Uma historinha já previamente descontextualizada

princesa

Tenho quatro anos de diferença do meu irmão mais velho. Minha mãe contava umas histórias espíritas para ele – assim como outras tantas, tradicionais, modernas, de memória de livros, ela nos contava muitas histórias. Ela contava pra ele e eu estava por ali, brincando. Aí quando ela resolveu que eu tinha idade pra ouvir, eu achei ruim que entre uma “contada” e outra, ela tinha esquecido de detalhes e eu lembrava deles. “Então você estava fingindo que estava brincando e estava ouvindo tudo?”. “Sim”.

Era um homem muito mau e muito poderoso. Ele ficou a fim de uma mulher, que já era casada. Ele mandou prender o marido dela e disse que só devolveria se ela dormisse com ele. Ela cumpriu a parte dela no acordo, mas ele achou pouco apenas devolver e mandou furar os olhos do marido. Quando chegou a hora de entregar o marido para a moça, ele ficou escondido para ver e dar risada. Achou que ela ia xingar, esbravejar. A moça viu o marido cego e apenas ficou triste e o acolheu com todo carinho. Eu sempre imaginei o homem mau atrás da moita, a câmera por detrás do ombro dele. A moça se ajoelha e ajuda o marido a se erguer, e eles saem juntos pelo pátio de pedra, ela o abraça pelos ombros. Lágrimas silenciosas descem pelo rosto dela. O homem mau não consegue dar risada. Naquele momento surgiu a primeira luzinha de bondade dentro dele.

Um beijo a todos que também estão tristes e abraçados na sua ferida.

Anúncios