Eu não uso fones de ouvido

Lembro bem do fascínio que eu tinha quando criança pelo walkman da minha mãe. Ele era cinza, importado e muito moderno – tinha uns 15 cm. Como todo walkman, a fita começava a rodar devagar quando a pilha estava fraca. Os fones de ouvido passavam por cima da cabeça, como um arquinho e a almofada ficava para fora da orelha. Poucos anos depois, também tive um desses. Mesmo antes de inventarem o discman, eles ficaram menores e os fones de ouvido pasaram a ficar enfiados na orelha. Não sei dizer quando, mas em algum momento achei que esses fones fazem um ar gelado dentro do ouvido e me recusei a usar. Olha que a única rifa que ganhei na minha vida foi justamente de um discman. Recusei mp3 de presente e nunca uso o fone de ouvido do celular.

Nunca pensei que não usar fones de ouvido tivesse maiores conseqüências do que preservar minha capacidade auditiva. Mas tem. Vejo que meus hábitos musicais são arcaicos. Apesar de ser bem inserida na web, nunca tive paciência pra ouvir podcast. Não sou uma boa pessoa pra aconselhar sobre o que ouvir, porque demoro pra adotar novas músicas e ouço as mesmas coisas durante muito tempo. Geralmente quando baixo uma música na net é porque já gostava dela. Às vezes baixo várias e monto um CD no formato .cda. Trabalhar com música, andar na rua com música, locais com música o tempo todo… tudo isso me soa como barulho e geralmente me incomoda. Como a música pra mim não é portátil, faço disso um momento separado do meu dia. Vou até a sala, coloco meu CD e geralmente ouço tudo até o fim. E sim, eu ainda compro CDs.

Por mais chocantes e mau humoradas que soem as teorias da Escola de Frankfurt, eles devem ter alguma razão. Mudar a reprodução da música, a portatibilidade da música, o consumo da música… tudo isso interfere de maneira profunda e sutil como nos relacionamos com ela. Nós não temos mais cultura (e nem paciência) para ouvir um concerto de uma hora. A música foi feita pra concorrer com o barulho do trânsito, com os vários sites que você vai abrir enquanto acessa o youtube, o último escândalo daquela celebridade nas revistas de fofoca, discussões na MTV, coreografias que serão copiadas pelos fãs, as tendências da moda, etc . Só isso explica a existência de cantoras como a Rihanna. Dissociado de todas essas informações, aquile som é uma verdadeira tortura.

(O post nasceu de uma tirinha do Laerte. Ela fez com que eu não me sentisse a única)

Tempo

Logo nos primórdios do cinema e da TV, autores de chamada Escola de Frankfurt criticaram a massificação do conhecimento. Haveria na cópia apenas um pálido reflexo da real apreciação artística. As formas massificadas de arte destruiriam a individualidade. Diante da apresentação dessa teoria tão polêmica, perguntei para o professor:

– Então se ao invés de ouvir uma gravação de piano, eu faço um pianista tocar ao vivo, para mim, uma peça. Assim vale?

Ele respondeu:
– Mesmo assim não. Você não teria cultura para ouvir a peça, entende?

Não entendi assim que ele disse. Mas hoje, quando coloco um CD de música erudita e cada música tem pelo menos meia hora, penso que realmente não devo ter cultura para ouvir aquilo. Ninguém tem. Aquela música foi feita para pessoas cujo tempo passava de uma maneira diferente, quando passar 30 minutos apreciando uma obra de arte era normal. Hoje fazemos tanta coisa em meia hora, meia hora é tanto tempo para perder, tanto tempo para se concentrar!

Quando pego um disco da Rita Lee, gravado nos anos 80, quase morro de tédio com os instrumentais. Penso – cadê a música? Em outras épocas, as músicas podiam durar 1 hora. Nos anos 80, 5 minutos. Hoje, 3 minutos e olhe lá. A Escola de Frankfurt tem razão: não temos mais cultura para apreciar certo tipo de música.