Todo mundo não existe

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Aprendi isso em terapia: todo mundo não existe. A não ser que você tenha tido um vídeo íntimo vazado e esteja sofrendo de bullying em cadeia nacional, não existe o “todo mundo” que pensa ou sente algo a teu respeito. Os funcionários da padaria, o pessoal do ponto de ônibus, o motorista do carro ao lado, ou seja, pra maioria da população você nem ao menos existe. Aí você diminui para as poucas pessoas com quem convive, elimina as que não estão envolvidas na situação, coloca também aquelas que te amam e estão do seu lado, corta de um lado e corta de outro e acaba descobrindo que o tal “todo mundo” se reduz a um círculo muito pequeno de pessoas, às vezes nem isso. Pode ser que seja apenas uma pessoa e ela seja tão poderosa que o seu juízo pese mais do que “todo mundo”. Um conselho fácil de dar e às vezes difícil de aplicar: não dê poder a quem te fere.

Siddhis

Na minha infância/adolescência, quando comecei a ler sobre yoga, soube que existiam siddhis. Siddhis são o que poderíamos traduzir por poderes. Com o desenvolvimento promovido pela prática espiritual, o yogui despertaria as capacidades latentes de seu corpo. Seria o despertar daquele pedação de cérebro inútil que todos nós temos. Então coisas como telepatia, conhecimento do universo, força descomunal e outras coisas “mágicas” seriam possíveis. Eu me perguntava, se pudesse escolher, que siddhi eu gostaria? Há controvérsias sobre esse assunto – para alguns os siddhis viriam de práticas específicas, para outros seriam o resultado do karma; os siddhis poderiam vir de acordo com nosso temperamento, sozinhos, ou como um trabalho para desenvolver aquele tipo de poder. De qualquer forma, pensar nisso é meio como pensar que X-Men a gente gostaria de ser. Sobre o meu siddhi preferido, a resposta veio cristalina: o que eu gostaria era que os bichos se aproximassem de mim sem medo, tal como São Francisco de Assis. Eu sempre achei fascinante pensar que os bichos se aproximavam dele sem que ele precisasse chamar ou domesticar, especialmente os passarinhos. Seria fabuloso se um passarinho, ao invés de sair voando quando me vê me aproximar a metros de distância, resolvesse se aproximar e pousar no meu ombro. Depois soube que isso não pode ser considerado um siddhi, isso não é um poder. É um sinal de iluminação, de que a alma se tornou tão pura, tão não-agressiva, que os animais sentem paz perto de tal pessoa e sabem que podem se aproximar.
Continua sendo a coisa mais bonita para se desejar ser.

Forças malévolas

Uma vez uma amiga me falou do poder da inveja. Ela morava em Curitiba mas era originária do nordeste, só ela morava aqui. Ela contou para a mãe que arranjou um ótimo emprego, depois de meses de procura. A mãe comentou o fato com uma ex-amiga de infância dessa minha amiga. Foi a tal da ex de infância saber das boas novas que a minha amiga caiu gravemente doente. “Nem todo mundo acredita, muita gente acha que é besteira, diria que é coincidência, mas não foi, foi a inveja.” Ela me contou isso sabendo que eu a desmentiria, que não sou dessas que procura argumentos científicos para tudo. O que eu omiti, se fosse para falar sinceramente, é que, mais do que inveja, tudo isso aconteceu porque ela dá um poder enorme ao que pensa e sente a tal da ex-amiga.
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Tenho uma teoria meio dura sobre ser uma fonte do mal. Existem aqueles sacanas por natureza, que escolhem fazer mal aos outros. Aquele que poderia ficar quieto no canto dele e opta por prejudicar os outros. Isso nem se discute. Mas existem os outros, todos nós, que nos achamos muito melhores do que somos. Que nem tomamos consciência dos nossos atos invejosos. Eu acredito que tudo aquilo que não foi trabalhado na gente nos torna maus. Tudo mesmo. Se você se acha feio, será fonte de maldade e inveja diante de todos aqueles que te parecem bonitos. Se não está feliz na profissão, se incomodará com todos aqueles felizes na profissão, e por aí vai. É humano, nós não conseguimos oferecer aquilo que sentimos que nos falta. É como querer que o chefe nos dê de mão beijada o cargo que ele sempre quis, que a amiga nos apresente ao seu amigo mais bonito quando ela mesma está encalhada, é como esperar que o que sempre teve resultados medíocres nos leve para o topo. Simplesmente não dá, é pedir demais.
Por isso que eu acho que pra tudo a gente tem que correr atrás, tem que tentar, tem que fazer com gosto. Pra não sair por aí espalhando o mal sem saber.

Poder

Quando meu ex-orientador me sacaneou, algumas pessoas me disseram que eu deveria ter ido lá, perguntar o que havia acontecido. Há uma crença generalizada de que tudo deve ser perguntado, falado, esmiuçado. Eu não a compartilho. Sempre fui a favor do adeus sem explicações, porque ouvir desculpas esdrúxulas me deixa com mais raiva ainda. Seja lá o que meu ex-orientador me dissesse – “não tive nada a ver com isso”, “ano que vem você entra”, ou o totalmente improvável “desculpe” -, nada iria mudar o fato de que eu comprometi um ano da minha vida para algo que não aconteceu. E que não tinha nenhum plano B para os anos seguintes. Mas o que realmente fez com que eu não o procurasse, é por ter ouvido dele a seguinte história:

Uma vez eu tinha uma orientada que não estava fazendo o que eu queria. Eu disse pra ela escrever um capítulo de um jeito, e ela insistia em escrever de outro. O trabalho estava ficando pronto, eu insistia, e nada dela fazer o que eu mandei. Aí chegou a época da qualificação, e eu falei para as professoras convidadas mandarem ela fazer aquela modificação que eu havia mandado. As professoras falaram e nada. Até que nós dois quebramos o pau, ela não querendo fazer o capítulo e eu disse que ela tinha que fazer, porque:
– Acho que esse mestrado é importante pra você, não é? Porque se não for, você pode ir embora. Você é apenas uma linha no meu currículo. Pra mim tanto faz que você continue ou não, mas acho que pra você é mais, não? Então é melhor você fazer o que estou dizendo.

Às vezes chega coberta de chantilly, mas a essência é essa.

Poderes

O que não falta na minha família é gente que se acha phoda, e quando meu irmão André sofreu acidente começou o festival de contatos. Começaram a importunar todos os amigos, conhecidos ou ex-colegas que eram sobrinhos ou amantes de alguém, que era médico e que podia fazer alguma coisa pelo meu irmão no hospital. Todo mundo muito importante, só na carteirada. Como resultado, na primeira vez que fiquei frente à frente com o médico do André, o cara me deu bronca e me disse que eu poderia levar meu irmão pra outra UTI se quisesse. Depois dessa bronca recebi muitas outras, dele e dos outros médicos; pedi desculpas tantas vezes por coisas que ignorava que eles acabaram percebendo que eu não estava compactuando com aquilo. Os colegas de faculdade do André também tentaram ajudar, falando com uma colega cujo pai trabalhava no mesmo hospital, acho que na pediatria. Como resultado, esse gentil homem veio com outra médica, me trouxe até o corredor e disse num volume muito alto que ele não tinha nada a ver com outros setores e que não interferiria no trabalho dos seus colegas. E eu mais uma vez fui obrigada a pedir desculpas.

De todas as influências, a única coisa que realmente ajudou foi o apelo que minha mãe fez à moça que cuidava dos internamentos. Pelo nosso plano de saúde, meu irmão tinha direito a um quarto na enfermaria. Nas enfermarias, havia apenas uma poltrona para o acompanhante se sentar. Meu irmão não tinha consciência, não dormia, se debatia e precisava ser contido o tempo todo. Essa mulher ficou sensibilizada e nos colocou num quarto que constava como enfermaria no sistema, mas que na prática tinha apenas um leito e um sofá de três lugares bem confortável.