Passos pra frente e passos para trás

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Eu estava trabalhando naquela peça há dias, no barro. Era uma mulher ajoelhada, olhando meio para baixo na diagonal, as mãos tampando os seios. Eu tinha facilidade e adorava esculpir pessoas, e normalmente já teria terminado. Mas aquela estava difícil. Eu avancei, avancei, medi o que consegui, fui pro acabamento fino, mas ela ainda me incomodava. Como último recurso, chamei o meu professor. Nem todo mundo se adaptava ao esquema daquele atelier, porque ele se auto-intitulava “livre”: o professor não ficava em cima do aluno, cada um chegava com seus projetos e recebia uma assessoria quando pedisse. Alguns nem ao menos aceitavam essa ajudava e faziam de lá o seu local de trabalho e pronto. Chamei meu professor e disse que não conseguia consertar a peça, que ele me dissesse o que havia de errado. Ele a circulou, olhou de longe por diferentes ângulos e falou que as proporções estavam erradas, que as pernas estavam numa proporção, o tronco em outra, que o cabelo não conseguia arrumar o erro nos ombros, etc. Apesar da peça estar muito bonita e bem acabada, os erros não tinham salvação e o melhor era abandonar e começar do zero. Eu concordei com ele e imediatamente destruí a peça, o que causou revolta aos meus colegas de atelier. Que não era assim, eu não precisava ser tão radical, nem tudo precisa ser perfeito, etc. Depois eu fiz outra, do zero, e mesmo assim não ficou bom. Era o tipo de pose que necessita de um modelo vivo, as proporções são mesmo muito difíceis.

Acho que não vou ser exagerada em dizer que as coisas pra mim não foram fáceis. Mas ter passado por muitas pedras no caminho tem suas vantagens: a gente acostuma com esse esquema de avançar três passos pra recuar dois. Se o preço é recomeçar e abrir o caminho no soco, eu pago.

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As velhinhas da hidro

Um amigo uma vez disse:

– Eu decidi parar de andar com gente velha. Quando você anda com gente velha, quando vê está trocando dica de cardiologista. Eu não quero dica de médico, quero que me digam onde comprar o melhor tênis.

Lembro dele cada vez que saiu da minha aula e encontro as velhinhas da hidro. Eu me troco no curto espaço de tempo que elas ficam no banheiro esperando o horário da aula delas. Uma delas, inclusive, está sempre sentada embaixo da porta do meu armário quando eu saio do banho. Os papos das velhinhas, na grande maioria das vezes, parecem pautas do programa Bem Estar – um dia o tema é joelho, outro dia é coração, noutro elas falam sobre articulações… Guardarei para sempre a informação de que quem tem diverticulite não pode comer gergelim. Infelizmente pouco do que elas dizem renderia um post interessante. Não tem sabedoria dos mais velhos, não tem receitas caseiras e nem informações do tempo do guaraná de rolha. Quando não estão falando de doença, grande parte da conversa gira em torno dos netos. Elas vivem se avisando mutuamente que enviaram e-mails, o que é meio engraçado. Outra coisa que agora eu sei só por estar no banheiro com elas, é como matar gatos de maneira infalível e natural. Claro que não contarei aqui e nem ao mesmo testarei a eficiência do método.

Apesar dos papos intermináveis sobre doenças, elas me fizeram descobrir qual o grande barato da terceira idade: a teimosia. Pra quem lida com idosos isso é muito difícil, mas pra quem é idoso deve ser uma delícia. Descobri que é impossível obrigar gente mais velha a fazer qualquer coisa que ela não queria de coração. Nem que seja agradar outras pessoas mais velhas. Uma vez elas estavam tentando organizar um encontro, numa quinta à tarde. A novela se arrastou durante mais de um mês. Elas se falavam no banheiro e sempre tinha alguém que não estava, sempre era preciso repetir. Aí organizaram uma lista de e-mails, mas nem todo mundo lia o e-mail. No meio do caminho surgiu a vaquinha para o presente da professora, que iria também. Então fizeram um comunicado e distribuíram entre todas. Quando estavam todas comunicadas, algumas implicaram com a idéia de pagar presente e encontro. Sem falar das que disseram que não iam porque não sabiam chegar lá. Novas discussões. No fim devem ter aparecido umas três velhinhas. As que não queriam não foram nem com promessa de carona.

Esperem só quando eu chegar na terceira idade. Estou doida para usufruir da teimosia que me cabe. Tenho vontade até andar com bengala, só pra poder usá-la como arma.

Elogio à teimosia

Sim, vou legislar em causa própria. Os defeitos dos teimosos são aqueles que todo mundo conhece: colocam uma idéia na cabeça e não tiram mais ela de lá. Por mais que ela se mostre contra os fundamentos do bom senso e os amigos argumentem, ele não muda de idéia. A teimosia está sempre ligada à idéia de contradição, porque se fosse algo que todo mundo aprovasse, seria chamada de determinação. O teimoso continua no que quer apesar de todos, contra o mundo. Isso já mostra que a teimosia tem em si algumas qualidades como: ter idéias próprias, acreditar em si, sentido de foco, determinação e responsabilidade.

É justamente a parte da responsabilidade que eu acho mais bacana e é uma coisa que parece faltar no mundo. Ser responsável por quem você é e pelas decisões que toma. Escolher contrariar o mundo e estar disposto a arcar com as conseqüencias disso. Porque seguir o conselho dos outros nem sempre é sinal de abertura; muitas vezes as pessoas ouvem conselhos por pura covardia, ou pra poder ter alguém em quem jogar a culpa caso as coisas dêem errado. “Eu só fiz porque fulano mandou”. Resposta que há tempos atrás merecia a pergunta – “E se fulano te mandar pular da ponte, você pula?” Porque no fundo, todo mundo faz o que quer, o que lhe parece mais conveniente. O teimoso é criticado por querer o que as pessoas acham que ele não deve querer.

Teimosos históricos, como Osvaldo Cruz, nos mostram que é possível pensar diferente de todos e estar certo. Nossos valores podem não estar de acordo com os que estão à nossa volta, como se tivessemos sido trocados por uma mágica cruel. Nosso lar, nossas aspirações, nossos ideias podem pertencer a um mundo geografica e temporalmente distante. Ou podemos ser contrariados por esporte, porque alguns se divertem em enfraquecer os outros. Nesse caso, independente do que se deseje, o mundo lhe dirá que está errado. Ser teimoso, então, torna-se uma questão de sobrevivência, uma afirmação da própria individualidade. Quem, nesse mundo difícil, tem encontrado suave acolhida aos seus desejos? Teimosia é um pecado que todos nós, em algum momento, nos vemos obrigados a cometer.

Só não terminarei o post com um “Teimosos de todo mundo, uni-vos!” porque quem sou eu para dizer o que os teimosos devem fazer. Eles só vão se unir se lhes der na telha.