Limpeza

Jogar fora a minha sapatilha de ponta – uma Giseli número 8 – não foi difícil. Assim como a saia azul cortada que eu usei pra dançar na Ópera de Arame e o que restou do espetáculo infantil de contemporâneo. A roupa de marinhera do Musical fica, como uma fantasia. O vestido de malvada-recalcada do espetáculo de moderno vai ser reformada e virar um lindo pretinho básico. Porque eu não estou jogando fora o meu passado com dança, ele apenas está sendo substituído. Eu finalmente encontrei meu caminho, e essas coisas não são necessárias num espetáculo de flamenco. Essa é a grande questão das limpezas – a gente só consegue jogar fora quando algumas coisas ficaram muito claras.

 

Apenas quando comecei a fazer sociologia eu pude jogar fora todo o meu material de psicologia. Até então, cada ano eu arriscava um pouquinho, jogava fora as coisas menos prováveis. A psicóloga só foi enterrada quando nasceu a socióloga. E hoje, passo pela mesma coisa com o material de sociologia – cada vez um pouquinho. Já joguei fora o material de ciência política, inclusive uns textos sobre escolha racional e instituições italianas que eu gostava muito. Mas tenho consciência de que não tenho temperamento pra energia que o debate político provoca. Por isso, servirão apenas como aprendizagem pessoal e não precisam fazer parte do meu material de consulta. O restante do meu imenso material está sendo digitalizado. Não deixa de ser uma maneira de jogar fora, quando vejo a quantidade de pastas que consegui que foram embora.

 

A parte mais importante e emocionalmente difícil da limpeza das últimas semanas tem sido o que se refere à escultura. Eu estou cansada de saber que deu tudo errado e que eu fiz tudo errado. Que professor não é apenas aquele que dá a técnica, a gente faz parte de uma escola e é através dela que somos apresentados ao meio. Eu não tive nada disso, fui largada. Daí não soube me posicionar, não gostava e não conhecia as regras do mundo artístico. Na prática, minha carreira foi muito virtual, algo que não nasceu direito. Mesmo assim, as coisas estavam todas aqui: meu macacão, meus flyers, certificados, portfolios, material de trabalho (até mesmo um saco de 40 kg de gesso com a validade vencida!), as peças. Ah, as peças! São como filhas para mim e, ao mesmo tempo, pelo fato de atravancarem a minha sala, um atestado de fracasso. Nesses últimos dias tenho revisto e jogado fora tudo isso. Sim, até esculturas eu joguei no lixo. Acredito que estão ornando casas de catadores de papel.