A revolução altruísta

É fascinante pensar a quantidade de informações que os nossos pais nos passam e como elas ficam, e algo que eles nos disseram sem dar uma importância maior do que qualquer outra informação pode ser determinante no nosso futuro. Minha mãe me alimentou com muitas histórias, de irmãos Grimm e contos tradicionais aos livros de Chico Xavier e outras histórias de fundo moral. Ela me contou uma vez a história de uma mulher que foi procurar Buda porque seu marido havia morrido e ouviu falar que ele era um grande mestre, um iluminado, e queria que ele trouxesse seu marido de volta. Buda lhe pediu para trazer uma semente de mostarda de uma casa onde nunca havia morrido alguém. A mulher foi de casa em casa, explicou sua história, e todos lhe diziam que não podiam ajudar – uns haviam perdido o pai, outro um filho recém-nascido, a esposa… “Mas, mãe, a gente poderia dar uma semente de mostarda pra ela porque aqui não morreu ninguém”. Aí ela teve que me explicar que a nossa situação – uma mulher com seus filhos num apartamento – não existia naquela época, que as famílias moravam juntas, que a gente provavelmente viveria numa casa grande com a vó, nossos tios e primos. Nessa que seria a nossa casa, a gente tinha perdido o pai dela antes mesmo de eu nascer. A mulher voltou até Buda e lhe disse que não havia encontrado a semente, em todas as casas alguém havia morrido. Ela havia visto a dor dos outros e aceitado melhor a sua.

Essa história foi determinante pra mim quando me separei – de longe a coisa mais difícil que enfrentei na vida. Sempre gostei de olhar em volta e quando estava deprimida fazia o exercício de olhar ainda mais. Descobri perto de mim muitas dores, que jamais faziam o meu peito se encher de alegria, mas que me faziam aceitar aquela fase. Naquela época fiz aula de costura, um lugar que mais tarde fui perceber que era o refúgio de muitas mulheres como eu, que precisavam lidar com suas dores. Nem todo mundo por ali estava aprendendo, algumas já eram costureiras profissionais e precisavam apenas de uma ou outra dica e principalmente de companhia. Era um círculo de mulheres. Uma dessas mulheres era uma senhora baixinha, gorda e com uma gargalhada deliciosa que a fazia chacoalhar o corpo todo na risada. Numa tarde qualquer, nossa professora recebeu o telefonema do filho adolescente. Ele a avisou de uma mudança de horário porque alguém no colégio dele havia acabado de morrer subitamente durante a aula, aparentemente um ataque cardíaco. Ok. Apenas dias depois soubemos que o colega de colégio que havia morrido era neto da nossa colega de risada gostosa. Quando ela reapareceu, tinha o olhar baixo e mal falava. Minha professora me cutucou, disse para eu lhe fazer um gesto de carinho. Cheguei até ela e lhe dei um longo e sincero abraço, e nós duas nos emocionamos. A minha dor que me doía tanto e não me deixava em paz pelo menos tinha um componente de escolha.

Um mês depois da minha separação eu fui pra uma festa. Era um amigo que estava meio afastado e quis me animar porque soube. Valeu muito a pena, deve ter sido a primeira ocasião em meses – separação nunca é apenas aquela assinatura – que eu chorei de rir. Num certo momento chegou uma amiga que não via há tempos e ela me disse, com muita sinceridade, que estava passando exatamente o mesmo sofrimento que eu, porque havia se separado do noivo há pouco tempo. Depois soube que nossos amigos em comum lhe deram bronca quando ela disse isso para eles: como ela ousava, comparar um noivado com um sujeito que a enrolava há tempos e vinha para Curitiba a cada quinze dias com o fim de um casamento de mais de dez anos? Isso sem dizer que, ao contrário de mim, ela os solicitava o tempo todo com telefonemas e queixas. Eu os angustiava por não me abrir e ela enchia o saco por estar sempre nas últimas. Em algum post eu sei que já citei essa amiga, mas o que não disse é que eu realmente acredito que a dor dela era tão grande quanto a minha. É que ela não conhecia o segredo: eu fiz da minha dor a minha semente de mostarda e fui me curando com a dor do mundo. Ela se trancou no seu sofrimento como quem grita numa sala de espelhos.

Eu realmente acredito no altruísmo. Acredito na busca pela felicidade e na confusão que isso é, na diversidade dos caminhos e suas interpretações, na incapacidade da linguagem em realmente nos colocar claramente diante de outros ser humano. Se nos chocamos com as cenas de violência e os assassinos, é justamente porque somos quase todos seres pacíficos que se deixariam matar muito antes de pensar em ir a extremos com alguém. Fico feliz que coisas que sempre me pareceram tão minhas, tão idiossincráticas e religiosas, agora encontrem respaldo científico. Recomendo The altruism revolution a todos que estejam precisando reavivar sua fé na humanidade. Tem no youtube com legendas em inglês e no Netflix.

 

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Celular nojento

O celular ganha no quesito bactérias encontradas (incluindo a temida Staphylococcus aureus). O que é mais limpo que o celular:

  • sola de sapato
  • teclado de micro
  • maçaneta de porta
  • tampa de privada

Fonte: Info exame, fevereiro de 2007 p. 16

(Blerghhhhhhh!!! Nunca mais empresto celular. Será que dá pra passar álcool nele?)

Cordeiro?

Eu não sou do tipo que vai metendo os cascos. Sempre tímida no contato inicial, falo manso, trato todos bem, faço brincadeiras, procuro ser simpática. Sobre curriculos e competências – falo só o necessário ou em último caso. De sogra a colegas de trabalho – ninguém acha que eu ofereço perigo.

Mas tudo isso não quer dizer que eu seja idiota. Que não saiba colocar limites e que não seja confiante o suficiente para saber até onde posso ir. Essa minha atitude tem aquelas vantagens e desvantagens daquilo que achamos que não nos oferece perigo: as pessoas se abrem, mostram o que são. As resistentes se sentem seguras. As solícitas, estimuladas. As dominadoras acham ganharam uma empregada.

Isso está acontecendo com o meu informante na pesquisa. De tão entusiasmado com o tema, acha que vou escrever a dissertação dos sonhos dele. Arranja entrevistados mas nunca me dá os telefones – tudo tem de ser feito por intermédio dele. Ele acha que vai dar pitaco em todas as etapas, em tudo o que eu escrever ou fizer . Minha sogra também pensou assim um dia. Nunca brigamos, é verdade. Agora me pergunte quantas vezes ela colocou os pés na minha casa nesses últimos 3 anos. Duas vezes. E numa delas eu ainda não estava casada.

Pesquisa

No final do ano passado, estava estudando um livro muito interessante, chamado Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Na mesma época, um amigo que trabalhava na sessão Braille comigo, me comentou que havia ficado cego, que não era cego de nascença. Essa história dele se casava bem com o texto, que por sua vez se casava bem com um projeto de pesquisa, que por sua vez casava com a seleção do mestrado em Sociologia que estava para abrir. E meio por causa disso, meio irresponsavelmente, fui passando de etapa em etapa, sem acreditar, sem estudar, sem pensar no amanhã. Quando passei no mestrado, nem havia pensado sobre o que fazer com a minha graduação. Como fui levando, não sei explicar/ fui assim levando, ele a me levar

Ontem, na minha 6º entrevista, ouvi a história mais dolorosa da minha vida. Desde que me propus a isso, tenho perguntado sobre coisas dolorosas, às vezes sentindo pena, às vezes sentindo raiva (por não responderem direito minhas perguntas). Entro na vida das pessoas para elas me contarem sobre sua tragédia e sua superação. De repente acordo para o sentido que meu trabalho tem para essas pessoas, para o que me propus.

Só leio por aí trabalhos péssimos sobre deficiencia. Como é um tema pouco estudado, vejo que as pessoas tem consciencia de que qualquer porcaria que façam já pode virar referência. Agem como se já fosse caridade o suficiente escrever algo sobre o assunto. Psicólogos e pedagogos desfilam tantas besteiras e lugares comuns sobre isso que sinto até raiva de ler. Eu vou fazer um trabalho bem feito. Vou dar meu sangue, vou me acabar. Vou dar ao tema o tratamento sociológico mais fino e bem elaborado de que sou capaz. É a minha maneira de fazer justiça às confidências tão dolorosas que tenho ouvido.