Alto lá, lagartixa!

filtro de barro

Quem é que não gosta de lagartixa, não é mesmo? Curitiba tem um problema sério com aranhas marrons e todo mundo compartilha um aviso que não se deve matar lagartixas porque são predadoras naturais. Enquanto em Salvador há os calangos enormes muros, que as crianças aprendem logo a querer fazer a experiência sobre a regeneração fabulosa da causa deles, aqui é raro encontrar lagartixa e elas não devem chegar a 10 centímetros. Então eu já havia visto uma na parede da cozinha e lhe disse que ela era muito bem vinda, que não precisava se esconder de mim. Uma noite qualquer, vi que havia um volume esquisito na tampa de um dos vidrinhos de tempero e, quando me aproximei, ela saiu de lá. Ela estava enrolada na tampa e saiu correndo. De um lado foi fofinho mas de outro, sei lá, ver que ela não se limita à parede quebrou algo dentro de mim. Eu vivo falando pra lagartixa que ela é bem vinda porque essa corridinha que ela dá me assusta, acho que é barata. “Já disse que você é bem vinda aqui, pare de correr como se fosse uma barata, elas é que não são”.

Pois. Tenho filtro de barro e troco a vela a cada seis meses, como manda o fabricante. Tenho a vaga impressão que antigamente a tampa também era de porcelana; quando comprei o meu e vi a tampa levinha de plástico, achei que economizaram. Eu sou do tipo de pessoa que tem certa preguiça com tampas em geral, especialmente se tem que rosquear muito; já perdi um monte de coisas por isso, de sabão em pó à café. Algumas vezes já encontrei a tampa do filtro meio mal encaixada, e na noite que fui trocar a vela ela estava assim. “Tenho que parar com essa mania de tampar mal, o quanto que já caiu no chão e perdi, etc”. Limpei o filtro, troquei a vela e tal. Outra coisa: tem que dispensar os primeiros doze litros de água, o que corresponde a encher o meu filtro duas vezes. No dia seguinte, fui lá trocar a água e adivinhe: a tampa estava mal encaixada de novo. Não foi a primeira vez da minha vida, mas foi a primeira que eu conscientemente me programei pra não deixar daquele jeito.

Resultado: na minha cabeça, a lagartixa levanta aquela tampa à noite. A lagartixa bebe a água que desce pelo filtro. A lagartixa anda no copo que deixo na frente do filtro. A lagartixa anda em cima da louça que deixo à noite. Estou contaminada de lagartixa há meses. Coloquei um prato fundo tampando o filtro. Nunca na minha vida tenho tido tanta disciplina em não deixar nada na pia antes de dormir, nem que isso implique em lavar e guardar toda louça quase às 2h da madrugada. Se você acha lagartixa fofinha, pense se é a ponto de dividir água com ela.

Batida na parede é quase amor

Tenho a impressão que o computador fica colado na cabeceira do vizinho do lado. À noite ou de manhã cedo, se vou colocar um vídeo, o tempo que leva pro mouse encontrar e abaixar o volume já é suficiente pro vizinho bater na parede. É um verdadeiro diálogo braille que temos. Já chegou ao ponto do cara bater na parede preventivamente, antes de se deitar.

 

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Não sei se meus vizinhos têm noção do quanto essas paredes são finas ou se eles são paranóicos o suficiente para achar que o mundo inteiro faz barulho e eles não. Eu ouço as risadas, ouço as discussões… Sexo nunca, porque eles se odeiam e não devem fazer mais.

 

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Teve uma época que eu me propus a estudar flamenco aqui em casa. Comprei uma madeira pra fazer de tablado, fiz todo isolamento que pude e ensaiava em horários que ninguém mais está dormindo. E ficava meia hora, contado. Começaram a bater na parede e pensei – vão notar que é só meia hora e param. Até que um dia fizeram tanto barulho, durante tanto tempo e com tal intensidade que não dá pra descrever. Era um nível que parecia que estavam jogando os móveis contra parede. Fiquei com medo deles e parei.

 

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Não, eu não sou uma vizinha barulhenta, nem poderia ser. Comigo é só batida na parede. Com os vizinhos do outro lado, eles chamam a polícia.

Dois medos

Tenho notado uma tendência de certas mulheres solteironas ficarem meio loucas. É provável que os homens também fiquem; mas os homens assim que se veem solteiros logo procuram uma mulher pra colocar do lado, qualquer mulher. Sem dizer que as mulheres vivem mais. Vejo essas mulheres meio loucas, e me pergunto se são loucas porque estão sozinhas ou se estão sozinhas porque são loucas. Chamo de loucura mas é muito mais uma aguda incapacidade de negociar, uma tendência a serem monotemáticas, um certo descompasso no trato com o outro. E isso aumenta sua solidão. Tenho medo justamente porque tenho tendência a me isolar e entendo perfeitamente a recusa com o mundo. Vejo que facilmente poderia (ou poderei) me isolar no meu apartamentinho, com minhas violetas e uns gatos. Nos um ou dois compromissos fora de casa, seria tão intratável que os outros me olhariam com pena. Ou – não adianta argumentar com ela, é louca.

 

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Tenho um medo flamenco. No meu caso é flamenco porque eu amo o flamenco, mas acontece em qualquer área. Não encontrei um termo que defina isso. Meu medo é chegar um ponto onde eu pare de evoluir. Pare de aprender, de me desafiar, de crescer. Existe tanto a ser aprendido e não quero de repente sentir que bati com a cabeça no teto, que dali eu não passo. Seria muito triste, porque seria um teto bem baixo. Só que aí, por amar demais, por ter investido demais na ideia de ser bailaora, não me conformaria. Buscaria subterfúgios, viveria de glórias passadas, repetiria sempre os mesmos passos na ilusão de que assim estou enganando alguém e de que ainda sou boa. Tenho horror à possibilidade de viver de pose, de símbolos, de ilusões. Ser daquelas pessoas que precisam sempre dos iniciantes por perto, porque uma pessoa com olhos mais treinados logo vê que dali não há mais nada para sair. Quando vejo fazerem isso, me pergunto porque não se retiram com dignidade ao invés de montar esse teatro. Mas comigo, ah!, não sei o que farei se não conseguir aprender mais nada.

Daenerys Targaryen

Uma das muitas coisas legais de Game of Thrones é a sensação de que ele dá vida aos tempos de senhores e vassalos, e que a vida próxima às cortes era daquela maneira mesmo. Do mesmo modo que hoje as pessoas sacam o títulos e contas bancárias pra tentar impor um respeito que não viria naturalmente, o livro está cheio de apresentações. Nos momentos importantes, o currículo do nobre é citado em poucas palavras:
– Vyseris da Casa Targaryen, o Terceiro de Seu Nome. Rei dos Ândalos, dos Roinares e dos Primeiros Homens, Rei dos Sete Reinos e Protetor do Território. Sua irmã, Daenerys, Filha da Tormenta, Princesa de Pedra do Dragão.

Só que quase todos esses currículos, ao longo do livro e da série, vêm acompanhados dos vassalos e da riqueza correspondente. Os únicos que não têm são justamente os Tagaryen, por serem filhos de dragões já extintos e de uma linhagem de reis sem reinado. Daenerys, por ser mulher, fica numa posição ainda pior e é vista apenas como escada para as ambições do irmão. Ela tem aquela frase toda de títulos e ao mesmo tempo não é ninguém. Era muito criança quando foram exilados e nem ao menos tem lembrança da época gloriosa. Quando é oferecida em casamento ela se torna alguém – mas o marido é de um povo bárbaro, então ela continua não sendo lá essas coisas. A história se desenrola, acontece um monte de coisas, ela se ferra de muitas maneiras, e você se pergunta como é que o autor vai impedir essa personagem maravilhosa de simplesmente morrer ou sumir, como muitos outros na trama. Aí Daenerys faz o que me chamou atenção nela desde o começo: ela ressalta sua importância e recita aquelas frases todas, mesmo quando tudo à sua volta desmente sua nobreza. Não importa o quanto as condições materiais sejam ruins e a deixem em desvantagem, sua auto-confiança faz com que as coisas a sua volta mudem.  Durante muitos momentos, todos pensam que ela é somente uma louca. Louca ou não, a estratégia funciona. Quando comecei a escrever esse texto, imeditamente pensei em alguns loucos que nos causam muita vergonha alheia. Existe um lado da auto-confiança que não está amparado em nada e faz com que o sujeito caia no ridículo. Também pensei naqueles que conseguem as coisas sem merecer, unicamente por fazerem uma excelente publicidade de si mesmos.  Até o mundo perceber que por detrás daquela fachada de sucesso não existe competência e caráter, o sujeito já recebeu os melhores cargos, andou nas melhores companhias e se fez. Claro que não gosto disso e me sinto prejudicada por essas pessoas. Mas me perdoem – quem está se queixando assim é o meu lado pessimista e invejoso. O bicho tem andado agitado ultimamente.

Nem tudo em Daenerys me é estranho. Eu também me lembro das muitas vezes que eu tive que recitar minha importância para mim mesma, porque ninguém me ouviria. Lembro dos homens que me ofereceram qualquer coisa, porque para eles eu era mais uma e um pau duro já era mais do que suficiente. Penso em muitas amizades excelentes, de pessoas que me adoravam, e que o preço que me cobravam por tanto afeto é que eu não me incomodasse com explosões de ira ou acusações injustas. Poderia citar a minha família, e a difícil obrigação social de sempre valorizar a familia; só que o papel que me foi reservado é um subalterno porque, afinal, não sou nenhuma advogada ou doutora. Desde que comecei a dançar, quanta gente não disse que eu não poderia ou fez o possível para que eu não saísse do lugar… Eu poderia citar muitas coisas, grandes e pequenas. Pra muitas delas, quando eu disse não, eu era a mais fraca contra as circunstâncias mais fortes, a dúvida contra as certezas, a solitária contra o já estabelecido. Mesmo assim, eu fui; para isso me amparei apenas no sentimento de que eu merecia mais. Eu queria mais e o tigre que vive dentro de mim simplesmente não podia aceitar o que me era oferecido. Um dia pode ser que eu seja rainha, que tenha um exército e possa jogar na cara de todo mundo que eu sou eu, etc. Pra algumas coisas esse dia chegou, para a maioria não. O que posso dizer é que, apesar das perdas aparentes, eu sempre senti que valeu a pena. Quando exigi mais, eu sempre recebi mais. Eu sei que parece mentira, que estou recitando Paulo Coelho, mas não é. Se você não acredita em mim, pense em quantos loucos que existem por aí, de quem se acha Cristo a comedores de carne humana, e que eles sempre encontram seguidores. A certeza é uma arma poderosa. É preciso ser meio louco e acreditar tanto em si, mas tanto, que o mundo não tenha outra alternativa senão se dobrar.

Inferno

Cada um tem o direito de fazer da sua vida o inferno que quiser, essa é que é a verdade. Por mais que a gente perceba que é a escolha errada ou que a pessoa está criando problemas onde não tem, é um direito dela. É direito da pessoa reclamar o dia inteiro, por tudo, por coisas que nem aconteceram. Gente que teria tudo para ser feliz ou que tem até muito mais do que você tem. Ela pode até olhar quem tem menos com inveja, porque pelo menos o outro tem a capacidade de ser feliz do seu jeito. O twitter, aquele constante monólogo assistido, acaba nos fazendo conhecer esse lado das pessoas. Gente que usa calça jeans, diz “oi tudo bem” e apara as unhas, só que no virtual revela neuras e mais neuras. Existem os dois tipos: os muito loucos que encontram na vida virtual o seu meio de expressão saudável, e os que pessoalmente parecem normais e soltam os bichos no virtual.
É um direito, é um direito… Passei um dia inteiro repetindo esse mantra, justamente porque estava incomodada. Eu tenho por mim que brigas virtuais e brigas com loucos são inúteis, pior ainda se forem as duas juntas. Então eu respiro e evito. Quando um troço é tão constante e tão fora de propósito que as unhas aparadas não me convencem mais, eu sei que é uma espécie de loucura. Aí me toquei de algo: fazer da própria vida um inferno é um direito inalienável, mas estender esse inferno aos outros não é. Quando a pessoa espalha sua loucura para o mundo e leva todos a se incomodarem é porque extrapolou. Se deixou de ser de foro íntimo também deixou de ser um direito. 

Louca

Eu imaginava que aos 30 eu teria meu loft, meu carro, seria workaholic e faria sexo ocasional. Assim como achei que seria chiquérrima, andaria de salto e saia lápis. Tudo bem que isso tem uma boa idealização sobre o que uma pessoa consegue de patrimônio em 10 anos de carreira… Mesmo assim, eu sou bem avesso do que eu projetava.

Sabe aquelas crianças chatas de novela que falam como adultas? Essa era eu. Talvez pela infância que eu não tive, hoje eu seja uma adultecênte irresponsável. Todos têm as suas motivações, e no geral elas possuem uma questão de fundo: tenho que me preparar para o futuro. O futuro, a carreira no futuro, a poupança pro futuro, a fertilidade (ou ausência dela) do futuro. Não está bom agora, mas vai ser importante pro futuro. Não gosto disso, mas se eu largar no futuro eu vou me arrepender. Não estou preparada, mas se eu esperar demais no futuro eu não vou poder.

A cada dia que passa tenho me tornado mais incapaz de fazer o que não gosto, tenho começado coisas que não vejo a menor perspectiva, tenho me arriscado como nunca imaginei. Agora há pouco, acabei de cortar o último laço que me unia a mais uma carreira séria. Não preciso de ninguém pra me dizer o quanto eu sou irresponsável – eu faço tudo isso com medo, como naqueles filmes em que a mão se torna independente do corpo.

Entre louca a gênia, é ca-la-ro que eu estou na primeira opção.

Eu no BBB

Alguma mente sádica – numa dessas conspirações governamentais que pegam os inocentes – saberia o quão cara é minha privacidade e me colocaria no Big Brother sem eu nunca ter me inscrito. Quando eu acordasse, estaria lá: trancafiada com um monte de corpos sarados que falam UHU! pra tudo. Eu, que só dividi o quarto durante poucos anos com meu irmão, me veria dormindo onde não quero, com gente que eu não gosto. Isso sem falar na claustrofobia de um quarto sem janelas. “Maldito!”, eu gritaria numa daquelas tomadas aéreas dos filmes, em que a câmera se afasta do revoltado protagonista de joelhos.

Detestaria cada participante antes de qualquer oportunidade de me apegar, porque não tenho simpatia natural por gente idiota. A tentativa de sair pra meditar ou ficar quieta num instante me daria fama de louca. Os assinantes do pay-per-view detestariam minhas idas à piscina, porque detesto pegar sol. Nas festas, outro fiasco: não rebolo até o chão e seria a única sóbria. Naquelas provas de resistência, iria embora assim que a anunciassem porque não vejo utilidade em ficar tanto tempo de pé, ou pulando ou qualquer besteira do tipo. Sem meu lar, meus hábitos e minhas caminhadas, em pouco tempo eu perderia toda a polidez e viraria uma pessoa irritada e anti-social. Calculo que isso levaria não mais do que dois dias. Já me imagino perambulando o dia inteiro de pijama, cabelo desgrenhado e atacando a geladeira com cara de poucos amigos.

Aqui fora, o Paparazzo me esperaria pra um ensaio sensual recheado de photoshop. E o youtube com videos duvidosos. Este blog seria invadido de internautas à procura da valiosa informação: estarei ou não jogando? Meu marido seria uma prova de que eu não sou gay, embora algumas amizades me condenassem. Minha mãe decepcionaria o Bial por ser incapaz de dar um depoimento lacrimoso; meus in-law seriam valiosos para as revistas de fofoca. E, claro, jamais ficaria entre os finalistas.