Caixa de correio

caixa de correio

“O problema deste modelo é que ele é tão bom, a abertura tão generosa, que o carteiro deixa boa parte da correspondência da vizinhança na minha casa”, eu disse para a vendedora. Eu tinha em casa a mesma caixa de correio de quando me mudei, ou seja, pra lá de dez anos. Naquela manhã me deu vergonha e a decisão urgente de comprar outra. Ela estava horrível faz tempo, manchada, e com os parafusos que a prendiam no portão todos soltos e enferrujados. Ela ia escorregando para baixo a cada carta que enfiavam. Aí eu a puxava pra cima, arrastando. Me acontece disso, talvez com todo mundo, de ficar com uma coisa feia em casa e não me incomodar, dizer que arrumo quando tiver uma sobra, e um belo dia achar que aquilo é insustentável. Fui numa loja pequena de material de construção, tinha seis modelos e foram longos minutos de indecisão. A questão é que no modelo que eu tinha, de plástico amarelo, a abertura fica no topo, e tudo podia ser enfiado ali sem dobrar. Mas peguei raiva, não queria trocar a velha por uma nova, queria que a troca de caixa de correio também fosse um marco: troquei, comprei sozinha, nova fase, etc. Comprei a mais cara, de metal, maior do que a anterior, só que a abertura é uma janelinha na frente – como ela fica encaixada atrás do portão, fica obstruída pela grande. O carteiro não vai gostar, eu pensei.

Quando trouxe a nova caixa para casa, vi que a vizinhança, ao longo desses anos, já havia trocado suas caixas, que agora eram quase todas do modelo amarelo de plástico com abertura grande. A exceção é justamente minha vizinha louca, que tem uma de metal com abertura frontal também. Depois de colocar minha caixa nova, fiquei igual Odorico Paraguaçu: o carteiro a semana inteira sem dar as caras. Quando apareceu, não fui na janela mas acompanhei auditivamente: a moto parada com motor ligado, a espera dele vasculhando o bolo de cartas, o barulho do metal da janelinha, o portão chacoalhar, barulho, mais barulho, portinhola de metal batendo, a moto indo embora. Quando peguei minha correspondência, o envelope em tamanho A4 estava dobrando raivosamente em três pedaços. O carteiro não gostou, mas é de metal, nova e minha.

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Coisas antigas

Uma das minhas peças mais antigas, em terracota.
Por causa de uma reportagem na TV, com meu ex-professor de escultura, andei fuxicando no FB e descobri que minhas antigas colegas de atelier ainda estão lá. Iguais, apenas mais velhas. Olhei para elas e tudo o que vivemos juntas voltou, o fazer escultura voltou: pensar sobre a próxima peça, montar uma estrutura, pesquisar, o trabalho braçal de fazer e tirar o molde, e escolha do material de acordo com o orçamento, a ausência de perspectiva de um dia vender o trabalho. Eu esculpia muito rápido e isso tornava tudo ainda pior. Lembro do cheiro do atelier, da umidade, da maneira como o tempo parava quando estávamos lá dentro. O atelier tinha algo que nos puxava, como um buraco negro, como uma dimensão fora do tempo. É como se elas tivessem ficado aprisionadas lá dentro. Fico feliz de ter fugido, eu vivi intensamente essa última década. Se estivesse lá, estaria ouvindo as mesmas piadas, vivendo as mesmas picuinhas.

 

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Quando alguém me pergunta de uma das minhas esculturas, digo que fiz em uma outra encarnação. Não há maneira melhor de definir meu sentimento com relação a certas coisas do meu passado, que foram tão importantes, tão intensas, mas que nada dizem respeito ao meu presente. Não tenho saudades e nem amargura, são coisas da minha encarnação passada.

 

Recebi uma notificação do correio pra pegar uma encomenda e pagar mais de cem reais, e levo um susto achando que é uma das minhas compras do Ali. Aí o Luiz me explica que o pacote é dele. Por causa de uns parangolés, ele fazia encomendas no meu nome e essa é uma delas. Ele me pediu meu RG e CPF pra poder pegar o pacote pelo correio em meu nome. Veja bem, RG e CPF, documentos importantíssimos. Sorte que ainda nos damos muito bem.

– Quantos pacotes em meu nome ainda vão chegar?
– Tem esse e depois mais uns três.
– Três!?
– Eu não tenho culpa se o correio demora tanto. São encomendas que fiz antes de janeiro.

Eu já desconfiava: janeiro de 2014 também é encarnação anterior.

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Temos nos aventurado por aí, eu e minha Drogon. O nome dela acabou se mostrando muito adequado, porque eu tinha a expectativa de pendurar a bicicleta na sala – acho tão legal, tão decorativo! – e descobri o porquê de bicicletas leves no mercado. Eu não consigo erguer a minha bicicleta, quanto mais pendurar numa parede. Ela realmente é um dragão.

 

Dizer que temos dados voltinhas não é muito exato, o que temos feito é o trajeto que pretendo fazer de bicicleta no futuro, pra ver se meu corpo acostuma. As distâncias não são o problema e sim o fato de que eu moro num lugar alto. Pra sair de casa é tranquilo, pura descida. Pra voltar… Eu volto – esbaforida e querendo chamar uma ambulância, mas volto. Só que depois, lá por umas 19h, estou imprestável.

 

Um efeito colateral inesperado, o único motivo pela qual estou tocando no assunto neste post: tenho feito muito cocô. E não é só isso: uns cocôs fedidos. Tenho certeza que não são resíduos recentes. Quem diria que mesmo andando, nadando e sapateando, um exercício diferente tiraria de dentro de mim umas sujeiras pré-históricas.

Uma pequena amostra de arrogância

Eu fui no correio buscar uma encomenda que foi taxada pela Receita Federal. Milagrosamente, cheguei lá e não tinha ninguém. Fui para o balcão do canto e a moça saiu para buscar meu pacote. No balcão ao lado, outra funcionária tinha dois catálogos, cheios de produtos de beleza, coisas para casa, livros, etc. Vejo a cena e penso comigo:
– Esses catálogos servem mesmo às classes emergentes, ou pessoas de outras gerações. A minha geração já está mais habituada com sites e com o tempo essas revistas se tornarão obsoletas. Os catálogos ainda são produzidos para pessoas que como ela não tem intimidade com a internet, ou ainda têm receio de fazer compras on line. Com o tempo, todos serão como eu e deixarão de ver essas revistinhas porque…
Nisso, volta a funcionária com o meu pacote. Ela se vira para a amiga e diz:
– Você já entrou no Ali Express? Cada coisa! Tudo muito barato, tem de tudo. Eu já encomendei uma bolsa com a Fulana. Disse pra ela só pedir duas, pra a Receita não achar que é pra vender e taxar.
Minha cara foi parar na chón.

Cartas

Nesses dias de calor, assim que chego em casa gosto de tirar quase tudo. A rua é tranqüila e não sou especialmente neurótica pra achar que meus vizinhos vão se esforçar pra ver isso, porque eles realmente teriam que se esforçar. Enfim, estou bem protegida e fresquinha. Meu único problema é o carteiro. De vez em quando tem que assinar alguma coisa, e é um deus-nos-acuda pra colocar uma roupa. Pelo menos pra poder aparecer na janela e dizer que já vou.

 

Talvez fosse mais prático andar pela casa menos fresquinha e pronta pra qualquer situação. Mas ser prático não combina com estar em casa.

Correspondência amorosa

Eu sei que o que eu vou contar é patético, mas por favor não riam. Muito.

Assim que eu casei, esse negócio de receber cartas e encomendas sempre foi um problema. O Luiz fica fora o dia inteiro, eu sempre tive horários muito irregulares e nós não temos contato com os nossos vizinhos. Por causa da Dúnia, tive que parar de receber assinatura de revistas. Sempre que a gente precisava receber alguma coisa, tinhamos que marcar pro sábado. Ou quando era alguma coisa que precisava de assinatura, a gente esperava mais de um mês, pra daí receber uma cartinha avisando que o carteiro tinha feito 3 tentativas (às 12:00, às 11:45 e às 12:05. Se viu que ninguém almoça em casa, por que não tenta outro horário, pô?) e ter que passar no correio (que fica longe) e pegar.

No ano passado, desempregada, esse problema ficou resolvido. À tarde eu estava sempre aqui. Só tinha que ficar atenta à Dúnia, porque a gente desinstalou a campainha e eu só sei que tem alguém lá na frente quando ela começa a latir. Aí eu acordava descabelada, colocava alguma roupa e ia receber o carteiro.

Foi aí que começou. Não sei se a culpa foi a falta da aliança, mas o fato é que o sujeitinho começou a querer puxar papo comigo. A falar da campainha, do tempo, a ser simpático. O que eu poderia fazer? Não podia mandar tomar naquele lugar porque fiquei com medo de nunca mais receber cartas! Fiquei atenta ao horário (16h), coloquei a aliança, rosnava e colocava toda a minha frieza mal aprendida com esses anos de Curitiba. Não adiantou muito. Meu carteiro me chama pelo nome. Um dia estava passeando com a Dúnia no campinho de futebol e ele foi lá me entregar as cartas.

Esse ano eu comecei a dança e agora volto pra casa no fim da tarde. E não é que um dia ele me viu chegando às 16:30 (“você sumiu…”) e desconfiou do meu novo horário? Hoje estava entrando em casa pra lá das 17 e recebi minha carta registrada. =/