Fêmea

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Do mesmo modo que quando somos jovens a gente olha pros velhos e acha que nunca será daquele jeito, que até lá a ciência vai estar evoluída, que não teremos que fazer escolhas como tomar ou não estrogêneo, que de certa forma aquelas pessoas se entregaram, que com a gente vai ser diferente, que o vigor da nossa alma impedirá o corpo de envelhecer; desse mesmo modo, eu fui uma menina que olhava para as mulheres mais frágeis e, antes de saber que existia algo chamado adolescência e seus hormônios, achava que de certa forma as mulheres se entregavam, se deixavam ser mais fracas do que os homens. A psicanálise me indignou logo no começo da faculdade, e me recusei a estudar como se fosse sério que um homem, por ter um órgão reprodutor externo, podia ser tão mais do que nós. Eu fui indignada e auto-determinada o quanto pude; quanto mais os anos passam, mais vejo o gênero determinando minhas escolhas, minha conduta, minhas inseguranças. Sim, eles têm o falo. Não acho que seja físico e inevitável, mas reconheço que essa construção é poderosa demais. Não tenho grandes provas teóricas pra oferecer, penso na auto-confiança inabalável de todos os homens que eu vi no teste prático do DETRAN, que quanto mais provocados pelos instrutores mais faziam direito pra mostrar pro fdp, enquanto as mulheres iam condenadas, se arrastando e desmoronavam à menor insinuação. Uma amiga minha define com “chega o cara velho, horroroso, caído, da mau hálito e vem te cantar na maior autoconfiança, num estado que se fosse uma mulher nem ao menos sairia de casa”. Me vejo assim, me percebo assim, precisando de aprovações, estudando o ambiente, pisando com cuidado, passos que homens não hesitariam em dar. Já ouvi que escrevendo como eu, Fulano faria um estrago. Faria mesmo, Fulano e qualquer outro Fulano, desde que homem, desde que com seu falo mágico. Falos que amam outros falos, porque sabem ser tão auto-confiantes e viris, fazer o que se mulheres coincidentemente são menos talentosas? Falo que lhes permite centrar nos seus desejos em busca do próprio prazer, enquanto as criaturas sem falo se perdem ao analisar tudo o que as cercam antes de pisar no chão. Aí tem que fazer, como fazia uma amiga quando trabalhava num meio masculino: visual impecável, tudo no lugar, tarefa de casa estudada, estatísticas, meia calça extra na bolsa. Não por vaidade, e sim para não ter com que se preocupar, para a partir daí ter voz. Fêmeas, fêmeas. É como se a nossa linha de largada estivesse metros atrás.

Epifania

Estava eu no carro, debaixo do sol, durante uma hora naquela manhã quente de terça-feira esperando que o meu examinador me levasse para fazer a baliza. Era o meu segundo teste. No primeiro, fui muito bem na baliza. Pode parecer incrível, mas eu gosto de fazer baliza. Durante as aulas práticas, tinha vontade de ficar fazendo baliza durante uma hora. Parece um joguinho. Chato mesmo era o resto, quando eu tirava o carro da garagem e tinha que enfrentar o trânsito. Não gosto de dirigir e isso não deve ter ajudado em nada no processo. Voltando: estava lá observando as pessoas fazerem baliza, eu e as outras duas pessoas que também estavam tostando entediadas dentro dos carros. Numa média, oito em cada dez candidatos não passam na baliza. A gente vai assistindo e se angustia. Teve uma deixou pouco espaço e errou na saída. Teve outra que fez tudo direitinho e quando deu ré pra voltar pra linha vermelha, ou seja, nos finalmentes, deu uma ré tão torta que ela quase estacionou o carro de novo. Muita gente ficou indo e voltando em busca da posição perfeita e o tempo estourou.

 

Tentei não me deixar abalar, mas aquilo me afetou. Na minha curta experiência, já vi que dá pra ver se a pessoa vai passar no teste só dela se aproximar do carro, já na partida. Gente que chega com a intimidade de quem já dirige há anos sem carteira e só foi lá oficializar. Digo mais: homens. Eles chegam chegando. Um deles chegou tão seguro e estacionou com uma facilidade que o examinador disse (juro por deus!):

– O pneu de trás não ficou muito bem alinhado com o da frente, tire da vaga e faça de novo.

Tudo sem dar mais tempo pro rapaz, claro. Pense, amiga leitora, se isso acontece com você. Aquilo me abalaria na hora, eu não ia conseguir mais. O rapaz tirou o carro, colocou, tirou de novo e passou no teste. Ele não se deixou levar. Lembrei do meu primeiro teste, onde arrasei na baliza. Na saída do DETRAN não quis colocar o carro muito no meio da rua e saí com pouca visibilidade. O meu examinador, um cara grandão com cara de mau, me passou o maior pito, com direito a “como é que você me explica você ter feito uma coisa dessas” e tudo. Eu já estava nervosa e aquilo acabou comigo, meu teste acabou ali, depois só fiz besteira. Todo mundo me dizendo que é máfia, que o interesse deles é reprovar o máximo possível e eu não acreditava. Vou falar: interesse em deixar a gente à vontade eles não têm não. No segundo teste, depois de uma hora no sol, vendo todos aqueles absurdos, saí com o carro e mesmo longe demais do protótipo eu manobrei, porque tive medo de ajeitar e estourar o tempo. Vai que eu teria que tirar e colocar de novo, por “rodas desalinhadas”. Resultado: cuidei tanto das rodas alinhadas que bati atrás, um erro totalmente estúpido. E dale mais duzentos e cinquenta contos.

 

Foi aí que eu tive minha epifania: Freud é quem tem razão. Homem é outra coisa, homem é outra história. Homem não se abala igual a gente. Pode deixar uma hora no sol, dar pito, mandar repetir baliza, não importa. Eles decidem ignorar e ignoram, simples assim. A opinião de mundo e os testes dos outros não importam, porque eles são mais eles. Tudo o que eles precisam, o que realmente importa, já está grudado no meio das pernas deles.

Que ódio.

Segurança

Falei recentemente pra um amigo que eu era uma pessoa insegura, que na hora me disse que não, que eu não era uma pessoa insegura. A espontaneidade da resposta me deixou feliz, tanto que nem quis perguntar de onde ele tirava tão equivocada impressão… Fiquei pensando nas muitas coisas que podem nos passar a ideia de que alguém é inseguro ou seguro: a maneira de olhar e se dirigir às pessoas, a maneira de falar, o tom de voz, o modo como se veste, etc. e concluí que talvez eu tenha aprendido a dominar essas técnicas o suficiente pra não deixar tão claras as minhas inseguranças. Crescer, amadurecer, fazer terapia, corrigir a própria postura têm que servir para alguma coisa. Tem vezes que eu disfarço tão bem, fico tanto tempo nessa ilha de segurança, que até eu mesma começo a achar que sou segura pacas. 
Mas aí me vejo aqui às voltas com meu novo projeto, que em poucas palavras pode ser resumido à ideia de sair do meu exílio auto-imposto. As inúmeras portas fechadas e a impressionante falta de sorte que tenho no meu setor profissional acabaram me convencendo de que não adiantava lutar. Eu me convenci que a vida produtiva não era pra mim, que por algum motivo eu jamais ganharia o meu dinheiro e que ser esposa era tudo o que minhas capacidades me trariam. De certa forma, eu ainda penso isso. Penso e estou aqui tentando não mais pensar. Sabe o que é tentar de novo? Sabe o que é fazer o que você já fez várias vezes, anos a fio e nunca deu certo? Olhar de novo para currículos e procurar pessoas me afeta de um jeito que só de escrever isso me dá vontade de chorar. É como tomar várias doses de injeções oleosas, sempre no mesmo lugar. Eu farei unicamente porque não é mais possível adiar; cheguei num ponto que avançar dói, mas não avançar dói mais ainda.
Tendo isso em mente, a segurança agora não me parece mais uma questão de ser ou não ser. É como se fosse uma questão de atenção, de onde você coloca o holofote da sua consciência. Ou seja: sou capaz de viajar sozinha, me hospedar na casa de pessoas que mal conheço e depois ir pra uma festa. Sou capaz de subir num palco, de participar de campeonato e de vestir biquíni. Sou capaz de muitas coisas que, como pessoa muito tímida, eu não deveria ser capaz de fazer. Porque treinei, já fiz e de uma maneira ou outra deu certo. Mas basta colocar o foco na minha vida profissional – onde a minha história não é tão boa – que tudo cai por terra. É mostrar a sujeira debaixo do tapete, exibir para as visitas o cômodo da bagunça. Nesse setor da consciência, a criança tímida nunca cresceu.

Segurança

Existe um tipo especial de pessoas, mais comum em alguns meios do que em outros: aqueles que confiam tanto em si que nada os abala. Às vezes a pessoa se mantém firme diante de tantas críticas, que a gente começa a se perguntar se a pessoa não é maluca mesmo. Esse tipo de pessoal é aquele que se dá bem em entrevistas de emprego, audições, testes, bancas, realitys shows e qualquer outro lugar de pressão, pressão, pressão. Quando todos estão murchando, duvidando da sua trajetória e esquecendo o nome da própria mãe, eles estão confiantes. Quando ouvem um não, continuam a confiar em si e acham que o outro é que não os avaliou direito.

Vocês podem dizer que ser assim sem-noção faz a pessoa deixar de ter auto-crítica, que fracassos são positivos e que a insegurança empurra a gente para frente. Bobagem. Isso é inveja de quem não é assim. E digo isso de cadeira, porque também não sou assim. Cansei de ver gente com muito menos mérito do que eu ir pra frente, simplesmente porque eles não ficam se questionando a cada ponto do caminho. Porque mesmo sem base eles falam com segurança, enquanto eu sempre acredito na possibilidade do outro ser melhor do que eu. A segurança dessas pessoas não é como a minha, fabricada pela união de pequenas vitórias diárias. Gente segura assim vem de berço. Olho para eles e lamento que não tenham colocado na minha mamadeira seja-lá-o-quê que essas pessoas tomaram.