Cantar

Se tem uma coisa que me mata de admiração é quem canta. Acho de uma exposição gigantesca, mais ainda do que dançar. É você, é a sua voz, olhando para o seu público. Tentando fazer com que ela chegue aos ouvidos até aquela outra pessoa lá do fundo. Se eu danço e a pessoa fecha os olhos, já não posso fazer mais nada; a voz se impõe. Acho que existem várias implicações psicológicas nisso, na meu problema em soltar a voz, então tentei fazer aula de canto. Rolou uma empatia imediata, então eu e a Isabel nos tornamos amigas. Tadinha – ela vivia tendo que “discutir a relação” comigo – que eu tinha feito aquele agudo agora há pouco, que visualizasse minha voz alcançando lá longe, que minha voz era bonita, esse tipo de coisa. Porque eu ia bem nos exercícios e empacava na hora de cantar. Sempre. Eu sabia que não tinha lá muita potência e a certeza veio de forma cruel: no dia em que deixei a escola, as maldosas secretárias deram a entender que eu ficava a aula inteira batendo papo, porque elas nunca tinham ouvido minha voz…

Também por influência da Isabel, tentei entrar no Coral da UFPR. Porque admiro muito o trabalho deles e porque acho que cantando no meio de um monte de gente eu me soltaria. Ela me disse que o teste era bem simples, que era só imitar umas escalas no piano. Coisa que eu fazia nas aulas. O problema era como era feito o teste. Eu chegava lá e tinha sempre muita gente na sala – umas trabalhando, outras batiam papo, algumas esperavam o horário da sua própria aula. Aí o professor sentava na frente do piano e já ia tocando, o teste rolava sem maiores cerimônias. Eu tinha vontade de perguntar: “Mas não vai nem rolar um beijinho antes?”. Porque cantar sempre me pareceu uma exposição, uma nudez. E eu não conseguia fazer isso no meio daquela gente, sem a menor intimidade. Precisando me despir psicologicamente, não deu outra: não passei no teste por dois anos seguidos. Esse limite vou ter que deixar como está.