Não existe mais o Museu Nacional do Rio de Janeiro

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Grande parte da nossa população não entende o peso da perda de um museu. É só pensar na histeria em torno na exposição Queer e a tal performance “incestuosa”. E a parte do país que entende, é elitista demais pra querer educar a outra parte – mais do que isso, tem feito de tudo para reduzi-la à subsistência. Tem dias que é duro demais.

Vai lá, vota em candidato que não quer ter nem Ministério da Cultura.

José falava francês

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… e inglês também. Ele fazia engenharia na UFRJ, ótimo em cálculo, um grande futuro pela frente. Mas os comunas ingenuamente pensavam que podiam falar francês pelo telefone que a tigrada não ia rastrear. Um dia parou uma viatura em frente de casa, os policiais levaram José. Ele sabia francês e o Serviço Nacional de Informação precisava de gente que ouvisse telefonemas em francês. Ele tinha que ouvir, transcrever, dizer onde eram os encontros. Não era um convite. A qualquer hora do dia ou da noite eles apareciam e levavam José. Ele passou a ver olhares assustados, ouvia os gritos por detrás de portas entreabertas, corpos sendo carregados. Tinha uma sala que a pessoa dava um passo para entrar e já caía numa piscina imunda e se ficava horas no escuro, trancada, gelada. Todo dia alguém apanhava, quer precisasse ou não, porque eles precisavam, estavam viciados. José se sentia muito mal, não queria fazer parte daquilo e pediu para que o liberassem, jurou que não abriria a boca. Logo nos primeiros dias da nova liberdade estava com a sua noiva na rua, um carro surgiu do nada e foi com tudo pra cima dela. Ela não conseguiu se salvar. Isso sem falar no carro parado em frente de casa, gente seguindo a mãe, telefonemas sem ninguém na linha. José voltou.

Tragédia grega

Tenho minhas dúvidas sobre a existência de um Deus, e mesmo que ele exista, tenho certeza que não perde tempo controlando cada folha que cai no chão. Acredito que aqui e acolá temos a chance de mudar de vida – uma decisão minha pode fazer a diferença entre entrar para o circo ou trabalhar num banco, de ter uma vida longa ou morrer numa passeata. Ao mesmo tempo, nenhuma das minhas decisões poderia ter me tornado esposa do George Clooney. As escolhas são feitas dentro de uma esfera limitada de ação, como se fosse um círculo imaginário com pouco mais de um metro de diâmetro. Se eu quiser terminar a minha vida no Afeganistão, terei que ir muitos metros para o Oriente, tomar muitas pequenas decisões na mesma direção, tantas que talvez seja impossível. Já se eu morasse ou nascesse no Tajiquistão, seria muito mais fácil. Acredito que a vida se faz de pequenas decisões pequenas e idiossincráticas, quase sempre previsíveis. Decisões, muitas decisões. Talvez justamente por acreditar em decisões, o sentimento que tive em alguns momentos da vida – o de ser como um personagem de uma Tragédia Grega – me parece assustador.
Há um ditado grego que diz “o destino conduz a quem consente. A quem não consente, ele arrasta”. Por mais que eu não acredite em destino, tenho que reconhecer que em alguns momentos me sinto conduzida. As coisas podem acontecer em momentos exatos, ter uma série de coincidências, sequencias de acontecimentos totalmente improváveis. Pior, acontecer no dia preciso. Se acontecesse um dia antes, ou um dia depois, a sua atitude seria diferente. Quando as coisas acontecem assim, a gente vira à direita, à esquerda, à direita de novo, anda alguns metros para frente, e quando se dá conta está onde nunca pensou que estaria. Ou nunca desejou estar. Como se fôssemos um personagem duma tragédia grega – a quem não consente o destino arrasta, esqueceu? Às vezes o destino da pessoa é comer a própria mãe. O pior de tudo é que, nas tragédias gregas, é quanto mais a gente foge do destino, mais o cumpre.

Os fios

No Cidades Invisíveis descreve uma cidade onde os moradores colocavam fios que os uniam a outros moradores, de cores diferentes, de acordo com seus laços. Interessante pensar que para os místicos todos que se relacionam estão unidos por fios, como cordões umbilicais. Existe também uma teoria que indica número de pessoas, não sei de cinco ou seis, que é o número de conhecidos pela qual estamos ligados a qualquer pessoa do mundo. Às vezes, confesso, acho esses fios tão sufocantes que tenho vontade de cortar todos, de fugir. Um dia fiz um mapa de fios, de todas as pessoas que eu tinha em comum com o Luiz antes de conhecê-lo, e lembro que era tanta gente que a surpresa foi demorarmos tanto tempo para nos encontrar. Estamos todos emaranhados, todos enrolados. A pessoa que viaja muito, que fica fora do país, se emaranha de um jeito que sempre fica numa posição de saudades, porque aqui ou lá há fios demais, algum sempre precisará ficar esticado. E a internet fez isso também. Mesmo sem ver, mesmo que alguns classifiquem essa experiência como superficial, temos fios com todo país, com o resto do mundo. Lugares que eu nem conheço agora têm um nome, têm alguém especial vivendo. Já tínhamos conexões, na verdade sempre tivemos, só que agora é claro, imediato. Os religiosos diriam: somos todos irmãos. Um biólogo concordaria, ainda que por caminhos totalmente diferentes. O fato é que temos mesmo um laço, que o acontece ali não é apenas ali, mexe comigo porque temos uma conexão. Somos uma rede, todos nós. 

***

Eu não conhecia uma única pessoa que morreu em Santa Maria. Quando o Luiz leu a notícia de manhã – que ainda era muito vaga – e falou em Santa Maria, minha primeira reação foi dizer: “A terra da Nikelen e do Farinatti?”. Quando comecei a ler a ter noção do que estava acontecendo, a morte de tantos jovens, fiz outra associação: pensei na Xu, filha da minha amiga Suzi. As duas são de Curitiba, em nenhum momento a Xu passou qualquer risco. De manhã, a Suzi postou uma foto da Xu mostrando um colar, toda exibida. A legenda dizia: “Minha modelo preferida mostrando o próximo colar”. Embaixo, a própria Xu escreveu: “Apaga isso”. Suzi: “Num apago”. Minutos depois a foto tinha sumido, acho que a Xu foi no computador da mãe e apagou. Coisa banal, brincadeira de mãe e filha, que adquire ares de privilégio quando penso no que aconteceu. A Xu é universitária, linda e cheia de amigos, bem que podia estar lá. E a Suzi, uma pessoa tão maravilhosa e que lutou tanto para criar os filhos, poderia ser uma dessas mães que choram agora. Eu não conheço nenhuma das mães que choram agora mas os fios que me unem a elas e aos filhos delas foram violentamente cortados.

Vizinhos

Dizer que todo mundo em Curitiba conhece alguém em Santa Catarina não corresponde exatamente à realidade – todo mundo em Curitiba tem parentes, amigos, histórias e conhece Santa Catarina. Assim como pessoas que moram em outras regiões sonham em se mudar pra Curitiba, o sonho do curitibano é se mudar pra Florianópolis. Por tudo isso, se essa tragédia fosse em Mato Grosso ou São Paulo, ela não pareceria tão daqui do lado.