Introvertido se divertindo horrores na balada

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Algumas poucas vezes na vida introvertidos convictos caem na falácia do “desta vez vai ser diferente, vai ser divertido”. Geralmente quando nossos amigos extrovertidos se aproveitam de uma fase baixa, e atribuem o fato de você estar sozinho à sua introversão. Não que não seja verdade, mas o errado é a associação de sozinho com feliz e multidão com acompanhado. Aí você aceita que a amiga extrovertida te pegue em casa, e até consiga combinar com outros dois amigos que também não gostam de balada. Ela liga num horário que você já está de pijamas, diz que em quinze minutos passa aí, você se descobre capaz de se maquiar rapidamente, a pessoa leva duas horas para chegar. Quando chega, você enxuga a baba da almofada e vai, sem poder perguntar o que aconteceu porque há mais caronas no carro e o clima está péssimo. Vocês chegam na balada, que fica nos cafundós, a amiga dá piti na entrada porque reservou mesa mas o descontou expirou há três horas, ela argumenta que tem vinte convidados, o pessoal se olha com cara de quem já viu o filme e dá o desconto. Os dois amigos que também não gostam de balada escolheram uma mesa bem longe do palco e estão de péssimo humor porque chegaram no horário combinado. As outras vinte pessoas são umas seis, contando que outra também é aniversariante com marido. Você tenta conversar com os amigos que não gostam de balada mas o Máskara interrompe com gritos histéricos. Eles decidem ir embora. Pra noite não ser tão longa, você vai até a pista de dança porque a banda realmente é boa. E dança. A amiga extrovertida te vê na pista de dança e concluiu que a balada é um sucesso e você está se divertindo horrores. Apenas: não.

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O que começa errado…

O restaurante cheio que te deixa mais de meia hora esperando até encontrar um garçom nem tem uma comida tão exclusiva assim. Quando o garçom chegar, ele trará pratos sujos e o pedido virá errado. É possível até que você encontre um cabelo no peixe, e ao reclamar disso eles se defenderão dizendo que todo mundo na cozinha usa touca, então o cabelo não veio de lá (ou seja, te acusam de ter colocado um cabelo na própria comida, só pra tumultuar). A comédia que se passa na Rússia, lá no teatro distante, vai ficar lotada só porque é do Festival de Teatro. O ar condicionado reproduzirá temperaturas siberianas e congelará a platéia inteira. Os microfones funcionarão em volumes variados, alguém da platéia vai passar mal e não haverá uma ambulância para atender. A apresentação no barzinho para a qual você convidou vários amigos, evidentemente não contará com a presença de nenhum deles. O estacionamento do local ficará lotado pouco antes de você chegar, o carro rodará muito até ser deixado na rua, o local estará tão entupido que as pessoas disputarão lugares no chão.

Minha vasta experiência em programas cagados me ensinou: a melhor coisa é assumir o prejuízo e ir embora. Fuja nos primeiros sinais. Coma um sanduíche e volte para casa. Se a coisa não piora, ela não melhora a ponto de compensar.

À noite, de fusca

Ter um carro para sair era ótimo e o fato de ser um fusca não tinha a menor importância. Éramos duas universitárias independentes e que adoravam dançar. Minha amiga, como minha mãe definiu, dirigia como um homem: corria, furava sinais, arranjava atalhos, ou seja, não tinha aquela hesitação feminina ao volante que enfurece os homens. Isso sem falar que morávamos perto. Então era comum ela me ligar pra dizer “vamos?”. Eu roubava o meu cofrinho e ia.

Era comum irmos pra Santa Felicidade, num lugar que depois de reformado passou a se chamar Santa República (uma bala pra quem lembrar do nome antigo!). Na época ele era carinhosamente chamado de UTI – Última Tentativa dos Idosos. Ou apenas Baile do Desmanche. O bom de ir lá é porque era um ambiente onde se dançava dança de salão. Como nossa prioridade não era caçar, o fato de ter outro público era até melhor.

Estavamos a caminho do Santa República e minha amiga resolveu pegar um dos seus famosos atalhos. Era um caminho para Santa Felicidade por detrás do Parque Barigüi, uma região tranqüila e bastante arborizada. Num trecho escuro, nossa conversa foi interrompida com roncos de motos, que ficaram cada vez mais próximos. Olhei para os lados e em pouco tempo ficamos cercada de Harleys Davidson. Como mariposas, eles surgiam ao nosso lado, com seus motoqueiros barbudos e paramentados, diminuiam um pouco a velocidade e depois seguiam em frente.

Quando voltei a olhar pra minha amiga, ela estava mudada. Com uma expressão séria, tensa, olhando fixamente para frente. Perguntei o porquê disso:
– Não gosto quando esses motoqueiros passam perto de mim. Fico com medo de ser assaltada.

Respondi que com o preço de uma Harley em relação a um fusca, quem deveria ficar com medo eram eles…

Novo recorde mundial em baladas

Assim que nós chegamos, percebemos que a festa ” no ático, com cerca de 30 amigos que não se conhecem, música de qualidade e ambiente familiar” só tinha de verdadeira a parte do ático. Sentamos no sofá, comemos batata frita com chá verde, dançamos as únicas meia dúzia de músicas legais, voltamos pro sofá e quando chegou O Máskara, aplicamos o exclusivo método de fuga para casais que eu inventei naquele mesmo instante.

Tudo isso em exatos 1 hora e 30 min.

A mesma balada muitos anos depois…

Transporte:

Antes: carona no fusquinha da amiga.
Depois: no carro com o maridão de motorista.

Mesa:
Antes
: “oi, posso deixar a minha bolsa aqui enquanto vou dançar?” e só voltar na hora de ir embora.
Depois
: reservada, com os amigos, em frente à pista.

Dança
:
Antes
: se dançar bem eu aceito. Se não me tirarem, eu danço sozinha!
Depois
: com o maridão e a turma.

Dinheiro
:
Antes
: contado pra entrada e uma única coca-cola – que deve durar a noite inteira.
Depois
: só perguntei quanto custou por desencargo de consciência.

A volta
:
Antes
: manter a compostura diante do porteiro. Tirar os sapatos só no elevador.
Depois
: Dúnia, já pra casinha!

O que não muda nunca: mulheres vampiras versus velhos babões, olhar os outros casais, gente sem noção, encontrar algum conhecido caçando, horror no banheiro feminino, ficar rouca de tentar conversar e cantar junto, calor!, voltar com vontade de atirar as roupas no fogo de tão fedorentas, pés inchados… e pensar – ah! por que eu sou tão preguiçosa e não saio mais?

Noite completamente às avessas

Na semana passada, vi a seguinte propaganda no restaurante indiano:

“Noite oriental”
1º festival indiano de Dança Samkya em Curitiba
Venha participar de uma Noite Misteriosa com sabor da Índia. Jantar com 10 preparações típicas e sobremesa. Apresentação ao vivo de Dança Samkya – fusão de Danças Indiana, Árabe e Egípcia ao som de Harmônio, Kartala e Mrdanga. Os participantes receberão de cortesia uma aula especial com a Instrutora Internacional Yurami Sarah e sorteio de brindes.

O Luiz não se animou. Eu parti para as chantagens mais baixas – apelei para o nosso aniversário de namoro e ameacei ir sozinha. Tivemos de comprar convites antecipados, pois os lugares eram restritos e tal. O dono nos sugeriu ficar longe do local da apresentação, por causa do barulho; eu pedi o lugar no chão, que gosto de sentar.

Hoje foi a noite. Chegamos às 20 horas, como dizia no convite. O dono lembrava de nós, por causa da minha insistência. Ele percebeu que marcou errado nossos lugares no computador – ele havia me colocado do lado da apresentação e corrigiu o erro. Sentamos e logo fomos servidos por um llasi (suco com iogurte) de frutas vermelhas maravilhoso.

Pronto, acabou aí a parte maravilhosa e começamos a entrar no mundo bizarro. A aula de cortesia é no sábado, no mesmo horário que eu tenho aula. Nós éramos, por causa da localização, os últimos a serem servidos. Até a sopa foi tudo bem, mas na hora da comida eles serviram metade do restaurante e eu fui da metade que ficou olhando – ou seja, o lugar anterior era melhor. A música ao vivo eram 3 hare-krishna que tocam de graça no templo. Meu jantar chegou às 21:30 – e me encontrou de péssimo humor. Depois, nos deram uma bolinha doce do tamanho de um brigadeiro. Eu chiei – cade as 10 preparações indianas? O Luiz contou: 2 llasis, 2 samosas, 1 arroz integral, 1 bolinha preta, 1 pedaço de beringela, 1 preparado de batatas, 1 bolinha e 1 doce cremoso… é, 10 preparações indianas.

Hora da dança: primeiro, 2 alunas que faziam aula há 6 meses. Fizeram uns passinhos tão chinfrins que pensei cá comigo – eu preciso de uma tarde pra aprender isso! Depois, a instrutora. Sabe aqueles misturas que tem o melhor de tudo? É o contrário. Movimentos indianos estilizados, samba (!), dança do ventre e uma bateção horrorosa de pés no chão que eu realmente não sei de onde tiraram.

Eu achei tudo tão ruim, mas tão ruim, que na hora do sorteio de um mês de aulas gratis, eu disse “tomara que eu não seja sorteada”. ‘divinha? Sim, eu ganhei um mês de aula esquisita grátis. E a namorada do dono, que riu da minha cara quando fui sorteada, ganhou também.