A gente não quer só comida*

Imagine 50 crianças carentes, numa instituição. Crianças problemáticas, com mau comportamento na escola, agressivas. Diversos programas de recuperação não fizeram nada por elas, nada que surtisse efeitos positivos, nada que tivesse boa acolhida. Do que elas precisam?

Surf. Essa foi a resposta dada pelo meu irmão e seus amigos da Associação Bahiana de Bodyboarding. Com o patrocínio da Petrobrás, eles deram aulas, pranchas, acompanhamento, atividades esportivas em grupos. E, claro, elas adoraram. E, sim, muitas delas mudaram sua maneira de ser graças a esse programa.

Escrevo isso porque um amigo descobriu que sou uma psicóloga formada e começou a fazer uma pressão horrível e injusta pra que eu atue na área. Que eu dedique pelo menos uma hora por semana a ouvir alguém; que estou sendo egoísta com o conhecimento que adquiri; que tenho uma dívida social, em resumo.

Continuando o post anterior em que falo de preconceito, eu considero extremamente preconceituosa essa visão que temos de ajuda. De achar que essas pessoas precisam apenas de comida, remédio, terapia. Uma visão que as reduz enquanto seres humanos. Mais do que uma conversa com um psicólogo (o que apenas reforça o esteriótipo de serem problemáticas) , eu acredito que o prazer faça muito mais pelas pessoas. Existe algo melhor do que se divertir, se sentir belo, desejado, ter amigos? Essas pessoas precisam – por que não? – de obras de arte, de roupas bonitas, de um bom corte de cabelo, de um bom perfume, de ir à praia, de contar piadas e todas essas futilidades que adoramos na nossa vida e nunca pensamos em oferecer como ajuda, porque são coisas fúteis.

… a gente quer comida, diversão, balé!

* essa reflexão surgiu na praia, numa única conversa com o amigo-quase-irmão do meu irmão e um dos idealizadores do projeto Criançada nas Ondas, o Márcio Torres. Obrigada, Márcio.

Um comentário sobre “A gente não quer só comida*

  1. Concordo plenamente, acredito na idéia de prazer como parte da cidadania. E, nossa, como eu estou me sentindo pésima por ser, no momento, uma inútil em termos de militância política ou trabalho social. Talvez seja o caso de apontar essa recomendação para o meu 2006.

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