Pensem nas crianças

Na minha infância, nos anos 80, o maior símbolo de miséria, a condição absoluta de falta, eram as imagens das crianças africanas. Elas nos olhavam naquelas fotos com olhos imensos e ossos saltados. Procurei fotos dessas pra ilustrar o post e nem consegui selecionar, é realmente muito chocante. Quando eu, criança, fazia alguma birra, achava ruim não ter alguma coisa ou reclamava da comida, minha mãe me jogava na cara as crianças africanas – Você reclamando que não gosta do feijão, enquanto as crianças da África…. Eu ficava louca da vida, claro. Nada a ver apelar para crianças da África, tão distantes de mim e do meu feijão.

Não sei se é efeito tardio do que a minha mãe queria fazer ou se é algo próprio da maturidade, mas eu agora eu penso nelas. Penso nas circunstâncias totalmente aleatórias que fazem uns terem tudo e outros não terem nada, de uns voltarem tranquilos para casa e outros não. Quando meus sofrimentos me parecem demais, quando parece que sou a criatura que mais sofre na Terra, eu vejo jornal e penso naqueles que tem problemas muito maiores. Penso nos que perderam tudo, penso nas vítimas de violência, penso nos problemas sem solução. E digo: pára de sofrer com besteira, sua ingrata.