Caminhão de mudança

mudança

Sábado. Exerço meu sagrado direito de dormir até o sono acabar. Quando finalmente saí da cama e abri as cortinas, havia um enorme caminhão de mudança na vizinha do lado, onde tem a clínica. Enorme, do tipo que minha mãe chamava quando morávamos de aluguel e cabia a casa inteira lá dentro e ainda sobrava. Nem pra me avisarem, eu pensei. Temos um relacionamento cordial, eu e a vizinha. Eu a avisei quando, num domingo, a torneira da cozinha dela abriu sem motivo, e parecia que na minha casa a água jorrava sem parar. Ela dividiu comigo os custos das reforma das nossas calçadas e não me cobrou nada por usar o resto dos seus tijolinhos. Não vá, tive vontade de ir até a janela lhe dizer. Comecei a pensar no que faria, que teria que começar a acender vela pedindo vizinhos tão bons quanto, ou se faria igual Roberto Benigni no filme O Monstro e espantaria todos os possíveis inquilinos que aparecessem.

Antes, deixa eu explicar o porquê do pensamento: a acústica aqui é terrível. Até a chegada da clínica, eu sofri com cada vizinho que morou do lado. Primeiro foram dois irmãos, estudantes que vieram do interior e tinham um pai político. A moça brigava com o namorado e andava de madrugada de salto e dava para acompanhar os seus passos furiosos. Ela engravidou e foi embora. O irmão era mais comportado, bombeiro, mas fez um grupo de pagode e eles ensaiam adivinha aonde. Depois veio uma moça com dois filhos em idade escolar e que namorava o sósia do Marco Luque. O fato das crianças só dormirem pra lá da meia noite – dava para ouvir a manha cada vez- não me incomodava. O problema eram as longas sessões de sexo, sem dúvida regadas a viagra, que começavam 3h da madrugada e iam quase até de manhã. Eu tinha vontade de avisar que, assim como eu acordava com os gritos (não estou exagerando na expressão), os filhos dela também deveriam acordar. Como se não fosse o suficiente, ela deixava a cama encostada na parede que divide comigo e a cabeceira ficava batendo num ritmo bem característico.

Para espantar os inquilinos, bastava contar a verdade sobre o número assustador de roubos de carros por aqui, e uma das vítimas foi justamente um paciente. Antes da clínica, um casal bateu na vizinhança querendo saber se era violenta e eu disse que não, mas a vizinha do lado falou tanto de assalto que eu nunca mais vi aquele casal por aqui. Fui para o meu banho, tentando me conformar em perder minha vizinha favorita, e a imaginação voou: eu espantando novos inquilinos, o imóvel vazio, vândalos quebram as janelas, pichadores estragam as paredes, mendigos ocupam o imóvel, meus vizinhos a favor de amarrar bandido em poste colocam forças policiais para retirar os mendigos, tiroteio, pessoas morrem aqui do lado, eu começo a ver fantasmas. Quando saí, chateada em meio a uma nuvem de Phebo, olhei de novo e o caminhão tinha ido embora. Meu banho não é tão demorado assim, nem se fosse uma mudança feita pelo The Flash. Acho que eles erraram na proporção do caminhão de frete. Assim espero. Se encontrar minha vizinha, choramingarei pedindo para que ela nunca me deixe.

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