Buraco

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“Ela só estava interessada no meu dinheiro“, e a palavra dinheiro foi dita com tanta dor que eu entendi: o ex-marido, aquele interesseiro, dos homens que buzinavam apenas porque ela estava num carrão, as mulheres que se avaliam através de sobrenomes e roupas. Fiquei com medo de eu mesma falar alguma coisa e soar dinheirista. Foi a primeira vez eu percebi o buraco numa outra pessoa. Só que não são buracos onde caímos, aqueles no chão – eles estão mais  para buracos negros, com o poder de sugar tudo à sua volta. O buraco não apenas atrai situações semelhantes, como também faz com que situações neutras ou que poderiam ser interpretadas de várias formas soem como mais do mesmo. A questão do dinheiro era atraída, batia, doía, confirmava. E nada poderia convencê-la do contrário.

TV no sertão

Hoje em dia essas reportagens não são comuns, mas eu já li várias que contavam, com grande alegria, da chegada da televisão em cidades onde as casas não tinham nem luz elétrica. Montava-se uma grande estrutura, vários metros de cabo, e colocavam a TV no meio da praça. As famílias iam todas pra lá, à noite, para assistir novela das oito. Essas reportagens não aparecem mais primeiro porque o sertão não é mais aquele, ainda bem. Segundo porque hoje já temos um tiquinho de noção de antropologia, e as pessoas já não acham mais que você está melhorando a vida das pessoas apenas em importar um item da sua sociedade e plantar no meio da delas. Eu ficava imaginando como seria uma sociedade bem tradicional, patriarcal, com acesso à tão pouca coisa, vendo os personagens das novelas. As casas, as roupas, o modo de falar, as relações – tudo acenaria para um mundo tão perto e tão longe, que eles nunca teriam acesso. Imagino os estragos que essas TVs não fizeram. Nesse sentido, eu até entendo (entender não quer dizer concordar, acatar, justificar, etc) o ódio que alguns grupos islâmicos têm da cultura ocidental. É distante demais, agressivo demais.

Não conheço ninguém que, na verdade, não seja mais do que um conjunto de equilíbrios instáveis. Alguns disfarçam melhor e outros pior. Mas mesmo os que disfarçam bem, os que parecem muito seguros, carregam na mochila um bom número de traumas de infância, incompreensões, pés na bunda, portas que não podem nunca ser abertas. Então, que ousadia e responsabilidade imensa é dizer pra alguém: “pode vir que eu te seguro”. Por isso que pra tudo hoje em dia a gente fala: “olha, acho que você devia procurar terapia”. É uma maneira de dizer: “eu vejo que tem uma coisa muito errada aí, mas não quero nem chegar perto com medo do que pode surgir”. Só gente muito louca faz psicologia, é de sair correndo. O buraco pode não ter fundo, ter mais buracos, pode ser que a pessoa nunca mais volte. Pode não ter monstro nenhum debaixo da cama, mas também pode ser que tenha… Acho que uma das características marcantes dos psicopatas (conheci mais de um, infelizmente) é justamente a coragem de dizer: “Pula!”. E que entusiasmo isso gera no outro, finalmente alguém que se compromete, que ama de verdade, que está disposto a ir até o fundo! Porque o normal é sentir medo, sair de fininho, mandar pro psicólogo. Pouca gente tem culhões pra mexer no buraco dos outros. O problema é que o psicopata fala “pula!” justamente porque nunca teve a intenção de mexer, ele sabe que não vai estar lá quando a pessoa pular de verdade. Ele mandou pular porque soava bem no momento, porque era útil. Quando a pessoa pular e se ver sozinha, ele já estará a quilômetros e o problema não será mais dele.

Cair

A sabedoria é uma prerrogativa da idade porque apenas viver, experimentar, nos mostra certas coisas. Inteligência, lógica e observação não são nada diante da experiência, nem que seja apenas uma pitada. Eu mesma sempre tive a convicção que para as dores os necessário é afundar, viver, curtir o luto profundamente. Há a história de uma bailarina, cujo nome agora me foge, que perdeu os filhos num acidente de carro e passou um mês trancada no apartamento, incomunicável. Meu luto ideal, digamos assim, sempre foi desse tipo. Imagino essa mulher chorando o dia inteiro, dias a fio, até se sentir apta a viver de novo. Eu não apenas achava que devia ser assim, como jurava que era assim que faria caso uma grande dor me assaltasse.

 

Aí todo esse processo começou. Nunca me esquecerei daquela quinta-feira, que acordei sozinha e sem mais nenhum compromisso até o fim do dia. A dor cresceu em mim de tal forma que só faltou se personificar. Não sei se o Mal existe, mas passo dizer o Medo é bem poderoso. Num determinado momento eu senti que não conseguiria, mas aí já era tarde. Ele cresceu e me esmagou. Eu só não tomei um antidepressivo porque eu sei que aquela porcaria demora quinze dias para fazer efeito. Quin-ze di-as. Isso, para quem está sofrendo, é mais demorado que a volta de Jesus. Naquele dia eu maldisse toda medicina ocidental, que não inventou algo capaz de nos tirar a dor moral em, no máximo, trinta minutos.

 

Agora eu sei que não devo nem começar. Não devo me deixar cair, porque o buraco é fundo e a volta é lenta. Não tem essa de curtir a dor, hoje sou a favor de ir vivendo, de fingir tanto que ela não está lá até o dia que não esteja.

 

Hoje, quando a porta do ônibus fechou na frente da minha cara, eu quase comecei a chorar. Ia chorar pelo ônibus perdido sim, mas também ia chorar pelas ilusões, pela perspectiva, pelo sonho, pelo casamento perdido. Ia chorar por não saber mais quem eu sou e o que fazer do meu futuro. Ia chorar porque estava morrendo de pena de mim mesma, porque me pareceu que a própria Vida estava fechando a porta na minha cara. Não devemos olhar para o buraco, ele é fundo demais. Devemos pegar o ônibus seguinte e seguir em frente.

E quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração

Você se conhece. Você fez terapia durante muitos anos, você ainda faz terapia. Você conhece suas neuroses, pra que lado elas caminham. Conhece sem a menor dúvida o seu padrão do eneagrama. Sabe o que dispara as suas inseguranças e o que elas fazem quando fogem pela rua. Conhece os seus buracos, sabe as coisas que ele lhe leva a falar e a sentir. Sabe que é necessário segurar a onda para se reequilibrar. Lida com essas coisas desde sempre. Mas diga: quando a neurose é disparada, o padrão retorna, os bichos internos fogem pela rua como gremlins molhados – todo esse conhecimento adianta alguma coisa? Adianta alguma coisa? Não adianta nada. Você fala e sente tudo como se fosse a primeira vez.

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Ouça o seu coração. Listen to your heart. Mas e o que fazer quando o teu coração te levou para um caminho totalmente anti-econômico e depois se queixa de ter uma existência dependente; quando o seu coração quer mudanças, mas fica apavorado em fazer as mudanças que ele mesmo exige; quando o seu coração quer e ao mesmo tempo não quer o que ele deveria querer, ou quem sabe queria tantas coisas que elas simplesmente não podem coexistir no mesmo tempo e espaço. Eu tento coração, mas você não facilita.

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Você é afastado das pessoas, pelas circunstâncias. Aí elas se afastam de você. Depois, você se afasta delas. E as conversas que antes eram diárias passam a ser apenas uma vista de longe, uma stalkeada, uma lembrança. Depois, nem isso. Você deixa de falar nelas, de saber delas, de querer vê-las. Elas passam a se reunir entre si e você percebe que também deixou de fazer parte do mundo delas. Com o tempo pára de doer, porque você deixa de se importar. Elas passaram a ser apenas um nome. Depois que acontece tudo isso, no estágio branco e limpo que vêm depois da mágoa, vocês se reencontram. Você nem queria mais revê-las e fica surpreso pois é ótimo. Aí você se lembra do porque ter doído tanto: eram pessoas realmente bacanas, cujo afeto te faz falta.

Ataque de buraco

Eu gostaria de explicar que sou uma convalescente. Dentro de mim o que deveria ser sólido é cheio de buracos, muito mais do que um queijo suíço. Tive aquelas doenças que a gente nunca cura, nunca se recupera, apenas vive com ela dentro do organismo. Eu ajo como pessoa forte mas é por causa da necessidade. Se me dessem a opção, se me perguntassem se quero fazer parte desse assustador mundo adulto, eu me negaria. O corpo cresce tal como erva daninha; a maturidade e a responsabilidade chegam, mesmo que a gente feche os olhos com bastante força. Uma história: eu tenho uma tia que perdeu um filho, num acidente de carro, quando ele tinha treze anos. O irmão mais velho, meu primo, me contou que o luto era uma coisa esquisita. O quarto do menino estava lá, intacto, e às vezes a mãe entrava e saía de lá sem problemas, para limpar, para pegar um objeto. Outras vezes, ela estava fazendo outra coisa, cozinhando que seja, e olhava pra uma colher e começava a chorar. Os buracos são assim, inesperados; eles só fazem sentido pra gente. Então eu que atravessei geleiras, impedi sozinha a invasão do visigodos e construí barragens com as minhas próprias mãos, de repente sou vencida por uma colher. Eu sei que quem vê não entende.

Quando um dos meus buracos me atinge – sim, eles atingem, eles atacam como um tigre faminto, quando menos se espera- eu me sinto mergulhada numa noite sem manhãs. É difícil ser normal e ensolarada quando dentro de você só há escuridão. Não dá pra pedir equilíbrio de quem subitamente tem que andar às apalpadelas. O pior é que dentro do buraco descubro outros buracos, buracos dos buracos, buracos dos buracos dos buracos, coisas tão antigas que remetem à Criação. Eu, que me achava tão feliz, descubro que tenho tantas lágrimas por debaixo. Se eu pudesse contar, se eu pudesse revelar o que carrego comigo… Mas eu sei que não adianta explicar o que é ser cúmplice de um golpe de estado ou o efeito de fazer rituais de invocação.  E mais: que eu nunca parei, que estou presa a uma dolorosa repetição onde pessoas se alternam como fantasmas e cumprem sempre o mesmo script. Eu não posso contar porque não existem palavras que possam contar sem empobrecer. O que eu sei é que sofro, que quero acertar e não faço mais a menor idéia de onde está o norte. Se me calo é porque é o máximo que posso fazer no momento.