Uma história de fracos e oprimidos

Essa Menina foi a minha principal inspiração quando escrevi sobre as crianças que fazem ballet sem vontade. A mãe dela se queixa de que a filha é maltratada pelas outras alunas. De fato, as meninas gostam de se reunir, de fazer tudo juntas, e a Menina é excluída sempre. Não sei dizer como e nem porquê começou, nem se é coincidência o fato dela pertencer a outra raça, outro nível econômico e ser mais nova. Embora meio infantil e agitada demais pro meu gosto, eu não vi mal nenhum em ser uma das poucas pessoas que conversavam com ela.

Em agosto começaram os ensaios. Essa fase é muito delicada: os professores têm alguns preferidos em mente, que ganham rapidamente bons papéis. O fato de eu ter sido uma das últimas a ganhar um papel mostra que eu não sou uma delas… Alunos comuns precisam mostrar desenvoltura pra ganhar os vários papéis secundários que vão surgindo ao longo dos ensaios. Na única cena que eu ganhei no início da montagem, eu saio das laterais batendo os pés e palmas, e no meio do palco encontro com um bailarino. Depois de mais uns sons, damos as costas um para o outro e viramos uma cambalhota.

Só que eu não conseguia dar essa cambalhota. Quando criança, minha mãe não me deixava fazer cambalhota porque dizia que quebra o pescoço. Há poucos anos, aprendi a fazer o rolamento do Krav-magá, que é como uma cambalhota em cima do ombro, e era essa que eu fazia no ensaio. Todos notavam que eu caía meio de lado e cada ensaio isso me deixava mais preocupada e ansiosa. Depois de muitos ensaios rolando errado, a professora me colocou contra a parede e me mandou aprender a virar uma cambalhota igual a dos outros. Afinal, eu era a única bailarina que não conseguia.

Imagine o drama tragicômico que é uma mulher adulta perder o sono por não saber virar cambalhota. Estava com medo de perder meu único papel por algo ridículo. Me enfezei, ensaiei uma noite inteira em casa… fiquei com os ombros moídos nos dois dias seguintes. Quando chegou o dia do ensaio, aconteceu algo terrível: eu havia desaprendido o rolamento do Krav-magá e não tinha aprendido a dar cambalhota. Foi um pesadelo. Nunca a distância entre minha cabeça e meus pés pareceu tão intransponível.

Nessas semanas tensas em que eu ainda não conseguia dar cambalhotas, a Menina mudou de comportamento comigo. Ela falava “Olha como é fácil” e dava várias cambalhotas na minha frente. Todo ensaio ela pedia para repetirem a coreografia das cambalhotas; quando coreografavam algo novo, ela ficava sugerindo para colocarem mais e mais cambalhotas para mim. A cada humilhante tentativa de dar uma cambalhota, lá estava ela, me olhando. Olhando e sorrindo. Um sorriso largo, feliz, um belo sorriso de criança – aquele mesmo, que costuma simbolizar a própria pureza.

Fala na cara

Eu me achava direta e fã de pessoas diretas. Achava que com aquelas muito diplomáticas, a gente nunca sabe direito onde está pisando. Que diplomacia era apenas um eufemismo para falsidade. Aquela pessoa que dissesse que é do tipo que fala na cara conquistava a minha confiança automaticamente. Hoje sou a favor do WD-40, do KY, do Bob Esponja e tudo que torna a vida mais fácil. O falar na cara me soa mais como um prazer sádico. Pra exemplificar o que quero dizer, senta que lá vem a história:

Estudei em colégio estadual da 8º série ao 3º ano. No mesmo ano em que entrei, entrou a Ana. Acho que estudamos 4 anos juntas, conversamos algumas vezes, mas não chegamos a ser amigonas. Mesmo porque, ser muito amiga da Ana teria sido perigoso pra mim. Ela tinha vindo de algum lugar, algum interior. Um dia ela virou comentário por estar com a perna peluda; noutro, porque falou sobre sexo de maneira séria. Era como se ela tivesse vindo de outro planeta; ela era diferente e na adolescência ser diferente é sempre ruim.

No extremo oposto estava a Elaine. Acho que a minha amizade com a Elaine surgiu do simples fato de termos que formar fila por ordem alfabética. Ela tinha o cabelo colorido, batom colorido e era extrovertida. Eu admirava sua espontaneidade. Graças à popularidade da Elaine, eu fiquei sabendo que os meninos do colégio fizeram uma votação secreta pra escolher a Menina Mais Bonita – de cada turma, de cada ano e do colégio inteiro. Como uma coisa leva à outra, pouco tempo depois surgiu outra votação, desta vez da Menina Mais Feia.
Estávamos no recreio, numa turminha. Ana se aproximou e a Elaine disse para ela:
– Ana, você sabia que os meninos fizeram uma votação da Menina Mais Feia do colégio?
– Sabia sim.
– (rindo) Você tirou primeiro lugar!
Ana disse algo e se afastou. Eu sei que isso acabou com ela, porque ela faltou a aula no dia seguinte. Assim como acabou o que eu sentia pela Elaine:
– Por que você disse isso pra ela!?
– Porque é verdade, ela precisava saber.
– Não, ela não precisava!
Minha teoria é que, quem gosta de dizer as coisas na cara, gosta mesmo é de ver a cara dos outros desmanchar.

Preconceitos

Todos temos preconceitos. E nada mais detestável do que alguém que se acha tão puro a ponto de declarar que não os tem.

Alguns nos são transmitidos meio geneticamente – nossa família nos ensina assim, sempre fez assim. Outros vão sendo adquiridos ao longo da vida. Quando vemos, temos uma coleção de preconceitos estúpidos, incofessáveis, mas que atuam de maneira decisiva no nosso dia a dia. Dos meus estúpidos e inconfessáveis, há o de não gostar de Lauras, de ter prevenção contra crentes e carolas, de achar que nunca me dou bem com mulheres de cabelo comprido e cacheado, de achar que todo norte-americano é burro, de achar que toda mulher que se veste de rosa é fútil. Assim como não deixa de ser uma forma de pré-conceito eu ter simpatia por pessoas que vestem preto e tem um monte de tatuagens, de achar que todo espírita é caridoso, de acreditar que todo carioca é extrovertido e simpático.

Mas todos esses preconceitos são inofensivos. Acredito que se conscientizar de que algo é um julgamento já é um grande passo. Pior, muito pior, quando as coisas são naturalizadas a tal ponto de nem nos darmos conta. Como um deficiente visual que me disse que as mulheres só aproximam dele para ajudá-lo, uma coisa meio maternal. Afinal, ele é homem. Ele sente desejo por algumas delas e gostaria que elas o vissem como macho.

Há forma mais cruel de preconceito?