Samantha

Uns amigos do meu pai compraram um terreno grande, dividiram em quatro e fizeram um condomínio. Até hoje minha família tem laços por ali. Meu pai não entrou por pouco, e minha mãe deu graças a Deus. Vivíamos por ali. Um desses amigos tinha duas filhas, e a Samantha era da minha idade. Como meus pais ainda estavam casados, eu tinha por volta de cinco anos. Nessa fase, é muito raro as crianças não se darem bem e eu e a Samantha passamos aquele dia inteiro juntas, lembro que quando fui embora já estava escuro.
Não sei o que levou à conversa, mas a Samantha ficou sabendo que eu tinha medo de sapo. O tal condomínio era cercado de mato, então eles tinham muito mais contato com a natureza e seus bichos do que eu estava acostumada. Ela começou a me contar de muitos eventos envolvendo sapos: de como sua mãe foi tomar banho e tinha um sapo no boxe, de sair do quarto de manhã e encontrar um sapo, de ter sapos na cozinha. Eu ouvia tudo com um terror crescente. Aí antes de entrar no carro, depois de um dia inteiro juntos, a Samantha me disse, rindo, que todas aquelas histórias sobre sapo eram mentira. Ela não resistiu às minhas caras de medo ou nojo e passou a tarde inteira inventando histórias.
É, as histórias eram exageradas, mas eu simplesmente não pensei em colocar em dúvida. Até então, eu jamais podia imaginar que alguém pudesse contar mentiras pelo simples prazer de contar. Fiquei feliz quando seus pais se separaram e foram embora pra nunca mais voltar.

Metáfora do sapo

Eu jurava que já havia citado isso por aqui. Não sei se a história é verdadeira, eu não teria coragem de pegar um sapo pra testar. Mas como metáfora é excelente:
Se você pega um sapo e joga ele numa panela com água quente, ele pula pra fora rapidinho. Mas, se ao invés de jogar o sapo direto na água quente, você o coloca na água fria e coloca essa panela no fogo, ele morre lá dentro. A temperatura subirá gradualmente a o sapo se acostumará a ela. Quando perceber – se é que percebe – já é tarde demais, o sapo já cozinhou lá dentro.
Essa metáfora é muito boa para entender como funcionamos em muitas situações. Quantas coisas que se nos dissessem que faríamos, responderíamos na hora: Eu? Nunca, eu jamais aceitaria um absurdo desses. Só que entramos na situação de mansinho, ajustando dali e cedendo acolá, e quando nos damos conta… já estamos fervidos dentro d´água.

Sapo cantor

Nossa, fiquei muito emocionada quando encontrei esse video! Durante anos eu o procurei, falei nele, me lembrei dele!

Quando eu era criança, achava a história engraçadinha, como todo mundo. Depois, a coisa começou a me fascinar. Eu comecei a me espelhar nela, comecei a me identificar… com o sapo. Todos os meus terapeutas – oficiais ou não – ouviram falar desse desenho. Ele ilustrava o quanto privadamente eu era uma coisa e a minha timidez me impedia de mostrar isso. Mais tarde, quando consegui controlar a minha timidez, o sapo passou a ilustrar o quanto as pessoas que me conhecem bem sabem o quanto sou boa no que faço, mas eu tenho uma baita dificuldade de assumir isso, de me valorizar, de projetar o meu trabalho no mundo. Tem gente que me conhece há anos e não sabe que eu sou escultora…

Sim, eu tenho uma relação agridoce com esse desenho. Espero que um dia ele deixe de ser uma metáfora, e volte a ser apenas uma lembrança.

Manhã péssima II

Tento um alívio que não vem. Engolir sapo sem ter como reagir é péssimo. Não, não tenho como mandar no cu, como me foi sugerido. Tenho vontade de ouvir uma palavra de consolo que não existe. Tento um prazer que sempre foge- o chocolate é insuficiente, a demonstração de afeto é insuficiente, a massagem é insuficiente, brincar com o cachorro é insuficiente.

Começo a duvidar se sou uma pessoa legal, se afetos que me pareciam certos realmente existem. Tenho vontade de arrancar confissões, quer dizer, de que me adivinhem o desejo de ouvir elogios. Quando os arranco, eles não me satisfazem porque foram arrancados e duvido da sinceridade dos que disseram. Sou um poço sem fundo, com desejos irrealizáveis, porque nada disso muda nada. Estou insuportável até para mim mesma.

Nada muda isso: estou subordinada a alguém que me detesta sem motivo e usa o poder que tem para me prejudicar. E cabe a mim fazer o melhor, sabendo de antemão que vou ser avaliada de uma maneira dura e injusta. Que devo engolir calada até o fim do ano. Que vou dar tudo de mim, apenas para sobreviver. É duro.