Um salário para o Gabriel

Depois de uma linda patada por bulerías – que é o momento no flamenco que se faz uma roda e a pessoa entra pra dançar um pouquinho – fui cumprimentar o Gabriel. “Gostou mesmo?”. Céus, claro que eu gostei. Eu e todos os presentes. Fui animada, segura, tecnicamente difícil, um arraso. Uma das coisas que me agradam no mundo da dança é isso: a inutilidade dos certificados. No mundo lá fora, as pessoas saem correndo pra assistirem um monte de cursos, coisas que não as interessam ou que elas vão lá como quem corre uma maratona, numa correria que nada se aproveita. Tudo porque elas precisam do papel, e é a quantidade de papéis que vai dizer aos outros quem ela é. Na dança, mesmo que eu tenha todos os papéis do mundo, é na hora do palco, na movimentação do corpo, nos primeiros minutos de coreografia, que a pessoa diz quem é. E o Gabriel é. Sua paixão pelo flamenco é famosa, ele é o que vai atrás da história, dos passos, conhece os grandes nomes, respira e vive flamenco. Depois de muita economia, ele largou o emprego e viajou semanas pela Espanha pra viver tudo aquilo de perto, frequentar os bailes, estar pessoalmente na atmosfera flamenca. De lá, voltou ainda melhor.

 

Logo após meu elogio, e de confessar que ele costuma se achar uma porcaria, Gabriel disse que precisávamos sentar, tomar um vinho, que ele tem uns projetos aí. Só que ao contrário do que eu esperava, esses projetos não dizem respeito ao flamenco e sim a dar um tempo. Com o olhar mais triste do mundo, ele me disse que precisava ganhar dinheiro, que é muito difícil, que se profissionalizar é quase impossível. Ainda mais triste do que o olhar dele, foi eu ter dito que estou nesse mesmo movimento, que estou mandando curriculo, que a gente se envolve nessa paixão e não quer sair mais, e chega uma hora que se vê obrigado a crescer, e tentar se enquadrar. Naquele momento teria sido tão bom ter dito algo diferente! Mas a tristeza que havia no olhar dele é a mesma que tem frequentado o meu nas últimas semanas. Um certo sentimento de traição do destino, de amar tanto algo, de investir no coração e não ver saída, não ver retorno.

 

Li alguns livros sobre os muito muito ricos, como os amigos que Capote frequentava. Através deles eu descobri que os muito muito ricos pagam as despesas dos amigos. Eles viajam e levem o povo junto, pros hotéis, pros programas, pros drinks, as roupas, tudo. Quando lia isso, pensava que tipo de gente fútil era essa e que qualidade amigos um milionário teria, apenas um bando de puxa sacos que não querem perder sua fonte de renda. Talvez. Mas hoje vejo sabedoria nessa atitude. Pobre e burro é o ex-marido daquela minha amiga que a largou porque ela não podia contribuir tanto quanto ele nas despesas. Quem é rico sabe que pessoas são tão preciosas que elas valem o investimento, que o melhor quarto de hotel e as melhores festas não são nada sem as melhores companhias. Se de outra forma não podemos tê-las, então que se pague. Dinheiro é descartável, gente não.

 

Eu gostaria muito de ser dessas pessoas muito muito ricas e poder pagar meus amigos. Eu tenho me queixado e andado triste, e sei que muitos dos meus amigos gostariam de me acudir. Eu sei que eles sabem que eu sou competente, esforçada, confiável e que seria uma excelente qualquer-coisa que eles precisassem. Mas eles não têm como me ajudar, porque eles também estão na lida. Assim como muitas vezes sei que eles estão em dificuldades e não posso fazer nada além de torcer pra que tudo se resolva da melhor forma. Como disse o Alessandro, certas pessoas mereciam ser pagas para ser quem são. Eu gostaria de falar pro Gabriel – “Diz aí, Gab, quanto é que você ganha nesse teu emprego que eu cubro”. O Gabriel merecia receber pra flamenquear. Ele merece ser pago para pesquisar os palos, descobrir novos sapateados, treinar palmas. Mais: ele merecia ser pago para continuar sendo uma das pessoas mais carismáticas que eu conheci na vida, pra espalhar a risada dele pela escola, pra contar suas histórias deliciosas, cantarolar. Pra me recompensar, bastava ele dançar umas bulerías bem boas.
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