Drexler parece personificar tudo aquilo que lemos sobre o esforço e o bom caráter. Eu olho para o Drexler e vejo mérito, em níveis profundos. Mais do que isso: Drexler me faz acreditar num mundo melhor. No Mundo Drexler, as pessoas amam seu trabalho e o reconhecimento vem na medida do esforço. No Mundo Drexler, a fama, o talento e o dinheiro andam juntos com a pureza de propósito, com os bons sentimentos e a vontade de melhorar cada vez mais. Não estou dizendo que ele é perfeito como ser humano, claro que não, mas não é um porra louca mundialmente famoso sem mais nem porquê. Vejam as entrevistas e os documentários sobre Drexler, todos apontam pra mesma direção. O Mundo Drexler não é o meu, pelo menos não agora, infelizmente. Conheço mais gente que eu gostaria de ajudar do que posso, porque eu também não estou numa posição confortável. É como se esse outro mundo fosse uma rua que corre paralela; não apenas não consigo mudar de faixa como não conheço ninguém que o saiba. Mas eu quero muito esse mundo, quero luz, justiça e beleza. Ele me faz acreditar que em algum lugar o bom existe e saber disso não deixa de ser uma forma de alento.
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Amor, amor, amor

Tem um episódio do Seinfield que ele dispensa um cara que queria ser próximo dele com o seguinte argumento: olha, eu já tenho três amigos, não tenho tempo pra mais, desculpe. Eu me identifico com isso porque não sou lá tão popular. Basta dizer que mais de uma vez eu me apresentei sem ter amigos na platéia. Mas é que, com os poucos que tenho, eu já me sinto bastante amada. Sim, me sinto amada. Tão amada que me pego com algumas exigências de pessoa que tem amor demais. Por exemplo: carona. Quero as de boa vontade. Sabe como é carona, tem dias que tem várias opções e tem dias que… bem, tem dias que a pessoa tem dinheiro, um carro enorme, vai passar por quatro lugares diferentes onde poderia te deixar mas não quer. Porque vai atrasar, porque vai desviar do caminho, porque, ai, precisa mesmo? Essa carona eu não quero. Pode me deixar andar na rua escura de noite mesmo, não ligo. Sério. Se é pra se sentir exploraaado porque teve que rodar duas quadras a mais, não quero. Outro mimo: gosto de reuniões alegres. Estou acostumada com grupos piadistas. Estou acostumada com gente que dá importância ao que eu falo, que ri das minhas brincadeiras, que não está muito interessado em curriculum vitae. Então, quando tenho que ir pra uma reunião que não é assim, prefiro nem ir. Se é pra voltar para casa com a expressão dura de quem não deu um sorriso espontâneo, minha casa é muito mais interessante. Às vezes a gente obtém mais carinho e amor de uma mocinha atrás do balcão do que da própria família. Amor é uma maneira de ser, um estado. Tem gente que é amorosa e gente que não é. Se é pra ser duro, controlado, filtrando palavras, prefiro ir em famílias alheias. Conheço pelo menos duas ótimas, e pra qualquer coisa que eles me convidem eu vou correndo. Por fim, como não falar de homens. Porque quando se reivindica amor, amor, amor, parece que estamos falando – quero um homem, um marido. Não é apenas isso, é um Também. O homem tem que fazer parte disso, dessa roda de amor. Tem que ter a boa vontade, o carinho e a espontaneidade do amigo, da carona, da família alheia. Não pode ser outro departamento, outras atitudes. Não tenho paciência para os truques, o fingir-que-não-quero-pra-ele-passar-a-me-querer. Não posso ter que segurar os gestos e as brincadeiras chulas, não posso ter que vestir outras roupas e criar outro mundo só para ele estar lá. O outro mundo, separado do meu, só pode ter menos amor. E o que eu quero é amor, amor, amor, mais amor.