Estímulo

Por causa do ódio que eu tinha das aulas de ballet quando criança, bailarinos não em despertavam nenhum tipo de inveja. Não achava nada demais nas habilidades de alguém num palco, que fazia questão de nem prestigiar. Quando ao físico, achava que essa gente precisava ganhar uma pãozinho com manteiga. As coisas começaram a mudar dentro de mim de uma maneira muito sutil, graças à Janine. Ela sempre me elogiou como aluna de pilates, a maneira como eu era concentrada, como aprendia rápido, como tinha boa consciência corporal. Mas ela nunca me confundiu com uma bailarina e nunca me disse que eu seria uma boa bailarina. Percebi que comecei a sentir ciúmes do quanto ela dava importância a isso, passei a ter raiva cada vez que um bailarino aparecia e ela logo percebia “quando vi o pé, a postura”. Passei a desejar que ela me falasse pra fazer ballet, que dissesse que eu levo jeito. Mas ela nunca disse. Hoje eu entendo, porque ballet é muito difícil e é uma tremenda responsabilidade falar isso para as pessoas. Algumas acham que você é fiadora delas para sempre.

Minha energia para ser escultora estava no fim e me recomendaram o programa de um banco, que teria um site de vendas internacionais. Essencialmente, a única coisa que precisava era ter conta lá e pedir pra entrar no programa. Na época, eu tinha uma amiga de orkut, que estava na mesma situação que eu: desempregada, querendo vender seu trabalho (bijoux) e não conseguia. Quando me falaram do programa, fiquei entusiasmada e contei pra ela. Vocês não imaginam a dor de cabeça que isso foi. Ela me enchia de perguntas, não apenas quando eu contei – toda semana ela vinha me encher o saco. No início respondia, depois mandei ela se informar no site mas nada adiantava. Ela queria saber se dava certo, se era garantido, se eu estava vendendo, o que estava acontecendo, ela não ia entrar no escuro, etc. Percebi que o fato de ser sugestão minha, na cabeça da criatura, me tornou responsável. Se ela entrasse, se não desse certo, se gastasse muito ou se a unha quebrasse, a culpa seria toda minha, pra sempre (e se desse certo seria obrigada e benção, claro). Como se não bastassem as minhas próprias dúvidas, tinha que aguentar as dela. No fim, o site e a amizade acabaram. E eu passei a pensar mil vezes antes de sugerir coisas para as pessoas.

Algumas pessoas nascem de bunda pra lua. Elas são apadrinhadas, oferecem emprego pra elas, substituem uma pessoa importante que já estava com toda a clientela feita, olheiros a convidam pra fazer parte de algo super legal. Conheço vários casos e nenhum deles me envolve… As pessoas não apenas não me deram emprego como nem ao menos me sugeriram um caminho. Então, tive que desenvolver uma regra pra mim mesma: quando eu quero muito que alguém me sugira, é porque eu devo ir. Na falta de alguém de fora me dizer, digo eu mesma: VÁ. Porque se for esperar isso do mundo, continuarei deitada na minha cama.
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