A beleza do entorno

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Acredito que a beleza tenha propriedades mágicas, que seja uma busca tão básica do ser humano como se alimentar e amar. Colo aqui um texto que escrevi em 25/abril/2016, chamado Beleza x Função:

Quando dizem que sem a beleza o mundo pode existir perfeitamente, as pessoas mais “de humanas” costumam ficar sem saber o que responder. A minha resposta é: cite ou me mostre, em qualquer tempo ou lugar, uma civilização onde as coisas sejam só funcionais. Onde a construção seja apenas uma cobertura, o caminho seja apenas um amontoado pra pisar. Mesmo da mais simplória das civilizações, já viu um vasinho que seja apenas um oco sem cor, sem simetria, sem textura? Não existe essa data anterior à beleza, a fase do funcional puro, onde apenas a partir daí começa a preocupação com o luxo que é fazer as coisas serem bonitas. Nós queremos mais. Sempre que possível, o homem tenta tornar o que o cerca belo e especial.

Acredito que a bandeira do belo é tão ou mais importante quanto a bandeira dos acadêmicos. Mesmo no meio da guerra (li há pouco A guerra não tem rosto de mulher) o ser humano não deixa de procurar a beleza, de ser subitamente arrebatado por ela, ser tocado de esperança na presença dela. O simples estar num lugar feio ou bonito nos afeta, mesmo que se feche os olhos, mesmo que se diga a si mesmo que é assim. Nesse “é assim” cabe tanta coisa, tanta injustiça. A pobreza é feia – feia na roupa, feia no corpo, feia na casa, feia na rua. Quando a coisa é feita com o que dá, com o que sobra, fica difícil deixar bonito. Vejo os programas de decoração, as transformações, e ninguém fica indiferente à sensação de viver num ambiente bonito, de ter orgulho de onde você está. Pena que isso não é – ainda? – considerado um direito inalienável do ser humano.

O engenheiro de obras do Niemeyer

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Meu pai é engenheiro e meu irmão é arquiteto. Esse meu irmão me ensinou a apreciar o trabalho de Niemeyer, a radicalidade do seu trabalho que não se parece com mais nada, nem com seu entorno. Meu pai diz que a questão não é o Niemeyer e sim o engenheiro de obras do Niemeyer. O Niemeyer desenha a curva fabulosa e é o engenheiro que tem que fazer o cálculo de como tornar aquela curva viável, resistente, usável. Voltei esse comentário com o meu irmão, que rebateu:

É verdade. Mas se depender do engenheiro ele faz uma reta e pronto, faz tudo reto. É o Niemeyer que joga pra frente, que obriga a fazer o que de outra forma ele jamais faria na vida. Niemeyer lança o desafio e o engenheiro tem que correr atrás.

Vocês viram This is it? Viram documentários sobre o Darcy Ribeiro? Trabalhar com gente assim dói no lombo e é bão.

Um pequeno detalhe

Eu gosto de ambientes bonitos, sabe? Tanto que tive assinatura de Casa Claudia durante anos, na ilusão de que isso me tornaria capaz de ter uma casa casa feito pelo Rosenbaum só de visitar a Leroy Merlin e praticar bricolagem. Aí eu percebi que tudo ficava lindo diante de um janelão com vista para um jardim temático, e passei a me interessar por revistas de Arquitetura & Construção. Adoro lojas de material de construção, adoro ver porcelanas. Passeio por esses lugares e escolho linhas de metais para banheiros que jamais usarei. Já fiz vários projetos mirabolantes para a minha própria casa, e todos ficaram lindos na minha imaginação. Essas coisas todas me fazem dizer que farei faculdade de arquitetura. Minha terceira faculdade, o que é que tem?

– E como é que você vai fazer com cálculo diferencial?

Responde meu marido estraga prazeres. Só porque eu não consigo calcular nem o troco do ônibus se não olho para os meus próprios dedos. Digo que não posso fazer decoração, simplesmente, pelo mesmo motivo alegado pelo meu irmão (que é arquiteto, mas da área de urbanismo) “Se você é decorador, vão perguntar se você também faz cafezinho. Se você diz que é arquiteto, aí sim as pessoas vão respeitar”. Por que minha genialidade tem que estar limitada a esses pequenos detalhes numéricos? Proponho a volta aos moldes antigos da arquitetura, de como era antes da descoberta da perspectiva – farei maquetes do que eu pensei e a gente faz mais ou menos o que está lá… (descobri isso vendo History Channel)

– Oras, você calcula pra mim. Pra que serve casar com um engenheiro?

Meu sonho é ser Niemeyer. Eu direi – “Ó, tive a idéia de fazer uma grande construção em forma de olho, em cima de uma base amarela fininha. Calcula aí, Luiz!”