Nimbus

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O acúmulo de informações faz com que não sejamos mais quem éramos antes, ou seja, há uma parte inevitável de conhecimento – será que dá pra chamar de sabedoria? – que o tempo nos traz. O problema é que converter a informação em ação é outra coisa. Muitas vezes, eu me sinto apenas o Nostradamus português – “vou a escorregaire naquela casca de banana!” Às vezes saber é tão inútil quanto assistir as nuvens escurecerem. Vai chover, dizemos, e a natureza segue em frente.

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Uma irritação anti-clerical

Isaac Newton, no século XVIII, trancado no seu quarto, teve insights transformados em teorias que ainda hoje poucos são capazes de entender. Sobre pretender ter outros insights desse nível, melhor nem falar. Isaac Newton, tão ser humano quanto nós, só que com acesso a menos informação e quem sabe até menos nutrientes. Mas aí se o assunto é Deus, nego não apenas tem certeza da existência, dos objetivos e dos planos, como pode até dizer a preferência Dele com relação ao comprimento das saias.

vida de pecado

Caminhante

Eu havia saído cedo de casa, e cheguei até mesmo a segurar o guarda-chuva nas mãos. Mas no dia anterior a temperatura havia caído cerca de dez graus, o que me fez voltar para casa batendo os dentes de frio. Pela lógica – lógica do otimismo, claro – achei que a temperatura não cairia absurdamente e choveria ao mesmo tempo. Então, saí apenas agasalhada. Quando voltava no meio da manhã, a chuva forte me pegou desde a saída do ônibus.

 

Parei na padaria que tem no meio do caminho. Naquela padaria eu almoço, eu combino café com amigos, eu compro guloseimas, faço de tudo um pouco, a única coisa que eu não gosto de fazer lá é comprar pão. Todos os funcionários me conhecem de vista e eu a eles. Tenho inclusive acompanhado o engordamento sem fim da gerente, que quando chegou era magrinha e já subiu uns três números no manequim. Nas caixas há mais rotatividade, e tem uma que me chama atenção por ter um ar inteligente. Foi essa caixa, a inteligente, que me atendeu naquele dia.

(caixa) Oi, tudo bem?
(eu) Tudo. Fora o frio e a chuva, tudo bem.

(caixa) É, pra alguém como você que gosta muito de andar, deve ser ruim mesmo.

 

Apesar de não ter demonstrado, eu levei um susto. De onde ela sabia que eu gostava de andar? Se ela tivesse usado o termo “caminhante”, já atribuiria ao blog. Não era por estar sempre lá, porque eles sabiam que eu morava por perto. Ela me disse isso com um olhar significativo, de quem sabe que isso gera a pergunta inevitável:

– Como é que você sabe?

Aí ela me contaria, vitoriosa, que me viu andando sei lá aonde. Pensei num trajeto específico bem longo que faço umas três vezes por semana. Em alguma daquelas janelas, dentre tantos prédios, estaria ela, me observando? Eu queria saber. Poderia ter sido outra pessoa, qualquer um dos outros funcionários, que me viu e contou. Mas como e por que os funcionários conversariam a meu respeito? E se o fazem, eu sou conhecida como: “aquela que vem sempre aqui”, “aquela que conversa com todo mundo”, “a que compra todo nosso estoque de queijo minas”?

 

Uma vez os Thundercats pegaram alguma coisa do Mun-ra e impuseram umas condições para que eles tivessem a tal coisa de volta. Todos pensaram que ou Mun-ra aceitaria os termos – o que seria improvável, pois um vilão tem um nome a ser preservado – ou tentaria atacá-los. Um dos vilões pergunta a Mun-ra qual das duas coisas eles fariam. Ele respondeu: “Nunca faça o que seus inimigos esperam” – e mandou um falso emissário, pra aí sim fazer o ataque, de surpresa.

Eu não tenho (acho) inimigos, mas tal como Mun-ra, não gosto de fazer o que os outros esperam. Por isso não perguntei. Eu disse que realmente, para quem anda muito, quando está chovendo é foda.

Agora ficamos eu e todos para quem contei essa história na curiosidade. Pensei em perguntar quando finalmente reencontrasse a moça, o que aconteceu quando voltei na padaria menos de vinte e quatro horas depois. Ela me atendeu sem me dar bola. Acho que ficou irritada com a isca que eu não mordi. Paciência.