Guapa

Nos dias de espetáculo as pessoas envolvidas costumam ficar o dia inteiro no teatro. Mesmo assim, quando termina, estão todos numa adrenalina tremenda, dessas que nos impede de dormir. Então é mais do que bem-vindo fazer uma reuniãozinha depois, pra fofocar, falar sobre o que acabou de acontecer, estreitar os laços. Foi num desses encontros que minha amiga acabou trocando telefone ele. Ela, separada, com filha, uma grande bailaora e excelente pessoa; ele, outro envolvido no mundo flamenco. Havia uma simpatia mútua, uma atração, as idades batiam, não custava tentar. Vai que ficava interessante, vai que surgia um namoro. Ele ligou e combinaram de se encontrar dali há poucos dias, depois do trabalho, uma coisinha sem compromisso.

 

Ela sabia que ia vê-lo no fim do dia, então deu uma caprichada no visual. Foi trabalhar de saia, sandália, blusa de alcinha. Não tinha problema trabalhar assim, porque tudo ficou coberto pelo guarda-pó; veterinária competente, a rotina dela incluía lidar com vários tipos de animais, aplicar injeções, lavar canil, esse tipo de coisa. Quando terminou o expediente, ela deu a última ajeitada no visual e foi vê-lo. Pegou o carro, foi até o local combinado e quando a viu, ele examinou minha amiga de cima a baixo e lhe disse:
– Como pode, a mulher veio encontrar comigo tão guapa: sandália, saia, blusa bonita… e não fez as unhas!

Não digo que acabou ali porque na verdade nem começou.

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