Pesquisa

No final do ano passado, estava estudando um livro muito interessante, chamado Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Na mesma época, um amigo que trabalhava na sessão Braille comigo, me comentou que havia ficado cego, que não era cego de nascença. Essa história dele se casava bem com o texto, que por sua vez se casava bem com um projeto de pesquisa, que por sua vez casava com a seleção do mestrado em Sociologia que estava para abrir. E meio por causa disso, meio irresponsavelmente, fui passando de etapa em etapa, sem acreditar, sem estudar, sem pensar no amanhã. Quando passei no mestrado, nem havia pensado sobre o que fazer com a minha graduação. Como fui levando, não sei explicar/ fui assim levando, ele a me levar

Ontem, na minha 6º entrevista, ouvi a história mais dolorosa da minha vida. Desde que me propus a isso, tenho perguntado sobre coisas dolorosas, às vezes sentindo pena, às vezes sentindo raiva (por não responderem direito minhas perguntas). Entro na vida das pessoas para elas me contarem sobre sua tragédia e sua superação. De repente acordo para o sentido que meu trabalho tem para essas pessoas, para o que me propus.

Só leio por aí trabalhos péssimos sobre deficiencia. Como é um tema pouco estudado, vejo que as pessoas tem consciencia de que qualquer porcaria que façam já pode virar referência. Agem como se já fosse caridade o suficiente escrever algo sobre o assunto. Psicólogos e pedagogos desfilam tantas besteiras e lugares comuns sobre isso que sinto até raiva de ler. Eu vou fazer um trabalho bem feito. Vou dar meu sangue, vou me acabar. Vou dar ao tema o tratamento sociológico mais fino e bem elaborado de que sou capaz. É a minha maneira de fazer justiça às confidências tão dolorosas que tenho ouvido.

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