Não é você, sou eu

Não acredito que escolhas e opiniões são baseadas em juízos perfeitamente racionais. No geral, não são. Se o são, é só para temas tão abstratos e longe do cotidiano quanto os spins das partículas quanta. De resto, o que nos afeta, é primeiro formado pelas experiências, a criação, a rotina, enfim, o que nos parece mais confortável. Primeiro, as idéias se afofam com o que somos; depois é que vem a busca pela justificativa moral, o floreio, os autores e estudos científicos que comprovam que estamos certos. Igualzinho quando estamos doentes e primeiro achamos que estamos deprimidos, ou que o dia foi ruim, pra só depois nos darmos conta que o mal começou no corpo. Primeiro tem a sensação e depois a mente cria uma historinha em cima – é pra isso que as mentes servem. Dito isso, sei que tenho umas premissas comigo do que eu faço ou tolero. Outros fazem e eu não, outros podem e eu não. Algumas parecem bem razoáveis, outras covardes. Sei que não são más em princípio, apenas que são más para mim. Do mesmo modo, minhas escolhas são más para outros. Que bom que existe a diversidade. Essa é uma pequena lista do que EU NÃO:

* Abraço causas: acho lindo, nobre e muito necessário. Mas eu não consigo. Tenho minhas opiniões, procuro ampliar meus horizontes de maneira a entender a espécie humana como uma só, e que independente de gênero, nacionalidade, credo ou cor, todos têm direito à felicidade. Só que eu não consigo agir no sentido de escolher um tema para repetir e convencer os outros. Eu me sinto chata, fico enjoada de mim mesma. Pior: tenho um certo espírito do contra e isso faz com que eu não consiga aderir às agendas dos movimentos. Acho importante todos irem numa direção, para reforçar, entendo a dinâmica. Mas eu não vou, não sou eu.

* Me envolvo em argumentações furiosas: aí são dois motivos. O primeiro é porque não acredito em discussões furiosas. Quando se atinge o nível de fúria, são dois bichos orgulhosos se degladiando. Se o importante é ganhar e esmagar o adversário, ninguém se deixará convencer de nada. Em segundo lugar, sou tranquila demais para manter um debate. Gosto de adrenalina, mas não dessa. Não sou assim no meu dia a dia. Nas poucas vezes que sou, é porque saí do meu normal. Tenho um acesso de raiva e em alguns instantes ele passa. Pra se manter numa discussão furiosa é preciso manter aquela energia. Vejo que tem quem se sinta mais vivo quando discute; em mim, é uma energia que faz mal.

* Fico ao lado de pessoas instáveis: instabilidade emocional não é falha de caráter. A pessoa pode ter um coração bom, ser confiável, carinhosa, boa amiga e ter imensas qualidades sendo instável. Um dia ou outro, em anos, é possível que essa pessoa não consiga manter sua civilidade e lhe fale coisas duras, coisas guardadas, pra logo depois se arrepender e querer voltar às boas. É uma agressão de momento, igual aqueles cães que quase matam os donos num acesso de loucura e depois estão abanando o rabo pra ele. Pra mim não vai. Talvez seja algo de criação; há um limite de respeito que eu jamais ultrapasso, às vezes nem com inimigos. Prefiro que respirem, pensem bem, se acalmem. Quando me dizem algo, eu levo à sério. Comigo não cola querer voltar atrás depois.

* Alimento pessimismos: eu mesma já fui depressiva e via na obrigação pela felicidade algo nocivo. Eu gostava de papos profundos, e achava que uma amizade só era amizade quando um conhecia o pior lado do outro. Lutei muito para sair desse estado, e de certa forma ainda luto. Hoje gosto de ficar feliz e de amigos que me façam rir. Eu não aguento muita queixa ao meu lado, não quero que aumentem a minha carga. Eu sei consolar e apoiar, mas espero que meus amigos usem esse serviço com a mesma parcimônia de quem aperta o alarme de incêndio. Falando em português claro e cruel: eu não sou amiga para todas as horas. Quando em dificuldades, eu faço o meu possível antes de pedir arrego; dos meus amigos, espero a mesma coisa.
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