Injustiça, sushi e fel

Tive que comprar, correndo, um livro pra doar para a Biblioteca Pública. O correndo, na verdade, foi pelo meu desejo de liquidar logo aquela injustiça. Fui acusada de ter manchado o último livro que peguei, o Salman Rushdie. Alguém resolveu olhar o livro e viu a mancha, e tal como na brincadeira da batata quente sobrou para o último nome da lista de quem leu o livro. Azar o meu e fui às Lojas Americanas comprar um livro qualquer – eles disseram que eu poderia doar um livro, qualquer livro – para repor e acabar com aquilo de uma vez. Um conjunto de ironias, a situação toda, se for pensar na quantidade de livros que eu já doei para a biblioteca e que sou famosa por cuidar tanto dos meus livros que mal os abro. Enfim.

 

Eu poderia pegar qualquer livro, e quanto mais barato o livro fosse menor o meu prejuízo. Mas tenho meu orgulho e não consegui levar Ágape, do Padre Marcelo Rossi. Nem os de orações, nem de queijos, nem de casais que enriquecem juntos, todos eles na promoção. Quase peguei O poder dos quietos, um livro que eu mesma tenho vontade de ler. Pra conciliar o preço e algo que não me envergonhasse, levei um livro chamado Sushi. A contracapa me deu um resumo do livro, com personagens femininas descoladas, perfeitinhas, e que buscam a felicidade. Descobri que Marian Keyes é uma das grandes novas escritoras, e que ela tem uma série de livros, todos igualmente deliciosos.

 

Tenho me envolvido muito com a escrita nos últimos tempos. Estou com um projeto aí, algo mais longo do que estes posts. E mergulhar na escrita, minha e de outras pessoas, tem deixado claro para mim o quanto a escrita nos reflete. Se a tela do computador aceita qualquer coisa, tudo é escolha e tudo pode revelar um pouco do autor – o tema do livro, a que personagens ele dá voz, que sensação passa ao leitor, aonde ele quer chegar. Não tem jeito, cada um fala do que tem, escreve o livro que lhe é possível. Olhei para a descrição de Sushi e me perguntei que diabos de pessoas são essas, como a tal da Marian Keyes, que são tão felizes. De onde eles tiram essa vida descolada, essa fofura toda? Não tô dizendo que acho ruim não, acho ótimo, invejo. Eu não poderia, eu não me suportaria. Quero ser positiva, não quero ser amarga, mas só o fato de dizer Quero mostra que reconheço que a vida tem um gosto de fel… Eu não poderia ser Marian Keyes, eu não poderia escrever Sushi. Outra possibilidade é que tudo falso e ela é igual o personagem de Jack Nicholson de Melhor Impossível. Como diz a chamada da TV: pessoas fofas e felizes, quem são elas? Onde estão, como vivem, o que comem? Como podem se manter assim num mundo como o nosso? Sexta, no Globo Repórter.
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