Preto, preto, preto, preto

Sempre adorei lojas de tecidos. O que não é nenhuma profecia se levarmos em conta que eu também adoro papelarias, lojas de materiais para bijoux, supermercados que vendem em quantidade e qualquer loja que tenha muito de um produto específico. Finalmente estar aprendendo a costurar me dá uma satisfação muito grande, porque já fiz várias tentativas ao longo dos anos, já estraguei muitas roupas tentando reformá-las, já fiz muitas coisas à mão. Costurar de verdade, com máquina e técnica, agora me permite entrar numa loja, comprar um tecido e realmente transformá-lo em algo usável, não mais em experimento ou sucata.

 

Sei muito pouco ainda, mas o pouco que sei já me dá vontade de pirar. Existem tantas cores, estampas, padrões e texturas por aí. Combinações infinitas. De um simples molde dá para fazer milhares de roupas, basta mudar o tecido, o comprimento, tirar ou acrescentar um detalhe. Dá vontade de aderir ao protesto de Gandhi e fazer as próprias roupas… agora com o apoio da Singer.

 

Mas! Você observa desde a menina de treze anos que costura à senhorinha madura que só quer um hobbie, consulta da colega que faz triatlon à dona de casa, pensa na amiga mais fiel à completa estranha, e percebe que se quer fazer algo que realmente tenha saída, que seja garantido, há apenas uma escolha lógica: preto. Porque todas essas mulheres parecem não se dar conta da infinidade de cores, de corpos, de fases da vida e de idade de que são constituídas. Elas gostam, sim, cada uma, de coisas diferentes. Algumas gostam de flores, outras de agasalhos com capuz, de ir a festas ou corridas ao domingos. Mas na hora de se vestir, todas reduzem a questão a: eu quero preto. Preto emagrece. Preto é básico. Preto é chique. Todas quererão se vestir de preto, como se todo mundo estivesse a caminho do mesmo funeral.

Preto é prisão.

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Seguir seus sonhos, etc.

Às vezes o carinho e a boa vontade das pessoas nos colocam em roubadas. Foi o caso de eu ter que ler algo que de antemão eu sabia que não me agradaria: A viagem da sabedoria. Não contarei a história aqui, vai que algum leitor se interessa e fico aqui contando o livro. Tenho problemas com o gênero de autoajuda. Talvez por ter lido demais desses livros na adolescência. Tenho, com esse gênero, o mesmo problema que tenho com músicas gospel: não gosto que alguém me diga, com todas as letras, quem eu sou e o que devo fazer. Por mais sábias que sejam as colocações, não gosto. Digo que é o mesmo problema da música gospel porque nessas músicas há a necessidade de usar a palavra Deus e citar Jesus a todo instante. E eu não acho que você tem que dizer Deus para chegar a Deus. O sentimento de divino, de integração, de paz e de felicidade podem vir – até mais facilmente – com uma música que não diga isso com todas as letras, ou até que não diga nada. Se Deus é amor, cantar qualquer tipo de amor, o levará a Ele. Qualquer coisa que me dê paz será Divina. Mas não, supomos ouvidos limitados, e é preciso dizer as coisas com todas as letras, é preciso dizer Deus Deus Deus o tempo todo, como uma cartilha. Senão, não é religiosa, não é gospel.

 

A viagem da sabedoria é um livro escrito por um norte-americano, e quando ele fala em poder e liderança, tudo me parece bastante próprio da cultura deles. O livro me lembrou um filme que detestei de paixão, e trata do mesmo tema: Jerry Maguire. Em ambos, uma situação de crise, de estar totalmente por baixo. Em ambas, a pessoa se reergue e atinge um patamar de sucesso muito maior do que ela seria capaz antes, se tivesse seguido seu curso natural. Ou seja, ser criativo, pensar fora da caixa, usar as leis de sucesso, seguir seus sonhos, leva a pessoa à fama e sucesso ilimitados. E sabemos que não é assim. Eu acredito muito em seguir seus sonhos e tenho seguido os meus. Embora ainda seja muito jovem pra dizer onde isso vai dar, posso garantir que a equação não é tão simples. Mais do que alcançar o sucesso, ir atrás do que se quer muda os pontos de vista. Abrir mão de certas posições e oportunidades é para sempre. Correr atrás da sua vocação, caso ela implique trabalhar em áreas de pouco dinheiro, não vai fazer com que você ganhe muito dinheiro. Pode ser que correr atrás dos seus sonhos implique em perder status para sempre diante dos seus. Ou escolher jamais atingir padrões altos de consumo.

 

Se a pessoa seguir seus sonhos achando que vai ficar ainda mais rica, ela na verdade está fazendo uma aposta com o destino. Está dando o que tem com a expectativa de ganhar tudo de volta, acrescido de juros. Isso é pensar na mesma lógica do mercado, só que com outra embalagem. Os sonhadores que eu conheço, aqueles de verdade, revolucionaram de maneira mais profunda. Nenhum deles se tornou rico, o maior consultor, nenhum deles reúne multidões para ouvirem suas palavras. Nenhum deles se importa. Eles estão vivendo até com menos do que a média. Mas seguir os seus sonhos revela algo misteriosamente tão bom, que a opinião da média deixa de ser algo a se lutar.

Timing

Minha amiga Suzi que fala que realmente não entende nada. Se ela fosse empresária e propusessem um sapato feio, todo de espuma colorida com uns furinhos em cima, ela jamais aceitaria fazer. E taí, a crocs jogando na cara da sociedade que não é preciso que um calçado seja bonito desde que o usuário se sinta confortável. Ou talvez não seja nada disso. O sucesso da crocs eu até poderia prever, porque também sou adepta do conforto. Mas como explicar os sneakers? Quando eu vi a foto daquilo, num blog de moda, caí na risada e jurei que aquilo jamais se tornaria popular. Que vantagem teria usar um salto e tirar dele todo o charme de ser um salto, pra revesti-lo de tênis, tirando a maior vantagem do tênis que é o conforto? E os sneakers pegaram, em todo lugar que você vai tem mulheres se sentindo altas e elegantes com aquela… invenção. 
Sou craque em gostar sozinha de produtos. A padaria aqui perto de casa fazia um cookie delicioso. Ele tinha uma cara meio feia, mas as gotas de chocolate eram de chocolate mesmo. Passei uma semana comprando e depois sumiu. Quando falei com os funcionários, fui informada que eles pararam de fazer porque não vendia.
– Como não vendia? Sempre que eu vinha aqui eu levava uma bandeja!
– Então foi você quem comprou todos…
E o cup noodles de camarão? Foi só passar algum tempo sem comprar macarrão instantâneo que ele deixou de existir. Fiquei com a maior sensação de que a culpa foi minha, que por eu ter deixado de comprar as vendas caíram de maneira notável e eles cortaram toda a linha camarão. A parte de roupas dá até raiva, tenho o maior prejuízo. Vou na loja, acho a roupa linda e cismo que tenho que ter, compro imediatamente antes que acabe. Meses depois, adivinhe o que está em promoção, encalhado, ponto vermelho, 80% de desconto pelamordedeus comprem essa coisa? Não sei o que as pessoas têm contra a cor amarela, eu adoro… Nem a antipatia que as pessoas têm pela Claudia Leite eu compartilho. Meu timing é tal que é mais fácil concluir de uma vez: se eu gosto, vai encalhar. Se eu não gosto, vai com fé que será um sucesso.

Par

Digo pro Luiz que ele me lembra o Ross, do Friends, e ele se ofende. Diz que eu o estou chamando de bobão. Ele gosta mais de se ver como o Chandler. É, ele tem alguma coisa de Chandler, e sabe ser sarcástico e rápido como poucos. Mas eu o vejo muito mais como Ross, na maneira como ele é correto e doce. O Ross não é o meu (e acredito que o de quase ninguém) exemplo de homem perfeito; os homens que nos atraem na ficção são sempre os bad guys, os Dr House ferinos, instaveis e difíceis de compreender. Eu também não era lá muito disputada quando solteira. Sempre fui inteligente e culta, mas essas não são as qualidades (por mais que os homens adorem dizer que sim) mais importantes nas mulheres. Diria que me faltava um pouco mais de vestido, e entendam isso em todas as suas implicações. Um cara que lembra mais o Ross do que o Chandler e uma mulher com falta de vestido na personalidade um dia se encontraram e não se desgrudaram mais. Agora é fácil olhar e achar que somos partidões. Somos a versão amada e melhorada desse passado.

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Eu estava conversando com o Alexandre, do Atelier Heroína. Ele me falava da grande emoção que foi ficar perto da Maria Bethânia. Eu dizendo que entendia o que ele dizia; quando as pessoas me perguntam que show de uma estrela internacional eu gostaria de ver, digo que meu sonho é simplesmente ir num show da Bethânia. A ouço desde criança, mas um belo dia a redescobri e descobri a artista imensa que ela é. E assim era a conversa, de fã com fã, até que o Alexandre virou pro Luiz perguntou se ele era fã da Bethânia também. Aí ele disse que não muito. Na verdade, ele é totalmente indiferente à Bethânia. Assim como o é à Maria Callas, Omara Portuondo, e à maioria dos sons, cores e formas que fazem meu coração vibrar. Se tivessemos nos escolhido pelo critério de gostos, como numa agência de casamento, jamais estariamos juntos. Nisso descubro que o gosto é um detalhe, muito menos importante que os hábitos – esses sim, temos muito parecidos. E na essência de tudo, a maneira profunda de gostar, de expressar as coisas, a necessidade de se sentir amado e amar. Isso não dá pra colocar por escrito, e é o que na verdade todos buscamos.

Fim de caso

Pessoas próximas a mim nunca gostaram de música erudita. Não estou falando em achar culto, interessante e necessário, porque isso todo mundo acha; estou falando em sentir necessidade de ouvir, em fazer parte da sua história. Por isso, foi meio como quem fala de uma extravagância que o Luiz falou pra um dos seus amigos – um arquiteto solteirão – que eu gosto de ouvir Maria Callas. E tivemos uma dupla surpresa quando ele nos disse que já terminou um namoro por causa dela.

Ele estava sozinho em casa, não esperava ninguém. Estava à vontade e ouvindo Maria Callas. Sua namorada resolveu lhe fazer uma visita surpresa e quando ouviu o que estava tocando, se queixou daquela gritaria.
– Não é gritaria. É a Maria Callas.

Ela reafirmou que para os ouvidos dela aquilo era só gritaria, que ele deveria colocar algo melhor pra ouvir. O tom dele já era outro quando perguntou:
– E o que eu supostamente deveria estar ouvindo, minha querida?

Ele era tão bonita, ele nos disse. E aquela beleza toda se desmanchou no instante em que ela respondeu:
– Você não tem aí o último CD do Daniel?

Ariano Suassuna não gosta de café

Essa entrevista, que está em três partes do youtube, é engraçadíssima e eu vi no dia em que passou. Logo nos primeiros minutos, Ariano Suassuna declara que não gosta de café mas “tomava por pura falta de personalidade”. Eu mesma, depois que casei, descobri que a minha necessidade de café é bem pequena. Tão pequena que o único pó de café que entrou aqui em casa foi um solúvel, que eu ia usar pra uma receita e acabei jogando no lixo, anos depois, intacto.

Falo dessa parte porque – por falta de personalidade ou não – também levei muitos anos pra ter clareza de que não gosto de algumas coisas. Comi melancia durante muitos anos, e hoje não suporto nem o cheiro; nunca gostei de doce de abóbora, uma das poucas especialidades da minha mãe; até hoje não tive coragem de contar pra algumas pessoas que eu não gosto de bacalhau, porque sei que elas entrariam em pânico com a idéia de que “não há nada que se possa preparar pra você!” – reação exagerada diante do fato de que não como outros tipos de carne. Não gosto também da famosa maionese, assunto da qual já tratei aqui.

Maionese

Sabe quando as pessoas vão parar no hospital por intoxicação alimentar depois de uma festa? Então, eu não iria. Isso porque a culpa é sempre da maionese e eu não gosto de maionese. Quando tem maionese pra passar no cachorro quente, tudo bem, mas só aí. Na minha casa nunca tem maionese e eu não sinto a menor falta de maionese.

Mas eu não sei o que a maionese tem que não gostar de maionese às vezes se torna um problema. Primeiro, porque há sempre alguém pra levar uma maionese numa festa. E há sempre alguém na festa que repara no que os outros colocam no prato. Aí eu digo – eu não gosto de maionese. As pessoas não se conformam. Sabe aquele papo de que lésbica é uma mulher mal comida? Todo mundo pensa a mesma coisa de quem não gosta de maionese. “Ah, mas da minha você vai gostar!”. Aí a pessoa me explica que a dela é diferente, que é batida, tem iogurte natural ou que vai maçã. Veja bem, eu digo – eu não gosto de maionese.

Às vezes a pessoa é muito insistente e eu coloco um pouco de maionese no meu prato. É ruim, mas eu como. Depois eu não coloco mais, e sou obrigada a dizer – eu não gosto de maionese. Aí a pessoa fica aborrecida comigo! E eu lá tenho culpa?????

Observação: Este texto pode ser lido de outra maneira. É só substituir a palavra maionese por carne. Com a diferença que eu jamais coloco um pouco no prato.

Do que os homens gostam?

Nem preciso dizer que malucos são os homens. Com as mulheres, tudo é muito mais fácil de entender, mais constante. Um dos grandes mistérios para mim é entender o tal do gosto masculino. Homens e mulheres nunca concordam em quem é bonita ou sexy. Basta ver: as mulheres que as mulheres consideram lindas e com um corpão são rejeitadas pelos homens. Nós mulheres gostamos de menos gordura, sem dúvida. Reza a lenda que homem nenhum acha o corpo da Galisteu bonito.

Pra começar, a tal da preferência. O que um homem diz que prefere nunca quer dizer nada. Você ouve de um homem que o que ele gosta é de mulheres altas, loiras, cabelo liso e comprido e tipo mulherão. Aí quando aparece uma mulher dessas na frente, ele prefere a baixinha, morena, cabelo enroladinho e magricela. Ele explica o fato assim: “Eu prefiro mulheres do jeito que eu disse. Mas se aparece uma de outro jeito que é mais bonita, eu prefiro a mais bonita, entendeu?” Não, não entendi!

Também não sei adivinhar quem chama atenção dos homens num local cheio de gente. Tá, os adolescentes (de quem nunca gostei, nem quando era uma :P) olham pra decotadona, eles não contam. Os homens se sentem atraídos por coisas imprevisíveis, do tipo: um vestido florido, um jeito tímido, a maneira como sorri, como gesticula. Assim como também rejeitam coisas imprevisíveis: um pêlo mal colocado, a voz, tamanho da mão… Nunca é aquela que parecia ser a escolha óbvia!

Do que os homens gostam? De mulheres. Alguns…