Solista

Minha profe de flamenco acabou me fazendo dormir mal, cheia de questões existenciais. Uma aluna perguntou para ela que faríamos com aquela coreografia a mais que havíamos aprendido, e ela disse que é sempre bom saber mais um baile, quem sabe “alguém quisesse fazer um solo”. Fiquei surpresa – então é só pedir? Nos outros lugares onde eu dancei, em todos os outros – de flamenco ou de outras danças – o solo era algo muito desejado e que dependia de um certo favor do professor. O professor virava para o aluno e lhe oferecia o solo. Ele se sentia honrado e fazia o seu melhor. Às vezes a decisão do professor era questionável, fruto de pura preferência pessoal e nada a ver com o talento. Noutras, todos viam no escolhido um solista nato. Como a decisão nunca cabia ao aluno, era sempre uma eleição, quem queria ser solista podia apenas sonhar, torcer para ser notado e dar o seu melhor. Quem não ganhava solo ficava insatisfeito, sentia raiva, sentia inveja, sentia qualquer coisa; sua opinião não influenciava em nada. Então, nessas situações, dentro do meu coração, eu senti raiva, inveja e insatisfação por muitos solos que eu não ganhei. Podia não estar preparada para todos, mas para alguns eu achei que dava. Mas como a decisão jamais esteve nas minhas mãos, como eu não era a preferida de ninguém, eu aceitei a ideia de jamais solar.
Aí a outra coloca o solo como uma coisa muito mais acessível. Um solo não como uma eleição feita pelo professor, e sim por uma auto-confiança e uma vontade do aluno. O aluno dizer: “me coloca lá’, é novidade pra mim. Dele sentir que pode, ter o desejo de se impor esse desafio e coragem de ficar a sós com o público. E agora, Caminhante, queres ser solista? Não sou perfeita tecnicamente, me sinto insegura com as contagens, com os sapateados, mas a questão não é essa. Com um solo acessível percebo o quanto é fácil invejar e reclamar, o quanto é confortável que um só decida. A culpa é toda do outro, ele que é injusto e cego por não reconhecer o talento… Eu desejei ser escolhida, mas também é fácil o papel de quem é escolhido. Assumir-se como solista, dizer para si e para o mundo: eu quero, eu tenho confiança, eu sou. Um solista é. Um solista nato tem culhões. Ainda estou aqui, pensativa a respeito dos meus.
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